Estados Unidos: correções insuficientes no Iraque

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O resultado das eleições de novembro de 2006 nos Estados Unidos, ao assinalar a vitória do Partido Democrático, acentuou os debates acerca do encaminhamento da II Guerra do Golfo. Embora dificilmente possa mensurar-se, de maneira objetiva, a influência de determinados temas sobre o eleitor, é factível mencionar que o confronto no Oriente Médio situa-se bem acima da espuma política do dia-a-dia em Washington.

 

No entanto, o centro do interesse atual da Casa Branca na formulação da política externa não se relaciona mais com a linha de frente do castigado território iraquiano, observada de modo desgostoso até pelos mais renitentes neoconservadores. A concernência situa-se no Irã, estimado como o mais viável membro a ingressar no seleto clube nuclear, o que atemoriza vários planejadores e tomadores de decisão estadunidenses.

 

Dentre todos eles, o de maior visibilidade é o vice-presidente Dick Cheney, desgastado administrativamente pela exoneração em dezembro de 2006 do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, porém ainda detentor de influência considerável sobre o presidente George Bush, por sua vez, debilitado politicamente perante o próprio Partido Republicano – já desesperançado de uma vitória no pleito presidencial de 2008.

 

Contudo, a velha guarda republicana - formada pelo próprio George Bush Sr., por James Baker e pelo General-de-Divisão (da reserva) Brent Scowcroft, dentre outros -  pressiona para que não haja a primazia da aplicação da força na questão iraniana. No momento, há o reconhecimento de sua prevalência, haja a vista a nomeação do substituto de Rumsfeld.

 

Robert Gates - ex-Diretor da Agência Central de Espionagem durante a gestão Bush Sr - foi integrante da Comissão (James) Baker-(Lee) Hamilton, de matiz bipartidário, que, dentre as conclusões a que chegou, recomendou à Casa Branca o emprego da diplomacia com o Irã e com a Síria.

 

A chegada de Gates impôs-se no momento em que o Iraque desarticula-se mais e mais. A despeito ainda de Washington negar a possibilidade de que haja uma guerra civil – aproxima-se ou mesmo relaciona-se o comportamento dos opositores ao mero banditismo, ao desvinculá-los de uma concepção política adotada -, ela poderia ser traçada no meado de 2004, no momento em que dirigentes iraquianos receberam dos quase cônsules norte-americanos o controle político formal do país.

 

A partir de lá, a par do objetivo comum de tanger as forças armadas estadunidenses, xiitas – líderes do novo governo - e sunitas - identificados com o regime extinto - digladiam-se de maneira intermitente. Cidades como a própria capital Bagdá, em que as duas vertentes religiosas conviviam sem distinção geográfica, deparam-se a todo momento com manifestações de ira. De certa forma, revive-se o espectro do Líbano onde, durante década e meia, cristãos e muçulmanos enfrentaram-se severamente.

 

Não seria fácil, no entanto, para o governo norte-americano reconhecer o estado de degradação política do Iraque, se se considera que uma das principais justificativas para invadi-lo – ou ocupá-lo, consoante o linguajar dos republicanos – havia sido exatamente a obtenção de um virtuoso remodelamento, por meio de ação pressurosa.

 

Mesmo de mau grado, ao apontar que há tão somente indícios de uma guerra civil, o governo Bush não poderia aceitar a responsabilidade oficial pelo estilhaçamento do Iraque, o que acarretaria para si subscrever a própria ida ao cadafalso político. Ações já avaliadas há muito tempo como um ataque ao Irã ou à Síria poderiam ser suspensas até o fim do mandato republicano. Outrossim, haveria maior pressão da opinião pública para o retorno, o mais breve possível, dos efetivos lá instalados.

 

Por outro lado, muitos democratas tratam a situação iraquiana como um caso de conflito civil, de sorte que se identifique – diante do eleitorado estadunidense - o Partido Republicano como o causador do caos emergente. Enquanto o debate nos Estados Unidos acalora-se entre os dois grandes partidos, a matança no Iraque segue, de modo lamentável, em ritmo ascendente.

 

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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