Classes e luta de classes: a direita em transe

 

 

A rediscussão tanto das estratégias e das experiências das lutas de classe dos últimos 60 anos, quanto da perspectiva socialista, está reemergindo na sociedade brasileira, pelo menos através de três impulsos contraditórios e interligados.

 

Primeiro, pelas demandas apresentadas nas manifestações de junho de 2013. Em segundo lugar, pela crescente exigência de que o governo Dilma, sendo reeleito, aprofunde as reformas democráticas e populares para atender àquelas demandas. Depois, pela ofensiva ideológica e política da direita militar e civil contra o governo Dilma e o PT, em articulação com a avaliação dos 50 anos do golpe militar de 1964.

 

Começando pelo final, a tônica geral da ofensiva ideológica e política da direita pode ser medida principalmente por algumas mensagens verbais, como o discurso de Paulo Chagas, um general de divisão do Exército; por trabalhos com aparente viés acadêmico, como o texto 10 Anos do PT e a DesConstrução do Brasil, do coronel José Gobbo Ferreira; e por mensagens eletrônicas de chamamento público e aberto para manifestações contra o governo e o PT, a exemplo do “Sem Copa”.

 

O general Paulo Chagas foi taxativo: “a chegada do PT ao poder e os dez anos de sua permanência na direção do país criaram, além do caos social, moral e econômico, a incerteza quanto ao futuro das instituições republicanas...”. O PT “não deixa de alimentar a intenção de transformar o Brasil numa República Socialista Bolivariana”. O coronel Boggo, na introdução de seu trabalho, abandona o verniz acadêmico e reclama ter sido “bombardeado pela propaganda” do PT na televisão, “narrando as maravilhas de seus dez anos no governo”. Para descobrir a que Brasil tal propaganda se referia, ele resolveu “revisar e ampliar o trabalho” que apresentara no exterior, “buscando construir... uma visão bem mais abrangente sobre o que realmente ocorreu no Brasil”.

 

Ao contrário do general Chagas, o coronel Boggo vai muito além da suposta pretensão petista quanto à implantação de uma República Socialista Bolivariana. Segundo pensa, a “postura política do PT”, ao não admitir “alguma forma de governar melhor” que a dele, pretende perpetuar-se no poder com um “Reich petista” eterno. A primeira consequência dessa postura política seria o fato de o país ter “atravessado, nesses últimos tempos, uma fase em que a corrupção, o patrimonialismo, o desprezo pela moralidade” teriam chegado a níveis insuportáveis. A tal ponto que “a população consciente, revoltada com esse estado de coisas”, estaria chegando ao limite de sua capacidade de suportá-lo.

 

Nesse sentido, nada muito diferente do que afirma o general Chagas. Para este, “a reação recente da sociedade nas ruas, em que pese o ‘show da guerrilha urbana’ que tenta desvirtuá-la, mostra que o povo deu-se conta dos males que representam para seu futuro o aparelhamento do Estado, do primeiro ao último escalão; o domínio completo do aparato sindical; a concentração de meios, a logística, o treinamento, o dispositivo e o incentivo dados às ações e pretensões dos chamados ‘movimentos sociais’; a concentração de recursos financeiros, visíveis e invisíveis, nas mãos dos ‘corruPTos’; a cada vez mais evidente ligação do ‘ParTido’ com o crime organizado; e a coordenação e o controle exercidos pelo Foro de São Paulo sobre os horizontes de seus associados”.

 

Ainda segundo o general Chagas, “todo este potencial reunido nos induz a considerar a possibilidade e a probabilidade de que grandes tumultos, demonstrações de força, quebra-quebras, greves ilegais e tudo o mais que compõe o repertório destrutivo da esquerda radical venham a ocorrer, se as pesquisas de opinião indicarem com clareza a derrota de Dilma no processo de reeleição. O primeiro objetivo do tumulto será inviabilizar o pleito e o segundo será fazer crer aos desavisados e aterrorizados cidadãos de bem que a situação da ordem pública e a ‘pacificação nacional’ dependem da permanência dela e dos corruPTos no poder!”.

 

Ou seja, o general prevê o caos se as pesquisas indicarem que presidenta não será reeleita. Mas o coronel acadêmico, ao contrário dele, afirma que o caos será inevitável em qualquer das hipóteses. Segundo pensa, a “pressão do vapor, nessa caldeira em que se tornou nosso país, está subindo perigosamente”. Fatos “portadores de futuro” apontariam para “uma explosão, que pode se tornar sangrenta”, probabilidade que aumentaria “a cada dia”.

 

Assim, o general Chagas alerta que, caso sua premonição se concretize, não passará de “ledo devaneio” alguém imaginar que “a circunstância adversa e a ‘disciplina’ das Forças Armadas farão com que elas, para evitar uma guerra civil, aceitem e respaldem a ‘solução da casa’, ou, no mínimo, que se omitam diante do golpe”. Já o coronel Boggo dá como certa a implantação de uma ditadura petista, lembrando que, “em todo regime ditatorial, os fins sempre justificam os meios”.

