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Escrito por José Benedito Pires Trindade   
Qui, 30 de Janeiro de 2014
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Quando a esquerda brasileira egressa da APML, do PCdoB, do PCR, do PCBR, da ALN, do MOLIPO, da Ala Vermelha, do MR-8, da VAR-Palmares, da POLOP e do POC e daquela infindável constelação de organizações que foram ao desforço com a ditadura, a autodenominada esquerda revolucionária, vai reconhecer que fomos derrotados e que, jamais, a tal da redemocratização fez parte de nossos planos?

 

Eram poucos, quase inexistentes, os que de nós defendiam a substituição da ditadura por algum grau de democracia, onde os revolucionários comunistas pudessem atuar com mais liberdade, mas sem deixar de combater o capitalismo e de lutar pelo socialismo. O chamado Partidão talvez tenha sido o melhor exemplo dessa tática.

 

Lembram-se como chicoteávamos o PCB por causa disso: Reformistas! Revisionistas! Legalistas! Uma das cenas mais constrangedoras dessa época deu-se na Maria Antônia, no Grêmio da Filo-USP, em um debate com Caio Prado Jr., em 1968. Ele aceitara convite para debater o seu livro “Revolução Brasileira”, mas, apedrejado com palavras, zombaria e vaias, o velho comunista mal conseguiu articular a defesa de uma, digamos, tática mais “flexível” de combate à ditadura.

 

Outro exemplo: na APML, Paulo Wright, ex-deputado, cassado em 1964, era um dos poucos, caso não o único dirigente, a ter uma posição menos dogmática sobre a participação na chamada frente legal. No entanto, Paulo era extremamente cuidadoso ao expor essa posição, para evitar críticas como as listadas contra o Partidão.

 

A verdade, inescapável e límpida verdade, é que a nossa conversão à democracia veio bem depois.

 

Veio quando fomos, todos, derrotados, quais fossem as táticas de luta em que nos dividíamos, quais fossem a nossa linha. Foram derrotados os foquistas e sua pretensão de transplantar para a realidade brasileira o sucesso de Cuba e as teses de Regis Debrey; foram derrotados os militaristas e sua crença na possibilidade de se reproduzir aqui, caso não um 1917, pelo menos um 1935 mais bem articulado; foram derrotados os pregoeiros da guerra popular prolongada que fantasiaram o Brasil de China e o Norte brasileiro de Hunan e Jiangxi; foram derrotados também os que acordaram a tempo dessas fantasias, que se apartaram desses “kits de montar” importados de outras realidades, mas que não tiveram tempo e forças para transformar a autocrítica em prática revolucionária.

Fomos todos derrotados.

 

Derrotados, destroçados, estraçalhados. De nossas organizações não restou praticamente nada. Quem se reorganizou o fez de ajuntar cacos, pedaços. Outros, cansados da revolução, converteram-se em ardorosos democratas e apressaram-se em conhecer as delícias da legalidade e dos estofos parlamentares, presidenciais ou ministeriais. Mas, nem estes e nem aqueles, submeteram a militância anterior a uma sincera e criteriosa avaliação.

 

Posaram todos (e todas, não devo esquecer) de homens e mulheres inflexíveis, que nunca pecaram, que nunca erraram. Homens e mulheres do Poema Em Linha Reta de Fernando Pessoa.

 

Sim, é claro, saudemos, louvemos, respeitemos os que resistiram, especialmente os que foram presos, torturados, assassinados. Exaltemos e glorifiquemos a generosidade e a coragem de quem se atirou à luta pouco se importando com as consequências da decisão. Porque um valor mais alto se alevantava.

 

Mas, como não se tratava de uma aventura, de uma gincana ou de uma festa, não podemos virar as costas e seguir em frente carregando apenas as medalhas do heroísmo, as citações e referências elogiosas, negligenciando ou mesmo recusando um balanço dos caminhos que percorremos; ou então, fazendo-o, mas de forma complacente e autocomplacente.

 

São poucas (uma ou duas?) as rememorações que buscam uma reflexão sincera, honesta, militante. Cite-se uma, Em Câmara Lenta, de Renato Tapajós. Mesmo que se discorde da escolha final dos personagens, que tendem a outro descaminho, o escritor e cineasta não negaceou com a verdade dos fatos e muito menos agitou a bandeira branca, capitulando, como fizeram (e fazem) quase todos os memorialistas daquele período.

 

Não se fala aqui dos que apostataram, dos que se arrependeram e passaram a menoscabar, ridicularizar ou mesmo denegrir toda a militância.

 

Hoje, no Parlamento e no Executivo, há razoável quantidade de “companheiros de armas”. O que eles pensam, como avaliam a militância? Por que não são mais militantes de organizações revolucionárias, onde a crítica e a autocrítica estava incorporada à vida, estão isentos da prática?

 

A resposta parece clara. Basta ver como e para quem governam.

Eis a tragédia da esquerda brasileira. Erra uma, duas, três vezes, persiste errando, mas não dá o braço a torcer. Impostura, jactância, irresponsabilidade. Mas segue em linha reta para o abismo, lentamente, em câmara lenta.

 

José Benedito Pires Trindade é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 31 de Janeiro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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