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Sobre os rolezinhos Imprimir E-mail
Escrito por Renato Nucci Jr.   
Terça, 28 de Janeiro de 2014
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Toda ação praticada por um indivíduo ou um grupo, por mais ingênua e desinteressada que seja, é essencialmente política. Seja nos grandes ou pequenos gestos, revela-se a forma como os sujeitos se relacionam com o mundo, como o veem e como o compreendem. Mesmos os gestos mais comezinhos reproduzem mecanicamente padrões comportamentais dominantes, tragados cotidianamente e vistos como naturais. Mas os sujeitos podem, também, sem a intenção clara, praticarem ações transgressoras.

 

O que importa em tudo isso é reconhecer que todas as atitudes cotidianas, sem muitas vezes as pessoas se darem conta, não são naturais. Mas são construídas no seio de uma sociedade atravessada por diversas contradições sociais.

 

Sem esses parâmetros básicos, qualquer análise sobre o fenômeno dos rolezinhos se torna capenga. Por um lado, os analistas reacionários e “coxinhas” viram nesses eventos apenas o desejo infantil de jovens pobres em “causar”, fazerem uma baderna, gerar pânico em consumidores e lojistas, merecendo, portanto, a reação dura da justiça e da polícia para pôr ordem no barraco, ou melhor, nos shoppings.  Por outro, parcelas da esquerda identificaram aí um ato político organizado disposto a denunciar implicitamente os preconceitos sociais e raciais em nossa sociedade.

 

Realmente, a galerinha que vai fazer os rolezinhos nos shoppings, templo do consumo nas modernas sociedades capitalistas, vai para passear, paquerar, olhar vitrines. Não pretendem fazer arrastões ou furtar o que quer que seja de alguém, como difundem os meios de comunicação a serviço do capital. Querem, apenas, se divertir. Contribui para isso a falta de espaços de lazer em geral, especialmente nos bairros de periferia. Como, também, a atração provocada pelo shopping como símbolo, na atual sociedade capitalista brasileira, de espaço-símbolo da ascensão social.

 

A garotada não pode ser condenada por isso. Afinal, são frutos de uma sociedade capitalista que valoriza o consumo, que transforma tudo em mercadoria, que busca em qualquer objeto o seu potencial valor de troca. Como condená-los, se todo o aparelho de propaganda está voltado a glorificar o consumo suntuoso? Tampouco o caráter transgressor de seus passeios, mesmo sem esses jovens se darem conta, deve ser menosprezado.

 

É que esse passeio despretensioso adquiriu no atual contexto brasileiro uma dimensão política que os seus organizadores nem imaginavam. Primeiramente, ao ocuparem um espaço reservado (de fato) para os “dignos” e “sofridos” representantes das novas e velhas camadas médias circularem em segurança, a garotada que organizou os rolezinhos rompeu, sem intencionalmente querer, uma linha divisória que separa “os de lá” dos “de cá”. Os rolês diluíram as fronteiras de classe e quase de casta que atravessam nossa sociedade e separam as camadas médias, que se julgam civilizadas e superiores em relação à maioria da população, vista por eles como um bando de bárbaros semianalfabetos. O shopping, espaço usado simbolicamente para distinguir o winner (vencedor) do loser (fracassado), tão ao gosto da cultura americanizada que a camada média brasileira copia maquinalmente, por instantes deixou de existir. E foi isso, também, que incomodou os lojistas e os frequentadores: verem ao mesmo tempo um monte de jovens “fracassados” desfilarem por um local símbolo da beleza, do luxo e do conforto, “enfeando-o”.

 

A brutal repressão da polícia paulista, em 11 de janeiro, a um rolezinho feito no shopping Itaquera, bem como a decisão da justiça em conceder liminar aos donos de shopping de proibir potenciais participantes dos eventos de entrarem em suas instalações, é o que transformou o caráter politicamente despretensioso dos rolezinhos em uma manifestação que expôs algumas das contradições de nossa formação social. Afinal, a proibição, ao não definir parâmetros claros sobre quem participaria ou não do rolezinho, recairia nos alvos costumeiros: jovens pobres e negros. Além do mais, a medida agrava um processo social mais amplo, marcado pela criminalização da juventude, alvos principais da violência policial e dos criminosos.

 

Com as liminares e a repressão policial, os donos de shoppings e seus abastados frequentadores imaginavam resolver os seus problemas. Porém, criaram uma enorme encrenca política e social. É que uma das ideologias que servem para legitimar a dominação do Estado capitalista é a do Estado nacional-popular, que considera todos os indivíduos, independentes de sua classe e condição social, como membros em iguais direitos e obrigações de uma comunidade nacional unida pela língua, pela cultura e por um passado, um presente e um futuro comum. As liminares instituem arbitrariamente um apartheid político e social, que legaliza por meio de critérios econômicos e étnicos a separação da sociedade entre quem pode e quem não pode frequentar certos espaços. E isso pode trazer, para a dominação burguesa, resultados nefastos no sentido de garantir a legitimidade de sua dominação.

