Estados Unidos e Síria no século XXI – ampliação da pressão política

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Nos próximos dias, há a chance real de que o trio amero-franco-britânico - apoiado por boa parte dos países médio-orientais - apresente uma resolução ao Conselho de Segurança das Nações Unidas com o objetivo de assegurar auxílio humanitário em todo o território sírio. O encaminhamento do texto dependeria ainda da posição da China e especialmente da Rússia, próximas do enfraquecido governo de Assad.

 

Se aprovada a proposta, o próximo passo seria o debate acerca de uma administração provisória até a Síria tornar-se formalmente democrática, o que finalmente subscreveria a meta definida pelos Estados Unidos no início do presente século, sob a presidência de George Bush.

 

Em janeiro de 2001, depois de uma apuração eleitoral parcialmente polêmica, os republicanos voltaram à Casa Branca. Com isso, eles trariam novas diretrizes à política externa executada no Oriente Médio e adjacências.

 

Com uma temerária conjugação de messianismo e de bazófia, Washington elaborou um projeto para aquela região direcionado à progressiva transformação política - de ditadura de diferentes matizes para democracia – e econômica – do relativo protecionismo para o pleno neoliberalismo -, porém, ao mesmo tempo, de manutenção do privilegiado relacionamento comercial - fornecimento ininterrupto de petróleo e gás.

 

Nas considerações norte-americanas, se houvesse o encerramento de regimes autoritários em alguns dos países daquela vasta área, como Irã e Iraque, por exemplo, o terrorismo fundamentalista enfraquecer-se-ia porque não encontraria mais acolhimento para desenvolver-se a contento.

 

Após o macabro atentado de setembro de 2001, a convicção dos formuladores neoconservadores reforçou-se, de sorte que os Estados Unidos deveriam implementar de modo imediato o programa de mudança em território médio-oriental. Contudo, havia hesitação sobre qual país se devia executar o novo ideário.

 

De certa forma, reviveu-se de maneira adaptada a metodologia do final do período bipolar para a classificação dos regimes ditatoriais: se fosse aliado ou alinhado - proximidade oficiosa - da esfera ocidental, considerar-se-ia autoritário o governo; se opositor, apenas totalitário.

 

No último caso, a transição para a democracia durante a Guerra Fria seria bem mais difícil porquanto vigeria o posicionamento de edificação de uma ordem, a comunista, bastante distinta dos cânones tradicionais.

 

Estes, por sua vez, se amparavam em redes, ainda que desiguais, de solidariedade política - na realidade, alicerçadas em bases patrimonialistas - e, por conseguinte, de enfronhados laços sociais – do local ao nacional.

 

Assim, a ação transformadora seria aplicada nos governos subsistentes da época da confrontação amero-soviética, como o iraquiano, iraniano, líbio e sírio – próximos em algum momento na época da confrontação bipolar da União Soviética. Não se incomodariam, a princípio, Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Coveite e outros.

 

Com a chegada da democracia, ainda que meramente formal, viria também a almejada estabilidade política aos olhos do Ocidente, apresentada à opinião pública mundial em termos gerais como paz.

 

Além da movimentação de organizações não governamentais e do emprego maciço dos meios tradicionais de comunicação, a Casa Branca anunciou em dezembro de 2002 a constituição da Iniciativa da Parceria Amero-Médio-Oriental – mepi.state.gov -, baseada parcialmente no Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

 

De acordo com o diagnóstico onusiano, a região possuía hiatos de liberdade política, direitos das mulheres e conhecimento científico. A crença em que a democracia seria o melhor caminho para a correção disso seria reiterada em atividades da National Endowment of Democracy no fim de 2003 - http://www.ned.org/publications/presentations/all/2003.

 

Paralelamente, caso a democracia se espraiasse sem contratempos, haveria boas condições para o estabelecimento de uma ampla área de livre comércio com o prazo originalmente estipulado para 2013, o que terminou por não ocorrer, visto que apenas cinco países assinaram acordos com os Estados Unidos.

 

Em janeiro de 2002, o governo norte-americano havia cogitado a inclusão da Síria no chamado Eixo do Mal – a Coréia do Norte seria incorporada de maneira que não parecesse uma frente anti-islâmica ou cruzadista. Em maio, ela seria mencionada pelo Departamento de Estado como parte de uma estrutura maior, ao lado de Cuba e Líbia.

 

De todo modo, a nova conjuntura foi-lhe desfavorável, ainda mais depois da aprovação das resoluções 1559 e 1595 do Conselho de Segurança, respectivamente de setembro de 2004 e de abril de 2005. Ambas foram de iniciativa dos Estados Unidos e da França. Diante da pressão norte-atlântica, a Síria retirar-se-ia do Líbano ainda no primeiro semestre de 2005, mas conseguiria preservar-se até o despontar da Primavera Árabe ao final de 2010.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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