Belo Monte é o nosso sangue derramado

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Morreu na sexta-feira, 7 de março, de bicicleta, atropelada por um caminhão-caçamba no centro da cidade, a minha aluna Aline Flor, estudante de Biologia na Universidade Federal do Pará, em Altamira. A tragédia foi especialmente marcante pela violência: seu corpo foi destruído, com morte instantânea, por ter acontecido no principal cruzamento da cidade e por se tratar de uma estudante doce e gentil, como seu nome sugere, querida por todos na universidade. Mas, infelizmente, não se trata de uma exceção: todos os dias morre pelo menos um anônimo em algum ponto dessa cidade, que era tranquila, quase bucólica até poucos anos atrás, antes do início das obras de Belo Monte.alt

 

Em minhas aulas de Ecologia, falando sobre os efeitos das barragens, eu preferiria sem dúvida tratar de questões biologicamente instigantes, como o efeito das grandes enchentes exacerbadas pela construção de hidrelétricas, como aquela que se observa neste momento no rio Madeira, sobre a biodiversidade e estabilidade dos seus lagos periféricos. Mas, enumerando os impactos das barragens, eu e meus alunos inevitavelmente nos deparamos com questões de outra natureza, como o impacto das obras sobre os preços dos alimentos e aluguéis e sobre a violência do trânsito na cidade.

 

Sempre que o assunto vem à tona, são muitos os depoimentos de como a cidade se tornou perigosa para pedestres e ciclistas depois do início das obras. Invariavelmente, todos assumem expressões de genuína preocupação e, enquanto escrevo, quase vejo Aline, em meio a outros estudantes, externando sua preocupação. Eu, que até pouco tempo me orgulhava de ter um meio de transporte “verde”, sustentável, aposentei minha bicicleta por causa do trânsito caótico. Se pudesse, Aline certamente também o teria feito, mas dependia dela para ir do posto de gasolina onde trabalhava até o campus da universidade. E morreu atropelada no trajeto.

O aumento no número de mortes no trânsito de Altamira está claramente associado à construção de Belo Monte, mas defensores da obra, nesse caso específico se eximem de qualquer responsabilidade, pois o caminhão que matou Aline Flor era de uma empresa contratada pela prefeitura. Os barrageiros culparão então a administração do município. Se o trânsito na cidade subitamente ficou caótico por causa da barragem e se as condicionantes relacionadas à infraestrutura da cidade foram ignoradas, também não é problema deles. A prefeitura por sua vez vai culpar a tal empresa. A Justiça, talvez, culpe o motorista bêbado, segundo testemunhas e fama pela cidade. Ou nem isso, porque a Polícia Civil se recusou a fazer um boletim de ocorrência com o depoimento das colegas de Aline. Finalmente, os mais cínicos ainda culparão a vítima, por ter tentado aproveitar um sinal amarelo.

 

altEu culpo a hidrelétrica de Belo Monte. A questão do sinal amarelo é irrelevante. No meio da cidade, um veículo com aquele poder de destruição tem que estar sempre pronto para parar diante de qualquer um que surja em sua frente, especialmente diante de um sinal amarelo. Como uma criança atrás de uma bola ou o que for. Do motorista, eu queria saber: por que tanta pressa em uma cidade que se atravessa de ponta a ponta em menos de meia hora a 20 km/h? Ele certamente não recebe nenhuma orientação ou fiscalização decente do poder público.

 

A cidade, antigamente um paraíso inocente à beira do Xingu, hoje está lotada de caminhões e ônibus trafegando em alta velocidade, como se estivessem nas autopistas de Belo Horizonte, São Paulo ou Rio, onde seus motoristas foram “treinados”.

 

Culpo os governos do PT, que apostaram tudo nesse projeto alucinado, apesar de as discussões virem do tempo de FHC, ou antes ainda, do Sarney, na verdade dos governos militares. Culpo Lula, que, em sua visita a Altamira no último ano do seu segundo mandato, tive o prazer de vaiar, e ainda mais Dilma, grande idealizadora da concretização do projeto quando ministra das Minas e Energia de Lula.

 

E também a elite local, que faz muitos anos se aliou aos barrageiros predadores itinerantes, entregando a eles a cidade em troca de migalhas. E a grande parcela do povo brasileiro que se deixa ludibriar por uma imprensa vendida para defender a todo custo a ideia de que as hidrelétricas seriam uma “energia limpa”. É suja, e de sangue, como se pode ver. E também emite muito carbono, como o petróleo, antes que eu me esqueça.

