Estados Unidos: a aposta síria em 2014

 

 

No final de janeiro de 2014, Washington e Moscou obtiveram, via preparação da Organização das Nações Unidas, a realização de um encontro dos principais grupos políticos sírios em Genebra, ao ter por meta o encerramento do confronto civil.

 

Embora resignados com o malogro militar no Iraque e Afeganistão, os Estados Unidos indicam a Síria em 2014 como o possível ponto de maior reversão de seus infortúnios políticos no Oriente Médio, ainda mais depois do recente entendimento, ainda que modesto, com o Irã.

 

Imersa em uma confrontação civil há quase três anos, a sociedade síria não apresenta condições de chegar por si mesma a um processo pacífico de transição de poder – estimam-se até o momento quase 150 mil mortes e cerca de dois milhões de refugiados.

 

Lá, os esperançosos ventos primaveris de substituição de regime – ou de dirigente ao menos – chegaram depois dos do Egito e Tunísia. Em seu começo, março de 2011, as manifestações foram pacíficas, originadas basicamente de estudantes – alguns deles seriam detidos por causa de pichações contrárias à ditadura.

 

Uma semana mais tarde, com a prisão dos jovens, houve demonstrações públicas onde se conjugaram insatisfação com o governo e solidariedade aos adolescentes. A resposta do regime foi a de empregar a violência para conter os atos. A consequência seria o registro de quatro mortes. Com isso, as movimentações de contestação se espraiariam por todo o território.

 

Em junho, os opositores conseguiram tomar o controle da primeira cidade, graças à deserção de forças militares e policiais. O feito geraria a perspectiva de que o país seguiria o mesmo compasso dos demais povos na região médio-oriental que haviam sido atingidos pelos bafejos da renovação.

 

A consideração entusiasta, porém parcialmente desvinculada da realidade local, faria com que os Estados Unidos aconselhassem ao ditador Assad a renúncia. Com o propósito de pressioná-lo, a Casa Branca embargaria ativos do governo sírio.

 

Ao longo do primeiro semestre de 2012, a oposição avançou bastante militarmente, ao chegar a controlar até boa parte da maior cidade do país, Alepo. Todavia, o crescimento não significou a formação de uma coligação política consistente.

 

Mesmo assim, Washington manteria seu interesse na deposição do regime e alertaria a ditadura que não toleraria a utilização de armas químicas.

 

No final daquele ano, a maior parte dos adversários do regime se reuniria na Coligação Nacional Síria, de sorte que facilitasse a obtenção de apoio internacional, principalmente do Ocidente, e se coordenassem com mais eficiência as ações bélicas.

 

Nos primeiros meses de 2013, o governo sírio, como contraponto, receberia auxílio externo mais significativo, ao acolher inúmeros milicianos do Hizbollah, apoiado pelo Irã, e contar com a solidariedade de Rússia e China. Por outro lado, os Estados Unidos passariam a ajudar diretamente a oposição, sob a justificativa de que o regime se valia do emprego de armamentos químicos.

 

Diante disso, a Casa Branca propôs ao Congresso a intervenção militar, ao passo que o Kremlin, a abertura de negociações. No caso, o primeiro tema do debate seria a retirada dos estoques de armas tóxicas do território sírio para posterior destruição por potências européias. A Síria terminaria por subscrever a sugestão, com a finalidade de enfraquecer a possibilidade de sofrer um ataque multilateral.

 

Paralelamente, a oposição dividiu-se de modo oficial. Mais extremado, o segmento secessionista apresentaria o plano de estabelecer um país islâmico. Dentro dele, há correntes favoráveis à união com o Iraque.

 

Desta maneira, as negociações em Genebra são importantes para a diplomacia norte-americana. A meta de destituir Assad, projeto compartilhado pela Arábia Saudita, mostra-se inviável no curto prazo, em função da oposição da Rússia e, em menor escala, da China e Irã.

 

Contudo, se houver o estabelecimento de um cessar-fogo, mesmo provisório, e a extensão do auxílio humanitário, especialmente aos refugiados, Washington conseguiria reduzir seu desgaste na região.

 

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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