Um perigo que quase ninguém está vendo

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Tenho dito e repetido duas coisas a respeito da reforma agrária: a primeira é que sem reforma agrária não há possibilidade de instaurar uma verdadeira democracia em nosso país, pela simples razão de que não há possibilidade de se conseguir uma verdadeira representação do povo no parlamento e no executivo.

 

Quando uma pessoa precisa desesperadamente da outra para poder comer, naquele mesmo dia, não tem a necessária independência para votar. Não por outra razão, a maioria das casas legislativas, nos municípios, nos estados e na União, está constituída por grandes fazendeiros, ou por filhos, ou por genros, de grandes fazendeiros.

 

A segunda afirmação diz respeito ao problema da fome: enquanto não for feita uma verdadeira reforma agrária, não haverá possibilidade de resolver o problema da fome. Porque uma grande parte da população – paradoxalmente, a parte que vive no campo – simplesmente não consegue obter um rendimento financeiro que lhe permita adquirir alimentos de qualidade nutritiva elevada, suficiente para recompor as energias perdidas no trabalho ou tão somente no simples fato de viver.

 

Mas esse problema não afeta apenas a população rural: a população pobre das grandes cidades também não come o suficiente para manter-se em um bom estado de higidez física. Uma vez, quando redigia um formulário sobre alimentação, incluí no questionário uma pergunta sobre quantas vezes por semana a família comia queijo. As pessoas que estavam comigo puseram-se a rir, dizendo: “o senhor não tem noção do tipo de alimentação das famílias pobres. Nenhuma delas come queijo”. Limitam-se a atenuar a sensação de fome, ingerindo quantidades de alimentos de baixo teor nutritivo, incapazes de repor as energias perdidas.

 

Hoje, quero acrescentar uma terceira observação: a impossibilidade de realizar a reforma agrária vai levar os sem terras, mais ou menos dia, a uma situação de tamanho desespero que eles passarão das marchas, ocupações e outros modos de protestos atuais, feitos com o único propósito de chamar a atenção da sociedade para o problema, à obtenção de terra mediante a violência física. Nessa hora, teremos instalada a guerrilha rural. Quem já passou pela Colômbia sabe o que isto significa em termos de imobilização da vida política do país.

 

Tudo isto para fazer duas críticas: a primeira delas, dirigida à presidente Dilma, que somente recebeu uma delegação de sem terras, que foi a Brasília falar com ela no marco dos 30 anos do movimento, depois que a polícia repeliu-os violentamente, sob grande repercussão do fato, afetando negativamente seu governo. O governo Dilma não está fazendo nada para realizar a reforma agrária. Basta ver que assentou menos sem terras do que o governo Fernando Henrique, uma pessoa que não pode nem sentir o cheiro de um sem terra.

 

A segunda crítica se dirige aos grandes jornais, que simplesmente ignoraram o fato ou deram sobre o mesmo uma informação falha ou negativa. Especialmente, a Folha de S. Paulo, que, no editorial do dia 15 passado, teceu uma série de considerações descabidas e mentirosas a respeito do movimento. A agir desse modo, a Folha (e meios de comunicação que seguem a mesma linha) presta um desserviço aos seus assinantes e ao país, pois impede que a população conheça um problema crucial para o seu pacífico e democrático desenvolvimento.

 

Termino com um apelo aos leitores deste jornal: apoiem o MST. Será uma contribuição que estarão fazendo ao país.

 

Plínio Arruda Sampaio foi deputado federal em 1963/1964 e 1985/1986, além de membro da Assembleia Nacional Constituinte entre os anos de 1987 e 1991. Também foi presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA). É diretor do Correio da Cidadania.

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