Desorganização social

 

 

Um dos três maiores jornais do Brasil colocou o término do julgamento da ação penal 470 na manchete principal, no dia 14/3/14, da seguinte forma: “STF livra petista de um dos crimes e encerra julgamento do mensalão”. Existem afirmações imprecisas e tendenciosas nesta manchete, mostradas a seguir, que bem comprovam a mídia conservadora que possuímos.

 

A primeira imprecisão desta manchete é ligada ao fato de o verbo “livrar” em português corrente ter o significado de “escapulir” ou “conseguir se soltar”. Acoplado ao ditado popular, que diz que “onde há fumaça, há fogo”, na percepção do povo quem se livrou é porque tinha culpa e conseguiu enganar os juízes. Notar que não foi dito que “o STF reconheceu seu próprio erro anterior”.

 

Sobre este ponto, muitos veículos de comunicação buscaram induzir os receptores das informações a concluírem que, com a recente nomeação de dois novos ministros do Supremo, este tribunal passou a julgar os acusados desta ação penal erradamente. Estes veículos não aventaram a hipótese de o julgamento com o plenário anterior ter sido equivocado e, agora, corrigido. Assim, esta imprensa toma partido, não informa e só catequiza. Ainda por cima, se declara como isenta.

 

O segundo ato tendencioso é ligado ao fato de se dizer que o “criminoso livrado” é um petista. Segundo o mesmo jornal, no final do julgamento, foram condenadas 24 pessoas e eu só consegui contar cinco petistas entre eles. É certo que existem petistas do primeiro escalão entre os condenados, mas o que a imprensa deseja é associar o PT, como um todo, à corrupção.

 

O que Fernando Henrique Cardoso fez, ao comprar votos para poder modificar a Constituição e, assim, conseguir se reeleger presidente, foi, por acaso, uma prática democrática? Baseio-me no depoimento do deputado federal, à época, Ronivon Santiago, réu confesso. Ele teria muito a testemunhar, mas nunca foi criado um processo. Onde estava a mesma mídia tão pronta a denunciar corrupções?

 

O terceiro ato tendencioso consiste no fato de dizer que o STF livrou o petista de um “crime”. Na linguagem comum, a manchete está dizendo que o petista cometeu mesmo a ilegalidade. Este jornal não segue uma norma básica de qualquer veículo isento de comunicação. Enquanto o réu for somente um acusado, pode-se dizer que ele “cometeu um suposto crime”. Depois de condenado em última instância, aí sim se pode dizer que ele “cometeu um crime”.

 

A palavra “mensalão” pressupõe quantias corruptoras entregues com periodicidade mensal. Isto nunca foi provado, entretanto, choca muito mais a população falar de uma corrupção continuada do que falar de corrupção pontual. Esta é a quarta e última imprecisão na manchete de doze palavras.

 

Portanto, cuidado com as notícias, pois podem trazer graves consequências para o entendimento do mundo. Muita gente com discernimento lê os jornais e não vê, ou não quer ver, problema algum. Aliás, todos os grandes jornais, revistas e televisões pecam da mesma forma. Como pode a população brasileira crescer politicamente com tanta manipulação das informações? Este é um fator de contribuição para a desorganização da sociedade.

 

Outro fator desorganizador da sociedade é a comunicação de massas, feita por e-mails e outras ferramentas eletrônicas, de grupos radicais. Por exemplo, recebi um e-mail, intitulado “ATENÇÃO PARA A ÚLTIMA CHAMADA...” (mas, pode estar sendo distribuído com outros nomes), que divulga o vídeo do YouTube com este endereço: https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=0OntVL1Fl_o . Se possível, veja você mesmo o vídeo.

 

Ele convoca os brasileiros para irem a uma passeata no dia 22 de março, cujo objetivo é pressionar para as Forças Armadas darem um golpe. Aparece na tela, claramente: “Intervenção já”. Este grupo quer que as Forças Armadas desrespeitem a Constituição. Ele é um grupo incitador da desordem. Além de torcer para que a lucidez política do brasileiro esteja em nível tal que permita a ele refugar este convite, gostaria de ver algumas medidas serem tomadas pelo governo brasileiro.

 

Apesar de tais medidas serem autoritárias, pois buscam tolher a realização de uma passeata, elas são a exceção permitida dentro da democracia. Porque não se pode usar a liberdade democrática para conspirar contra a própria democracia.

 

Em primeiro lugar, as Forças Armadas poderiam emitir uma nota para a população brasileira, declarando a obediência cega aos princípios democráticos constantes da Constituição. Desta forma, elas estariam tranquilizando a população, que saberia que não haverá pressão de grupo golpista que poderá tirá-las do caminho constitucional.

 

Em seguida, gostaria de ver a Polícia Federal procurar os incitadores do golpe e, se os descobrisse, gostaria de ver o Ministério Público enquadrar os autores desta chamada como incitadores do desrespeito à Constituição. Instituições precisam ser perenes e, para tanto, precisam ser sempre respeitadas. Eventuais mudanças devem ser feitas conforme previsto na democracia.

 

Leia também:

Os 50 anos do Comício da Central – coluna de Paulo Passarinho

Abaixo a ditadura! – coluna de Leo Lince

 

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania.

Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/

Comentários   

0 #2 Discordo....CARLOS MARQUES 19-03-2014 14:14
Já comentei esse assunto em outro site. O fato de membros de outros partidos participarem de falcatruas não justifica o erro do PT. Ora, se alguém pula do alto de um prédio sabendo que vai morrer você faria a mesma coisa???? Sinto muito mas como militante do PT que fui durante muito tempo, não concordo. Nós lutamos por um Brasil diferente, não para praticarmos os mesmos atos que julgamos ilícitos.
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0 #1 RE: Desorganização socialvalter 19-03-2014 12:20
nunca vamos ver isso por parte deste governo do pt alias se os militares der um grito sai todos eles correndo este governo e o pt ta contribuindo e muito pra ter um golpe ao desmobilizar os trabalhadores e povo
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