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A crise da Ucrânia. Quem derrubou o presidente Viktor Yanukovich? Imprimir E-mail
Escrito por Clovis Oliveira   
Qui, 13 de Março de 2014
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Um levante popular? Uma revolução democrática?

 

Na verdade, não houve uma revolução democrática e popular na Ucrânia em fevereiro de 2014. Yanukovich foi derrubado da presidência por um golpe de Estado desferido pelo parlamento, e apoiado na mobilização dos partidos de direita, dos quais Udar e Pátria são os principais, e de partidos nazistas, como o "Partido da Liberdade" (Svoboda), o "Causa Comum" e o "Setor Direito", uma torcida organizada do clube de futebol do Dínamo de Kiev, que atuou como tropa de choque das manifestações da Praça da Independência (Praça Maidan), e de várias outras correntes políticas da forte extrema-direita ucraniana.

 

O Svoboda merece alguns comentários específicos. É um partido anti-comunista e antissemita, que tem a sua origem no Partido Nacional Social da Ucrânia, que por sua vez tem as suas raízes na Divisão Galícia das Waffen SS, uma unidade auxiliar do exército nazista, constituída de ucranianos, que lutou na 2ª Guerra Mundial contra a URSS e teve uma parcela de responsabilidade no genocídio de 800 mil judeus na Ucrânia.

 

Para avaliar a fidelidade à sua origem, basta saber que em 2013 o Svoboda homenageou os 70 anos da constituição da Divisão Galícia da SS, com os seus militantes usando uniformes daquela antiga unidade militar nazista e identificados pela suástica nos capacetes.

 

Em 6 de março de 2013, em Cherskasy, cidade próxima de Kiev, no transcorrer de uma manifestação pública, seis militantes do Svoboda tiraram as suas jaquetas, deixando ver na camiseta a frase "Golpeiem os judeus", fato que iniciou um conflito generalizado na manifestação (Informação de boletim de 12/3/2013, da "Agência Telegráfica Judaica"). No entanto, o correspondente na Ucrânia do Zero Hora, jornal de Porto Alegre, baseado em dois depoimentos de judeus, está dizendo que o alerta dado por "Putin não comove os judeus de Kiev", como se fosse mera propaganda russa. Sem dúvida, é preciso aprender melhor as lições do holocausto.

 

O Svoboda é uma organização perigosa. Fez 10% dos votos na eleição de 2012, quando elegeu 36 deputados para o parlamento. Em algumas regiões do oeste chegou aos 40% dos votos. Tem vínculos com a Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus, que agrupa organizações ultra-nacionalistas ou nazistas daquele continente.

 

O Svoboda e os outros grupos nazistas representaram 30% dos manifestantes presentes na Praça Independência, defendendo o lema "Deus e Pátria". São o setor mais organizado e mobilizado, e a quase totalidade daqueles que se envolveram diretamente nos confrontos com a polícia. Como em outras situações históricas, os grupos nazistas estão associados aos interesses de setores do empresariado, que os financiam.

 

Não é por acaso que a Rússia teme o que se passa na Ucrânia de hoje. Ainda está viva a memória das dezenas de milhões de russos mortos pelo nazismo durante a 2ª Guerra Mundial.

 

A direita ucraniana e inclusive os nazistas contaram com o apoio público do imperialismo norte-americano e europeu, empenhado em uma ofensiva que tem a Rússia como alvo político e econômico, destacando-se aí o imperialismo alemão, que parece estar revivendo a velha ideologia da expansão do espaço vital da Alemanha para o Leste, como já aconteceu várias vezes durante o século XX, resultando nas duas guerras mundiais.

 

O governo de Yanukovich, mais identificado com a Rússia, não resistiu à pressão da Praça da Independência. Estava muito enfraquecido pelos graves problemas existentes no abastecimento da população e pela insatisfação popular com as reformas neoliberais que destruíram (e prometem destruir mais ainda) as conquistas sociais do antigo Estado operário. Uma parte da população vive a ilusão de que os seus problemas poderão ser resolvidos com a incorporação da Ucrânia à Comunidade Européia. Afora tudo isto, o governo Yanukovich estava tomado pela corrupção.