 

Culpo gente que lê e corrobora um lixo como o artigo do jornalista Agostinho Vieira, que chamou a questão do cumprimento ou não das condicionantes de Belo Monte uma “falsa polêmica”, no Globo de 26/12/2013. “O mais recente debate em Belo Monte gira em torno das condicionantes. As obras da usina estariam andando mais rapidamente do que as compensações ambientais e sociais. Condicionantes são condições, exigências, contrapartidas. Se elas não forem entregues, a usina não entra em funcionamento no início de 2015, como está previsto. Um cenário ruim para os empresários, os moradores e o governo”. Aí estaria a falsa polêmica.

 

E quem morrer no caminho, atropelado ou pela falência do sistema de saúde, como que fica? E as centenas de famílias que no momento estão desalojadas porque as águas do Xingu já estão parcialmente barradas e o rio enfrenta uma cheia recorde? Como que se fecha o rio antes de transferir as famílias para as suas novas casas? Como ficam essas famílias? Elas certamente não consideram a questão das condicionantes para antes ou depois da finalização das obras uma “falsa polêmica”.

 

Ganha um copo de açaí com banana quem citar outra cidade brasileira que esteja recebendo tantos recursos no mesmo espaço de tempo”, escreveu. Que piada de mau gosto. A cidade está entregue ao caos! Só acredita num troço desses quem deliberadamente resolver se enganar e fechar os olhos para esta tragédia.

 

Por isso também os considero culpados pela morte de Aline Flor e das centenas de outros trucidados diariamente pela passagem do trem da morte de Belo Monte por Altamira.

 

Por que a morte desses jovens não causa comoção como a dos 242 do incêndio da boate Kiss no Rio Grande do Sul? Para as famílias dos mortos a dor é a mesma. A única diferença é que, na cidade gaúcha, morreram todos juntos, enquanto aqui é um a mais quase que a cada dia.

 

Por outro lado, a tragédia que assistimos das mortes violentas de jovens em Altamira foi prevista e aceita como irrelevante ou inevitável pelo Estado brasileiro, e pela nação como um todo. Nação que ainda trata a região amazônica com a mesma sanha colonialista e predatória com que Portugal tratou o Brasil antes da Independência. Por isso a morte violenta de um jornalista em uma manifestação na “metrópole”, para citar um exemplo recente, é amplamente noticiada e discutida, enquanto que a da nossa estudante, linda, gentil e batalhadora, na “colônia”, é ignorada em escala nacional.

 

Leia também:

As hidrelétricas, a nova cheia histórica do rio Madeira e as tergiversações de Dilma


Comentários   

0 #3 hipócrita quem?Luiz Ramirez 24-03-2014 11:01
Belo Monte é uma fraude largamente comprovada, todos sabemos. Recheada de fraudes, além de ser meramente uma farra pros grandes consumidores e financiadores de campanha, dentro de um setor que está em colapso pela total submissão ao mercado livre.
Agora, o que pode ser mais hipócrita do que um comentário que trata uma tragédia dizendo "morrer faz parte de viver", ainda por cima se escorando em outros aproveitamentos hidrelétricos (inclusive alguns desastrosos)?
Difícil viu, ainda mais quando a retorica é semi-fascista: "vá pra outro planeta". Gente assim é que devia ir pra algum lugar bem longe de uma verdadeira civilização.
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0 #2 RE: Belo Monte é o nosso sangue derramadoTatiana 20-03-2014 13:18
Em todas as cidades pessoas morrem atropeladas, vítimas de violência e tantos outros motivos. E morrer faz parte de viver. Até onde me consta, Altamira usa energia elétrica. Caso contrário, eu não estaria lendo este artigo. Quer de dizer que podemos ter energia, desde para produzir eu não seja incomodado? Usem os rios do nordeste, do sudeste, do sul, mas o de Altamira não. Afinal, "um paraíso a beira do Xingu", uma cidade que derrama esgoto e joga lixo naturalmente, faz gato de energia, realmente é uma cidade diferente das demais e não pode nem deve ser incomodada pela produção de energia elétrica. Faz um favor senhor professor, muda de planeta! Seu artigo é hipócrita e desrespeita outros moradores que foram atingidos por barragens pelo mundo a fora, para gente como você pudesse usufruir do conforto que a energia elétrica traz.
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0 #1 Belo Monte é o nosso sangue derramadoEdnay de Cerqueira L 19-03-2014 16:58
Sem dúvida assim o seria, e possivelmente haverá muito mais incidentes semelhantes.
Sem contar o da própria natureza ambiental. Mas, com as justificativas governistas manipulantes dizem ser coerentes, os objetivos e ações, para que se conclua o projeto e incorporação da Belo Monte diante da nação.
Certamente, logo será absorvida a ideia de benfeitorias pela sociedade do em torno, e que o número de perdas na localidade será necessária para o sucesso e alegrias daqueles poucos burgueses que lá residem.
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