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A monotonia do mal Imprimir E-mail
Escrito por José Benedito Pires Trindade   
Sexta, 11 de Abril de 2014
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É tudo sempre igual. É tudo muito antigo. É tudo tão aterrador.

 

Na captura de índios para a escravidão, nos primeiros séculos da Colônia, havia os que fugissem das bandeiras, os que resistissem, os que se rebelassem quando cativos ou os que morressem de trabalhar, pois, como se sabe, desde aquela época, índio é bicho preguiçoso, vagabundo incorrigível, inútil e invasor de terras.

 

Mesmo depois que Santa Madre concluiu que os índios tinham alma, eles continuaram caçados e massacrados, e genocidas como Borba Gato e Raposo Tavares continuam sendo celebrados, especialmente pelos paulistas, como heróis do extermínio, porque teriam feito avançar nossas fronteiras.

 

De uma só feita, Raposo Tavares preou 200 mil índios, no território que é hoje o Paraná.  Milhares morreram na captura e outros tantos na condução até o mercado paulista. Efeitos colaterais que os bandeirantes já previam, daí a necessidade de apresar grandes quantidades, para repor as perdas.

 

(A mesma preocupação de Alberto Speer, ministro de Armamento de Hitler, constantemente pressionando Hitler, Himmler e Heydrich por mais prisioneiros para as fábricas de armas do Reich, já que a  mortalidade entre esses escravos  - basicamente judeus, comunistas e eslavos - era muito grande).

 

A indolência dos índios foi substituída pela escravidão dos negros africanos. A Santa Madre, que deu alma imortal aos índios, mas não condenou sua escravização, também concedeu o benefício da eternidade à alma branca dos negros, e não se opôs à senzala e ao pelourinho.

 

Em relação ao quase extermínio dos índios e à ignomínia da escravidão dos negros, tudo o que se disse, se desculpou, discursou e chorou é uma gota em um oceano incomensurável, sem extensão ou profundidade, de dor e terror.

 

Por mais que a história do Brasil e de seu povo se estenda pelos séculos e séculos, nada purgará a nossa crueldade, omissão e conivência. Mesmo porque somos reincidentes. Diariamente, vemos repetir, com requintada perfeição, os mesmos crimes. E diante deles, reprisa-se o comportamento omisso, conivente, abúlico, indiferente, qual seja o adjetivo de escolha.

 

Qual foi a reação do país, das tais autoridades constituídas no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no Ministério Público e da malfada e nunca suficientemente deplorada mídia, às revelações medonhas do coronel Paulo Malhães sobre as torturas, assassinatos, esquartejamentos e sumiço de restos mortais de presos políticos?

 

A mesma reação indiferente, logo cúmplice, à informação, largamente difundida, de que no processo de “conquista” do Complexo da Maré, Rio de Janeiro, em 15 dias, 16 bandidos foram mortos “em confronto” com o Exército e o BOPE (PM). Do lado das “forças pacificadoras”, sequer um fio de cabelo deslocado.

 

Não há quem não saiba que não houve “confronto”. Não há quem desconheça que apenas no “confronto” entre desarmados e armados não há feridos nas “forças da ordem”. Porque não há feridos na tropa que executa, que fuzila perigosos bandoleiros... desarmados.

 

Na biografia de Heinrich Himmler, Peter Longerich detalha as ordens do Reichsführer SS sobre “ as execuções em confronto”  da Schutzstaffel com a resistência ao nazismo ou com criminosos comuns.

 

Quando esteve no Brasil, como adido militar da França , indicado pelo  grande democrata Georges Pompidou,  para orientar o SNI, o CIE, o CENIMAR, o CISA, os DOI-CODI e o “esquadrão” Fleury, o general Paul Aussaresses reafirmou as lições básicas do “confronto” armado com os subversivos e o desaparecimento de restos mortais. Na Argélia, tropas francesas sob seu comando assassinaram mais de 4.500 guerrilheiros nessas refregas em que só um lado estava armado.

 

O general genocida reafirmou as lições porque ele já as houvera ensinado na Escola das Américas, de que foi um dos principais instrutores nas técnicas de interrogatório, da tortura, do confronto e do sumiço de corpos. Aussaresses foi professor dos brasileiros das Forças Armadas que frequentaram o centro de formação de assassinos no Panamá.

 

Executar, montar cenas de “confonto”,  assassinar e desaparecer corpos, especialidades de Himmler e Aussaresses tão bem assimiladas por aqui.

 

Ah, sim! Tanto um como outro chamavam a atenção para a colaboração dos meios de comunicação a fim de que a farsa fosse absorvida pela opinião pública.  No início da ascensão do nazismo e durante a guerra da Argélia, os meios de comunicação foram um  instrumento fundamental para que os assassinatos indiscriminados fossem encarados como “normais”.

