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Quem semeia ventos colhe tempestade Imprimir E-mail
Escrito por José Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras   
Sexta, 21 de Fevereiro de 2014
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A nossa pouco gloriosa mídia comercial – liderança sem contendor da oposição da direita - vive  um dilema angustiante  desde que as manifestações populares voltaram às ruas. Dizer que é uma dúvida hamletiana, seria uma concessão indevida à baixíssima qualidade do jornalismo, hoje; o melhor seria enunciar que se trata de um impasse “tostines”, mais adequado à compreensão dos arrivistas que  se impõem às redações.

 

A hesitação é: apoiar ou condenar as manifestações? Mostrar simpatias ou demonizar os Black bloks? Estimular ou condenar a repressão? Lei anti-terrorismo, sim ou não?

 

Depois da perplexidade inicial quando, seguindo seus instintos, desancou os “baderneiros”, a mídia realinhou-se, tão férteis e prolíferas as possibilidades do movimento. A sua natureza golpista vislumbrou “janelas de oportunidades” para fazer sangrar o governo petista.

 

Assim, vândalos e arruaceiros transmudaram-se em ativistas e militantes; jovens rebelados contra a má qualidade dos serviços públicos e a corrupção; e a desordem de antes passou a ser acolhida como manifestação apartidária e apolítica. É claro, com todas as advertências da mídia, notadamente o seu comando político-ideológico, as Organizações Globo, para que as massas se comportassem educadamente, sem violência, quebra-quebra e outras expressões de incivilidade, para não assustar a classe média, as senhoras católicas e os veteranos de 32, 45, 54, 55, 56, 59 e 64,  e tantas outras memoráveis batalhas.

 

A velha mídia, comercial e venal, e a velha oposição que ela comanda, agora acrescida dos tais “socialistas”, esqueceu-se, no entanto, de que, quando você tira o diabo para dançar, quem muda é você, não o diabo. É quem convida que se enquadra ao ritmo, não o tinhoso. Os demônios estão soltos e não há como recolhê-los. Logo mais, não haverá como domá-los também.

 

A crítica de figuras estelares da mídia a possíveis legislações anti-manifestações, gestadas pelos sempre disponíveis Romeros Jucás, por exemplo, mostra com que ansiedade os conservadores aguardam a chegada dos meses de maio e junho, quando, rezam aos céus, será enterrada a reeleição da presidente.

 

Quer dizer, o diabo está sendo insistentemente convidado para dançar. E, solto no redemoinho das manifestações, com máscara ou sem máscara, com fadas ou sem fadas, vai perder o controle e a Globo terá que se encarapitar nos prédios para fugir da turba multa, regerá o coro conservador exigindo lei e ordem, sairá à caça do demônio para trancafiá-lo, novamente.

 

E poderão ter êxito, ainda mais uma vez, desgraçadamente.

 

Afinal, o diabo ou a extrema direita, incluindo a PM de São Paulo e Rio de Janeiro, está animado: amontoa a Internet com piadas e mensagens grosseiras, atacando o PT por suas qualidades, nos tempos que ainda dependia da mobilização, aguerrida, da sua militância. Ataca o Senado e os petistas porque não passou o projeto reacionário que alterava a maioridade penal. E ataca também o ex-ministro Padilha por causa dos médicos cubanos. São os generais de pijama, e outros atuais, encarnados no diabo e saudosistas dos tempos de terror da ditadura.

 

Tudo isso passou, o PT mudou, não é mais o mesmo.

 

A ofensiva da mídia comercial, particularmente da rede Globo de Televisão, para criminalizar os movimentos sociais e as manifestações populares, com o objetivo de tirar o povo das ruas, tem a finalidade de legalizar o processo repressivo, com a lei antiterrorista, que tramita no Congresso Nacional.

 

A ofensiva fascista, também presente na Ucrânia e nas manifestações violentas da direita na Venezuela, é resultado da crise mundial capitalista e iniciativa dos  reacionários, tentando barrar a participação popular nas manifestações contrárias aos efeitos perversos da crise e aprofundamento das relações capitalistas, que costumeiramente recaem sobre as costas dos trabalhadores.

 

As classes dominantes brasileiras estão desesperadas com a certeza de que a crise já chegou ao Brasil, provocando queda na produção industrial, redução das vendas no comércio e aumento do custo de vida. Por isso aumentou o descontentamento popular contra as péssimas condições de vida, pondo em xeque o discurso mistificador de que a sociedade brasileira estava bem com os 11 anos de governo do PT.

 

O povo já não tem paciência. Cansou-se da corrupção, de obras superfaturadas, das remoções das comunidades em função da Copa do Mundo, dos péssimos serviços de transportes, saúde e educação. Cansou-se da repressão permanente nos bairros populares, onde a polícia mata pobres e negros. Mas a população sofrida já não tem medo de se manifestar, se rebela contra a polícia, queima ônibus, trens, bloqueia ruas e rodovias.

 

Por isso, a mídia comercial e os donos do poder se prepararam para uma guerra contra os trabalhadores, contra a juventude rebelada e a população em geral por causa da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Não podemos esquecer a orientação do Ministério da Defesa às Forças Armadas para tratarem os movimentos populares como forças oponentes e os manifestantes como inimigos de guerra.

 

O Senado brasileiro debate, com apoio de gente do PT, e de sua base aliada, uma lei antiterrorista, que prevê até 30 anos de prisão para quem atentar contra a ordem e o patrimônio público, como era a Lei de Segurança Nacional dos tempos de ditadura.

 

Portanto, vivemos tempos de muda. As contradições de classe expõem-se, escancaram-se de forma desabrida, violenta. Mas não temos ainda, como resultado dessa incompatibilidade, a consciência e a organização da classe que libertará o Brasil da barbárie capitalista.  Mesmo que sejam dias agitados, inquietos, não são ainda os dies irae, dies illa, solvet saeculum in favilla ( dias de ira, aqueles dias em que séculos dissolver-se-ão em cinzas).

 

Não são ainda aqueles dias, dies irae, apesar de toda a bulha, são ainda dias que se estendem como se fossem séculos, com o se o tempo se estirasse, se espichasse indiferente às brutais, selvagens e grotescas contradições que opõem as vinte mil pessoas que detêm a metade das riquezas e rendas nacionais, e os 200 milhões de brasileiros que, em hipótese, ficam com o restante.

 

Mas serão dias que, em poucos dias, condensarão séculos, quando, à frente das classes espoliadas, o partido da classe conduzir a luta final. Dias de ira, aqueles dias. Dias de tempestades incontroláveis, definitivas.

 

José Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras são jornalistas; Otto está lançado o livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.

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Última atualização em Segunda, 24 de Fevereiro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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