Enchentes: de Sobradinho a Santo Antônio e Jirau

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A cena final do filme “Apocalypse Now” nivela o homem primitivo que mata um búfalo a golpes de facão – num ritual pagão – a um soldado norte-americano que elimina outro soldado norte-americano também a golpe de facão. Além do mais, a eliminação era uma operação secreta do próprio exército estadunidense. O recado de Francis Coppola era óbvio: as tecnologias evoluíram, mas o ser humano continua tão primitivo quanto seus ancestrais da pedra lascada no trato aos seus semelhantes.

 

Vendo as enchentes que acontecem no rio Madeira, por causa da construção das barragens, impossível não relembrar as monumentais enchentes acontecidas no São Francisco quando da construção da barragem de Sobradinho, ainda na década de 70 do século passado.

 

A inundação das cidades, a remoção caótica da população, a total falta de controle das corporações técnicas sobre o volume das águas, a tensão emocional e psicológica das populações impactadas por danos físicos, morais, econômicos e emocionais para todo o sempre. Pior dos piores, o cinismo oficial que lava as mãos diante da tragédia que ele mesmo provocou.

 

Não há o que aprender. São fatalismos acabados, com crueldade de um abutre que corrói o fígado de Prometeu pelos séculos dos séculos sem fim. As empresas, os políticos, as corporações técnicas não precisam aprender e nem querem mudar. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) estima que um milhão de pessoas no Brasil experimentaram e experimentam esse tipo de indiferença, algo próximo dos leões que eliminam os filhotes de seu antecedente quando conquista uma nova alcateia.

 

A mídia, os políticos, as corporações técnicas se expressam pela voz do consórcio que constrói Belo Monte: “depois que essa obra estiver concluída, ninguém vai se lembrar desses detalhes”. Eles, de fato, não. O povo jamais voltará a ter sossego depois da construção de uma barragem.

 

Só uma vez na vida vi um técnico considerar o desastre ambiental e social que está por detrás da construção de uma obra, como essa, para garantir a energia para o capital. Foi o hidrólogo João Abner. Num debate sobre a Transposição de águas do São Francisco, ele disse: sou grato ao povo do São Francisco que pagou horrores para que eu pudesse ter energia elétrica na minha casa no Rio Grande do Norte.

 

A metáfora de Coppola continua de pé. Criamos tecnologias, leis, contratos e uma parafernália infernal para vivermos em sociedade. Entretanto, quando se trata de definir interesses, os donos do poder são tão primitivos como seus ancestrais que sacrificavam seres humanos para saciar os deuses sanguinários de suas religiões.

 

 

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Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.


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