 

Quem hoje, que tenha  mais de 40 anos, não haverá de se lembrar  das vozes graves  e impostadas de Cid Moreira e Sérgio Chapelin informando  diariamente, no “Jornal Nacional” da Globo, os “confrontos” entre os subversivos e as forças de segurança do regime, que resultavam sempre, vê-se, na morte dos terroristas, com a incolumidade de  sempre dos repressores?

 

Antes das “emoções das novelas dos oito”, a contabilidade diária das execuções de subversivos, educando o brasileiro para a farsa, a impiedade, a indiferença e a conivência.

 

Todos os dias, insistentemente, a mídia noticiava os “confrontos”, onde, é claro, só os terroristas morriam. Da mesmíssima forma com  que os jornalões, as televisões e o rádio, especialmente os tais “programas policiais”, fazem hoje ao noticiar, todos os dias, os “confrontos” entre  bandidos e a polícia, onde só  bandidos morrem.

 

Os tais “autos de resistência” e “resistência seguida de morte” são expressões incorporadas pelo jornalismo brasileiro com a mesma passividade e conivência dos tempos dos assassinatos dos que se opunham à ditadura. O  jornalismo investigativo de Veja, Estadão, Folha de S. Paulo, Organizações Globo, Zero Hora, Estado de Minas, Correio Braziliense e que tais, tão obcecado pelos malfeitos petistas, jamais investigará as execuções extra-judiciais e o contínuo desaparecimento de corpos no país.

 

A cobertura do “caso Amarildo” deveu-se unicamente à coincidência entre o desaparecimento do rapaz e as manifestações que à época explodiam no Brasil, um tema a mais para desgastar Sérgio Cabral. Aliás, o corpo não foi localizado e a mídia cansou-se do assunto, que vem aí a CPI da Petrobrás.

 

A morte da servente de serviços gerais (é adorável o preciosismo da mídia ao revelar a profissão dos pobres e negros) Cláudia Silva Ferreira, assassinada com  um  tiro nas costas e outro no pescoço, e depois arrastada pelos carros dos policiais, provavelmente, seus assassinos, semanas atrás, só foi à mídia pela brutalidade do caso e a pronta intervenção de organizações de direitos humanos e blogs.

 

Mas nenhum jornalista investigativo importou-se com o prontuário dos policiais envolvidos no ato. Um deles participou de 13 “autos de resistência seguida de morte”, o outro, de três. Que “resistências seguidas de morte” foram essas? Com o se deram? Quem foi executado? A Polícia, o Ministério Público, o Judiciário apuraram os fatos?

 

É claro que não.

 

Há uma presidente a ser derrotada pela frente, para que a mídia e seus jornalistas investigativos percam tempo com uma servente de serviços gerais, negra e pobre, uma dos 50 mil brasileiros que serão assassinados até o final do ano, a maioria negros e pobres, a maioria em “autos de resistência”, como na Alemanha nazista, na Argélia e no Brasil da ditadura militar.

 

O esquadrão da morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, de Milton Dias, de Alberto Barbour, de Walter Rolim Brasileiro, de João Carlos Tralli, o Trailer, de José Carlos Campos, o Campão, de Ademar Augusto de Oliveira, o Fininho I, de Antônio Augusto de Oliveira, o Fininho II, de Angelino Moliterno, o Russinho,  de Astorígenes  Correia de Paula e Silva, o Correinha, para citar apenas os mais notórios e sádicos assassinos da troupe, cujas especialidades foram contratadas para a repressão política, esse esquadrão de executores nunca deixou de existir.

 

Em São Paulo, a Rota, e, no Rio, o mitificado BOPE não permitem que a peteca caia. E assim teremos, repita-se, até o final do ano, 50 mil cadáveres produzidos, em sua maioria, na “resistência seguida de morte”.

 

Ah, sim! (de novo).

 

A resolução nº 8, de 21 de dezembro de 2012, do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, determinou que os termos “autos de resistência” e “resistência seguida de morte” devem ser trocados nos boletins de ocorrência respectivamente por “lesão corporal decorrente de intervenção policial” e “morte decorrente de intervenção militar”.

 

Deus do céu! Atento, piedoso, justo e inexistente senhor! O que isso impediu, de 2012 até hoje e de hoje até que se faça a Revolução Brasileira, que as execuções extrajudiciais continuassem e continuem a ser praticadas com a mesma impunidade de sempre? Mudar a nomenclatura altera o quê, paspalhões?!

 

Desmemoriados da crueldade com os índios, desmemoriados da ignomínia da escravidão dos negros, desmemoriados da tortura, assassinatos e desaparecimento de corpos durante a ditadura, desmemoriados do nazismo, da Batalha de Argel, da Indochina, do Vietnã e da Coreia, desmemoriados dos assassinatos de centenas de milhares de resistentes latino-americanos, entre 1950 e 1990, continuaremos empilhando cadáveres.

 

Impiedosamente.

 

 

José Benedito Pires Trindade é jornalista.


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Última atualização em Terça, 22 de Abril de 2014
 

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