Infância violentada

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Em meio a todas as vicissitudes por que passa o Brasil, imaginamos que não há nada mais capaz de chocar-nos além do que já estamos todos enojados e estarrecidos. Mas infelizmente há sempre horrores a surpreender-nos ainda mais.

 

Na última terça-feira, a vereadora Liliam Sá, do Paraná, declarou na CPI do Turismo Sexual que há denúncias de pontos de prostituição infantil em vários pontos do estado do Rio de Janeiro. Também chegaram à CPI informações de que há meninas se prostituindo em Sepetiba por R$ 1,99.

 

Ao lado e além do fato, triste e desalentador, há a cifra que espanta pelo simbolismo que carrega em si.

 

Há muitos anos, a cifra R$ 1,99 virou um símbolo da estabilidade econômica popularizado em milhares de lojas de todo o país. O Plano Real ganhava credibilidade e o consumidor brasileiro via com tranqüilidade crescente artigos vendidos a R$ 1, 99, mostrando que se podia confiar no modelo econômico brasileiro, que saíra definitivamente da inflação galopante em que estivemos mergulhados durante longos anos. Agora R$ 1,99 denuncia uma espantosa instabilidade: a do nível de segurança em que vive grande quantidade de crianças e adolescentes em nosso país.

 

No ano passado, lemos espantados na grande imprensa a notícia de que a cifra R$ 1,99 tinha, nas cidades de Curitiba e Paranaguá, conotação bem diferente que a de calmaria econômica no cenário brasileiro. A simbólica e positiva cifra significa a maneira pela qual são conhecidas algumas ruas dessas cidades paranaenses onde meninas de 11 ou 12 anos - muitas já envolvidas com drogas - fazem programas ao ar livre por R$ 1,99 ou outros valores irrisórios.

 

Estreitamente ligado ao problema da prostituição infantil está, portanto, o imenso monstro da droga e do narcotráfico. Muitas dessas meninas se prostituem para obter droga. Por causa do crack que precisam cheirar e/ou vender, fazem sexo por qualquer dinheiro. Os clientes são caminhoneiros que param em postos de gasolina à margem das estradas federais. Ou marinheiros, em geral estrangeiros, que lotam bordéis na área do porto. No Rio de Janeiro, recentemente, a Polícia Rodoviária Federal identificou 1.918 pontos vulneráveis à ocorrência de casos de violência sexual contra crianças ao longo dos mais de 60 mil km de rodovias federais.

 

Tudo isso mostra que a exploração da prostituição infantil ainda é um crime sem castigo, que acontece impune, disfarçada de “atendimento ao turista” ou mostrando mesmo sua cara hedionda, sem se preocupar com disfarces. Vários anos depois de o presidente Lula eleger o combate à prostituição infantil como questão de honra de seu governo, ainda há meninas menores que vendem o corpo pelo preço irrisório de R$ 1,99, R$ 0,50 ou mesmo por um prato de comida. Apesar das promessas e dos propósitos, um levantamento recente mostra que muitas das principais organizações criminosas identificadas em 2003 pela CPI da Prostituição Infantil do Congresso não foram sequer investigadas e continuam atuando livremente.

 

Como sempre, as vítimas mostram a face da fraqueza maior: pobres, do sexo feminino e negras, elas continuam sendo alvo indefeso às terríveis explorações do tráfico e do sexo. Às vésperas do Dia da Criança, o Brasil chora a inocência agredida de suas meninas. E espera medidas enérgicas e eficientes por parte de um governo que, se espera, ainda queira investir no futuro do país.

 

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

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