 

Outra questão a ser abordada é que a repressão da PM paulista ao rolezinho do Shopping Itaquera gerou uma reação nacional em solidariedade aos jovens. Ainda que sem atingir a dimensão esperada, os rolezinhos e rolezões organizados por movimentos populares obrigaram alguns shoppings a fecharem suas portas, caso do JK Iguatemi em São Paulo e do Leblon no Rio, trazendo-lhes enormes prejuízos. Também evidenciou, mais uma vez, que há um sentimento difuso nas massas populares, que a cada dia ganha corpo, de não mais tolerar que a questão social continue sendo tratada como um caso de polícia. A reação em solidariedade aos jovens paulistas demonstrou novamente que a repressão policial não tem mais atingido a finalidade de amedrontar a população, como ocorria, mas de predispô-la a lutar, como foi o caso das manifestações de junho. O próprio governo federal temeu que a repressão ao rolezinho de São Paulo pudesse gerar uma reação em cadeia, repetindo as manifestações do ano passado.

 

Obviamente que os rolezinhos não representam uma forma de protesto que deve ser admitida como a saída para os trabalhadores brasileiros. Os dilemas e contradições de nossa formação social não se resolverão fazendo passeatas pelos corredores dos shoppings centers. Contudo, os aspectos aqui considerados e as reações causadas por esses eventos merecem nossa atenção. É um ingrediente a mais que demonstra a existência de uma situação de instabilidade social no Brasil, refletindo o descontentamento das diversas camadas das classes populares com as atuais condições de vida. Uma instabilidade que se manifesta de diferentes formas, desde as grandes manifestações de junho, passando pelos protestos populares que reagem à violência da polícia, pela reação à violência do Estado contra as comunidades indígenas e quilombolas, pelo crescimento das greves, por uma retomada das lutas de massa etc.

 

Todos esses casos têm deixado patentes os limites do atual ciclo de acumulação capitalista, baseada na regressão social, bem como os limites da política de apassivamento até aqui empregada pelos mandatos petistas. Esse apassivamento se baseou na valorização de conquistas imediatas, principalmente pelo aumento do consumo, respaldado pela geração de emprego e pela ampliação do crédito, como forma de contornar e atenuar as graves contradições da sociedade brasileira. Foi a forma política encontrada por frações da burguesia brasileira, em aliança com certas camadas burocratizadas do movimento operário, de esvaziar a instabilidade social que atingia o Brasil no começo do novo século, elegendo um operário para a presidência da República.

 

Criou-se, assim, a ilusão de que os pobres e os trabalhadores, pela primeira vez em nossa história, repartiam com a burguesia o comando da nação. Com essa ilusão, a burguesia manteve intacto seu controle sobre os aparelhos de Estado, postergando a realização de qualquer reforma de cunho democrático que ao menos reduzisse as desigualdades de renda e de riqueza que assolam o nosso país, acentuadas com as políticas neoliberais aplicadas ao longo da década de 1990 pelos mandatos tucanos.

 

Os rolezinhos, como ação política despretensiosa, são mais um fenômeno que expõe os limites alcançados por uma forma de apassivamento que buscou atenuar os conflitos sociais pela mera ampliação do consumo. Os rolês levaram aos shoppings uma juventude cujo trabalho precário e os baixos salários colocam-na distante de um ideal de vida pautado pelo consumo suntuoso.

 

Demonstram que a cidadania de consumo não está acessível a todos. E que a reação de lojistas e consumidores frente a essa gente “diferenciada”, que para se divertir ocupou sem pedir licença um espaço antes reservado para poucos, reflete que a cidadania de consumo acentuou nossas contradições sociais e os preconceitos de classe, de gênero e de raça delas derivados.

 

Essa ilusão de construir a cidadania pela via do consumo, e não pela via dos direitos, serviu para apassivar as massas por um tempo. Mas, agora, camadas cada vez maiores da população, através de lutas de massa que vão ressurgindo, começam a compreender que a solução de todas as nossas contradições sociais não passa pela lógica do mercado. Contradições que a burguesia se recusa a enfrentar, mesmo em um sentido reformista, pois representam historicamente a forma básica pela qual acumulam suas incalculáveis fortunas, à custa dos sofrimentos da maioria da população.

 

Renato Nucci Jr. é membro da Organização Comunista Arma da Crítica.

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Última atualização em Sexta, 31 de Janeiro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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