 

Com isso, o coronel escorregou num conhecimento de causa que ele e o general Chagas fazem força para eludir a respeito do período vivido pelo país entre 1964 e 1985. Mas só quem desconhece a história daquela época pode deixar de reparar que os argumentos desses dois militares contra o PT, o governo Dilma e a luta popular são cópia escrachada dos argumentos utilizados pela direita militar e civil para executar o golpe militar de 1964.

 

Naquela ocasião, os militares que conspiravam, juntamente com representantes da grande burguesia e do governo norte-americano, também esgrimiam como um de seus pretextos preferidos a suposta intenção do presidente João Goulart, do PTB, do PCB e dos sindicalistas de se “perpetuarem no poder” e “estabelecerem uma ditadura”. Os representantes civis e políticos da burguesia agiam de modo tão escrachado pela ação militar que até mesmo o marechal Castello Branco, num momento de lucidez, os chamou de “vivandeiras de quartel”.

 

O general Chagas, o coronel Boggo e outros militares empenhados em reeditar o passado ditatorial apenas repetem os argumentos que devem ter utilizado quando participaram, como aspirantes ou tenentes, do golpe militar de 1964. Na verdade, expressões e análises idênticas podem ser encontradas em discursos e textos de um sem número de autores civis e militares, desde os anos 1950. Elas foram assacadas contra Getúlio Vargas, entre 1951 e 1954. Foram reiteradas contra Juscelino Kubitschek, entre 1955 e 1960. E foram atiradas contra João Goulart, em 1961 e nos anos seguintes, até culminarem no golpe militar de 1964.

 

Não deixa de ser bisonho que esses militares e seus epígonos civis demonstrem tão pouca criatividade e se vejam obrigados a copiar as ideias golpistas correntes nos anos 1950 e 1960. O coronel Boggo chega a escrever que o “PT é constituído por uma mescla de sindicalistas pouco afeitos ao trabalho e de esquerdistas de todos os matizes”. É verdade que, a essa mescla, o coronel acrescenta os “remanescentes dos grupos guerrilheiros, urbanos e rurais, que pretendiam estabelecer um regime comunista no Brasil, na década de 60”. Grupos que teriam sido derrotados pela “eficiente atuação das Forças Armadas”. Substitua-se o PT pelo PTB, PCB e outras siglas de esquerda de 50 a 60 anos atrás, e teremos a mesma justificativa que a direita militar utilizou para implantar e consolidar a ditadura castrense.

 

Embora bisonha, tal justificativa é, ao mesmo tempo, trágica. O Brasil e o mundo vivem momentos históricos muitos diferentes. Nos anos 1950 e 1960, o Brasil era pressionado a manter uma clara opção de alinhamento ativo com o campo hegemônico norte-americano. Grande parte das Forças Armadas, a exemplo dos generais Estillac Leal e Teixeira Lott, tinha uma postura nacionalista. Mas outra parte, a exemplo dos generais Cordeiro de Farias e Castello Branco, estava em associação com os capitais e os interesses dos Estados Unidos. E tinha o apoio da grande burguesia, que dominava os meios de produção e de comunicação. Os militares eram pressionados a assimilarem, no plano externo, os postulados estratégicos da guerra fria e, no plano interno, a hostilizarem os sindicatos, as forças políticas progressistas e os socialistas e comunistas.

 

Essa situação tornou-se mais tensa à medida que as lutas de libertação nacional se disseminaram pelas antigas colônias e que a luta de classes no Brasil colocou em pauta a discussão em torno do projeto de nação que o país deveria seguir. Vargas foi deposto, em 1954, não pela corrupção de sua guarda presidencial. Pesou muito mais o fato de ele não haver enviado tropas brasileiras à guerra da Coréia, ter atacado a remessa de lucros das empresas estrangeiras, ter assinado o decreto do monopólio estatal do petróleo e não ter realizado uma repressão indiscriminada contra as greves operárias.

 

Naquela ocasião sequer se podia dizer que Vargas flertava com os comunistas, que se opunham a seu governo. Mas era acusado de condescendente com o comunismo. A Escola Superior de Guerra elaborava uma doutrina que tinha o comunismo como “inimigo interno”. Ele seria representado pelos sindicatos de trabalhadores urbanos, pelos intelectuais, especialmente os de esquerda, pelas organizações e movimentos de trabalhadores rurais e pelos estudantes e professores universitários.

 

Segundo o que depois se chamou Doutrina de Segurança Nacional, todo esse espectro de categorias, organizações e movimentos representava séria ameaça ao país, por levar água ao moinho comunista. Tal ameaça teria que ser extirpada sem contemplação. Desse modo, a luta de classes no Brasil acabou sendo marcada indelevelmente, durante os anos seguintes, por um combate fratricida contra o comunismo, aí catalogado tudo que era democrático e popular e, mais tarde, até mesmo liberal e conservador light. Esta é a mesma visão que ainda hoje domina a mente da direita militar e civil.

 

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político


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