 

O avanço da direita na Ucrânia


Algumas organizações de esquerda respaldaram as manifestações da Praça da Independência e, ao desconsiderarem que estavam controladas pela extrema-direita e pelo imperialismo, repetiram os mesmos erros cometidos nos anos 90 no processo de desconstituição da Iugoslávia, quando acabaram confundidas com as ações militares da OTAN e do imperialismo.

 

É preciso dar mais atenção à História do movimento operário para entender que nem todas as manifestações públicas são "populares e democráticas", empregando as expressões usadas por quem pensa assim. O fascismo subiu ao poder na Itália em 1922, e o nazismo na Alemanha em 1933, em meio a processos políticos que contaram com manifestações públicas e massivas de bandos paramilitares, articuladas com golpes de Estado urdidos no parlamento. De forma alguma, estes acontecimentos poderiam ser caracterizados como revoluções populares. Pelo contrário, tratava-se de uma ofensiva reacionária, que tinha por objetivo golpear em profundidade a organização dos trabalhadores.

 

Quem se iludiu com as manifestações da Praça da Independência, a ponto de achar que se tratava de uma "revolução popular e democrática" acontecendo, tem agora uma oportunidade para se redimir do erro cometido. A partir da derrubada de Yanukovich, ficou de uma vez por todas perfeitamente esclarecido o caráter direitista do movimento da Praça da Independência.

 

Não temos nenhuma ilusão no Partido Comunista da Ucrânia, uma sobrevida da velha organização que levou a URSS à desgraça, mas não somos neutros em relação aos ataques que estão sofrendo. As sedes deste partido foram invadidas e existe uma tentativa de torná-lo ilegal. A sua bancada de deputados está proibida de tomar os seus lugares no parlamento (Rada).

 

Foram destruídos os monumentos existentes em Kiev, que homenageavam a vitória da União Soviética na luta contra o nazismo na 2ª Guerra Mundial, e também estátuas de Lênin.

 

O parlamento suprimiu o russo, até então a segunda língua oficial em regiões que representam a metade da Ucrânia. A Rada está agora ocupada pelos grupos nazistas, que fazem a segurança do prédio, em nome do novo governo.

 

A esta altura, é um exercício político bom e necessário examinar a forma como se deu a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha, e compará-la com os acontecimentos similares que estão ocorrendo na Ucrânia. Para nós, a conclusão é que o monstro está se criando.

O golpe de direita ocorrido na Ucrânia, com todos os seus antecedentes na Praça da Independência, reforçou um quadro internacional de avanço da direita, em particular na Europa, onde também ocorreu o crescimento do partido nazista "Aurora Dourada", que obteve algum sucesso eleitoral na Grécia. O crescimento do nazismo e da extrema-direita acaba sendo uma das piores e mais perigosas consequências da crise econômica internacional.

 

Um histórico do golpe

 

Na eleição de 2010, Yanukovich fizera 1 milhão de votos a mais do que Iulia Timochenko (Partido Pátria), condenada depois à prisão por corrupção e assassinato.

 

Yanukovich e seu Partido das Regiões tinham elegido 210 dos 450 deputados da Rada e, juntamente com o Partido Comunista da Ucrânia (32 deputados) e independentes (10 deputados), logrou obter uma frágil maioria parlamentar para governar.

 

A partir daí, abriu-se um espaço político que mais tarde redundou na aproximação da Ucrânia com a União Aduaneira Euro-Asiática, liderada pela Rússia, e no recuo em relação à integração com a Europa Ocidental, que tanto motivou as mobilizações da Praça da Independência.

 

Logo depois das 100 mortes, quase todas elas causadas pela polícia de Yanukovich, entre os dias 18 e 20/2/2014, a Rada negociou em 21 de fevereiro um acordo de trégua, que no entanto não foi aceito pelos manifestantes, que exigiam intransigentemente o fim do governo de Yanukovich e acusaram os parlamentares de traição aos que estavam na praça. Em 22 de fevereiro, com a situação completamente fora de controle, o presidente fugiu de Kiev e foi destituído pela Rada por 328 votos a zero, um resultado em parte consequência do temor dos parlamentares que estavam cercados pelos manifestantes na praça.

