Estados Unidos e Rússia: impasse na crise síria

 

 

Na lamentável guerra civil síria, Estados Unidos e Rússia revivem de certo modo posturas da época da Guerra Fria. De um lado, os norte-americanos buscam desestabilizar o atual governo, remanescente anacrônico do período bipolar; de outro, os russos tentam mantê-lo, de sorte que o país possa ser sua base política no Oriente Médio – local aspirado desde a emergência da disputa com os estadunidenses depois da II Guerra Mundial.

 

Espectadores ansiosos, em vista de interesses específicos no intricado xadrez geopolítico, britânicos, franceses, israelenses, sauditas, iranianos e mesmo chineses acompanham o conturbado desenrolar de negociações pouco frutíferas até o momento – o denominado Genebra II.

 

Paralelamente às correntes tratativas genebrinas, centradas na difícil formação de um consenso de transição política, Washington atua em outro proscênio, de alcance muito mais extenso: o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

 

Lá, almeja-se aprovar uma resolução debilitadora da ditadura síria, ao relacioná-la à violação constante de direitos básicos da sofrida população, e, por extensão, possibilitar a substituição por um governo, mesmo transitório, mais afeito aos interesses ocidentais – a chamada oposição 'moderada', de tom mais secular.

 

Queixam-se os formuladores norte-americanos de que os russos barrariam a atuação naquele organismo sobre o caso sírio. Por outro lado, estes apontam que seus opositores deveriam prestar atenção aos insurgentes, seus aliados, de sorte que os contivessem em sua ação na confrontação militar. Na avaliação do Kremlin, aplicar sanções somente ao governo desequilibraria o andamento da guerra.

 

Relembre-se que a Casa Branca há menos de seis meses havia classificado a situação da Síria como uma das suas principais prioridades no tocante à segurança nacional, o que não significou a adoção de uma estratégia de êxito.

 

Reconhece a diplomacia estadunidense que a fragmentação daquele país estimula o acolhimento de grupos radicais, especialmente os fundamentalistas. Estes, por sua vez, incorporam ao seu ideário a reconfiguração de fronteiras, desde que firmada sob a égide religiosa.

 

Ao optar pela via onusiana, os Estados Unidos concentram-se em minar o regime autoritário não de forma militar, mas socialmente, ao enfatizar a crise humanitária que se estende por toda aquela vasta área, por causa da questão das centenas de milhares de refugiados.

 

Caso novos percalços se interpusessem no atual caminho multilateral, avaliado como pacífico e emergencial, restaria à Casa Branca considerar novamente a hipótese de recorrer à força.

 

Nas considerações de Washington, a simples menção a ela teria ocasionado, por exemplo, o descarte definitivo por parte de Assad do emprego de armas químicas de maneira disseminada.

 

Contudo, a dificuldade de organizar uma coligação ampla no curto prazo, depois da fracassada intervenção otaniana de uma década no Afeganistão, é visível, ainda mais em função dos altos custos em um momento de crise econômica mundial.

 

Por ora, identificam-se dois obstáculos no delineio de uma possível aliança bélica: uma interna ao próprio país, vinculada às rivalidades entre sunitas e xiitas. Além do mais, acrescentar-se-ia uma vertente religiosa – os alauítas, à qual se conecta o grupo de Assad – e uma étnica: a dos curdos, desejosa de autonomia ou, de forma utópica, de independência.

 

No território médio-oriental, há muito tempo reverberam de maneira intensa as divergências de fundo religioso: em um extremo, encontra-se a Arábia Saudita, mais próxima do sectarismo da oposição síria e conectada com o eixo Washington-Bruxelas (União Européia); no outro, o Irã, mais relacionado com o governo sírio e, deste modo, com vinculação de algum modo com Moscou e Pequim.

 

Diante do extenuante impasse, em que não prosperará a paz ou a vitória total de um dos contendores, as duas superpotências podem vir a estabelecer nas conversas em Genebra uma trégua, materializada em cessar-fogo.

 

Com isso, duas opções colocar-se-iam à mesa para análise do tema: manter o patamar amero-russo, calcado no eventual entendimento bilateral e, por que não, multilateral, ou delegar à execução regional, onde sobressairiam sauditas e iranianos.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.


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