 

Com a subida ao poder de Alexandr Turchinov (Partido Pátria), enquanto presidente provisório, foi definida uma nova eleição presidencial para 25 de maio e o retorno à Constituição de 2004, que dá mais poderes ao parlamento.

 

É importante registrar, inclusive para entender a importância dos nazistas no novo governo, que o vice-primeiro-ministro do governo Turchinov é um deputado do nazista Partido Svoboda, e que também o são o ministro da Educação, o ministro da Política Agrária e do Abastecimento, assim como o ministro da Ecologia e Recursos Naturais. Uma série de outros cargos no novo governo também são ocupados por militantes do Svoboda.

 

Turchinov rompeu imediatamente o acordo aduaneiro com a Rússia e pediu 35 bilhões de dólares de ajuda para a Europa e o FMI, como forma de contornar a crise do país. Até o momento, depois de ficar sem os 15 bilhões de dólares anteriormente prometidos pela Rússia, o governo da Ucrânia recebeu a promessa de alguns poucos bilhões de dólares por parte dos EUA e da Europa, ainda por cima condicionados à realização de drásticas reformas estruturais, todas elas contrárias aos interesses dos trabalhadores.

 

A possibilidade de Turchinov ou de a direita e extrema-direita que o apoiam dar uma saída para as dificuldades vividas pelo povo ucraniano é inexistente, ainda mais levando em consideração as dificuldades do capitalismo europeu em prover subsídios para a Ucrânia em meio à crise econômica.

 

Como acontece em outras situações no plano internacional, o mundo árabe por exemplo, não existe na Ucrânia uma direção revolucionária e independente dos trabalhadores, capaz de capitalizar esta situação.

 

A crise de direção revolucionária é o problema incontornável que sempre se manifesta nas situações da conjuntura internacional. Por um lado, ela abre espaço para a intervenção do imperialismo e das direitas dos mais diversos matizes, inclusive as fascistas, como é o caso da Ucrânia, até as religiosas, que são a direção política das massas na Síria e no Egito.

 

Por outro lado, a crise de direção confunde uma parte da esquerda revolucionária, fazendo com que muitos setores se precipitem através de caminhos equivocados em meio aos acontecimentos, em busca de um atalho ilusório para a construção de uma direção política, às vezes acabando por confundir as suas ações com as intervenções imperialistas.

 

A Ucrânia está perto da divisão

 

A Ucrânia poderá acabar dividida em dois países, cada um com aproximadamente a metade dos 45 milhões de habitantes e dos 603 mil km² (bem mais do que o dobro da área do estado do Rio Grande do Sul). Um ao oeste, de língua ucraniana, onde está localizada a enorme região devastada pelo desastre nuclear de Chernobil, e outro ao leste e sul, de língua e/ou etnia russa, onde estão localizadas as indústrias e as terras agrícolas mais importantes.

 

É preciso também considerar que a Ucrânia e a Rússia possuem laços culturais, religiosos e econômicos que unem estes dois países há muitos séculos, e que este é um fator importante, pelo menos para uma das partes da população ucraniana.

 

A República Autônoma da Criméia, de população predominantemente russa, e localizada no sul da Ucrânia, entrou agora de forma contundente na pauta política da crise ucraniana.

 

Em 1954, em uma época em que a União Soviética era um bloco monolítico, e não faziam muita diferença as fronteiras entre as chamadas repúblicas soviéticas, porque a burocracia mandava de forma autocrática em todo o país, Kruschev, primeiro-ministro da URSS, incorporou a Criméia à República Soviética da Ucrânia. O que parecia ser naquele momento um mero ato administrativo da poderosa burocracia soviética está fazendo muita diferença nos dias de hoje.

 

O repúdio dos russos da Criméia e do leste da Ucrânia ao golpe da direita em Kiev e às restrições que foram postas ao idioma russo já se iniciou. Um congresso realizado em Jarvik, abrangendo representações da região leste e sul, recusou a autoridade de Kiev. O parlamento da República Autônoma da Criméia determinou cortar o pagamento de impostos a Kiev.

 

Já se verificaram as primeiras deserções nas forças armadas da Ucrânia, de militares que se subordinaram à autoridade da República Autônoma da Criméia, como foi o caso do almirante que comandava a marinha de guerra da Ucrânia.

 

De imediato, o exército russo respaldou a sublevação dos ucranianos russos e ocupou a Criméia a partir de Sebastopol, onde está localizada uma base naval da Rússia, ali estabelecida através de uma concessão de longo prazo feita pela Ucrânia. A base naval de Sebastopol é estratégica para o controle do Mar Negro e do Mar Mediterrâneo, e está diretamente relacionada com a presença militar da Rússia na Síria.

 

No dia 16 de março próximo, um plebiscito decidirá se a Criméia se manterá na Ucrânia ou vai se incorporar à Federação Russa. Algumas cidades do leste da Ucrânia também farão plebiscitos desta mesma natureza.

 

A ofensiva imperialista no Leste

 

Estão presentes na situação da crise política da Ucrânia elementos que caracterizam um forte choque inter-imperialista, onde o imperialismo europeu e norte-americano desempenha um papel expansionista em direção ao leste, enquanto a Rússia representa a parte mais fraca, aquela que se encontra na defensiva.

 

É preciso considerar nesta discussão que as conquistas sociais da Revolução de Outubro de 1917 foram completamente expropriadas pela burguesia, e o capital financeiro internacional já está alojado na Rússia há muito tempo. Na verdade, a Rússia foi incorporada ao mercado capitalista mundial em uma posição subalterna e hoje é um país de capitalismo atrasado, em larga medida subordinado ao capital internacional, podendo ser comparado ao Brasil, ambos os países eufemisticamente chamados de "emergentes".

 

A distinção que precisa ser feita em relação à Rússia é que ela conserva o poder militar e tecnológico da antiga URSS, agora recuperado por Putin. A Rússia possui um arsenal nuclear do mesmo porte que o norte-americano.

 

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança político-militar hegemonizada pelos EUA e surgida durante a guerra fria, incorporou todos os países do leste europeu, ou seja, as antigas democracias populares ou, como as chamávamos, os Estados operários burocratizados, em sua maioria submetidos ao poder da extinta União Soviética.

 

A expansão da OTAN passa agora pela tentativa de incorporação da Ucrânia, a primeira a ser tentada entre as 15 repúblicas que constituíam a URSS, algo que colocaria esta aliança militar imperialista na fronteira com a Rússia.

 

Os passos futuros desta ofensiva apontam claramente na direção da fragmentação da Federação Russa, o caminho para o capital financeiro internacional se impor como dominante na Ásia Central, uma estratégia geopolítica que foi pensada por Zbigniew Brzezinsk, Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, no governo de Jimmy Carter, de 1977 a 1981.

 

O imperialismo norte-americano ameaçou a Rússia de retaliações políticas e econômicas em virtude da sua presença na Criméia, já que é difícil para os EUA fazerem a retaliação militar a um país que renovou e fortaleceu as suas forças armadas, como é o caso da Rússia. Para complicar a situação para os EUA, a Rússia passou a contar com o apoio aberto da China, que ameaçou retaliar os EUA, ostentando para isto a sua qualidade de principal credora da dívida pública norte-americana.

 

 

Leia também:

Batalha da Ucrânia: EUA derrotam e humilham a Rússia

 

Clovis Oliveira é professor de História e membro do Centro de Estudos e Debates Socialistas (CEDS) de Porto Alegre.

 

Para a elaboração deste texto foram utilizadas informações do artigo "O lado Escuro da Revolta na Ucrânia: Neonazistas compartem o poder", de autoria de Conn Hallinan, traduzido do inglês para o espanhol por "Izquierda Punto Info", da Argentina (8/3/2014).

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Última atualização em Terça, 18 de Março de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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