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‘O poder público não tem interesse algum em realmente ressocializar os presos’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 28 de Janeiro de 2014
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Assim como em outras ocasiões, o Brasil voltou a se alarmar com uma crise no sistema carcerário, desta vez no complexo prisional de Pedrinhas (MA). A novidade deve-se aos adventos tecnológicos, responsáveis pela divulgação de cenas de violência, e mais de 60 mortes, que sequer merecem descrição. Acima de tudo, apenas mais do mesmo, dentro de um dos países que mais encarcera no mundo.

 

Tentando olhar para o todo, muito além da terra dos Sarney, o Correio da Cidadania entrevistou Maria Railda Silva, uma das cabeças da AMPARAR (Associação dos Amigos e Parentes de Presos), que há cerca de três anos faz um silencioso trabalho nos presídios do país na tentativa de salvaguardar minimamente os direitos nunca respeitados dos brasileiros encarcerados.

 

“O Estado superlota as cadeias e ignora as penas alternativas, que poderiam caber à maioria dos atuais presos. Se for feito um levantamento da situação deles, ver-se-á que a maioria cometeu pequenos delitos contra o patrimônio e não era caso de passar o tempo todo preso”, constata Railda, que na entrevista também destacou as especificidades que atingem as mulheres.

 

No desenrolar da conversa, Railda denuncia reiteradamente os pouco debatidos interesses econômicos que permeiam uma política de segurança pública que gasta muito e resolve pouco. Para ela, as prisões em massa e o desprezo pelas penas alternativas não são gratuitos.

 

“Não tem interesse nenhum do poder público em realmente ressocializá-los. É só analisar: quem tem uma pena de 10, 15 anos pode trabalhar muito enquanto está na cadeia. Depois, oferecem seus serviços, por exemplo, para uma empresa de celular, e pagam uma mixaria. Isso não deixa de ser trabalho escravo. Tem muita gente lucrando com isso. O Brasil é o país que mais encarcera jovens de 18 a 29 anos”.

 

Correio da Cidadania: Como você enxerga a recente crise do presídio maranhense de Pedrinhas, onde rebeliões entre os presos geraram mais de 60 mortes e uma forte comoção nacional?

 

Maria Railda Silva: Uma tremenda safadeza, uma sem-vergonhice. Hoje, as pessoas são presas de forma completamente desumana. O Estado superlota as cadeias e ignora as penas alternativas, que poderiam caber à maioria dos atuais presos. Se for feito um levantamento da situação deles, ver-se-á que a maioria cometeu pequenos delitos contra o patrimônio e não era caso de passar o tempo todo preso. É interessante enjaulá-los como bichos, pra satisfazer a sociedade civil, que só os nota quando são presos ou soltos. Mas essa sociedade civil não permite oportunidade alguma a eles, na sequência de suas vidas.

 

Correio da Cidadania: Como encarou a reação do público e a cobertura da mídia, pressionando a governadora Roseana Sarney, em alguns casos até com críticas um tanto incomuns?

 

Maria Railda Silva: A mídia tem mais é que denunciar, porque os presos que estão lá dentro vivem calados e humilhados. Embora não exista santinho na cadeia, precisa ser dado tratamento, porque nosso país investe uma fortuna em segurança pública e não resolve nada. Nossas cadeias são um caos, uma vergonha; se houvesse um tratamento digno, o número de reincidências, inclusive algumas graves, seria muito menor. As cadeias brasileiras são verdadeiros navios negreiros.

 

Correio da Cidadania: Enxerga algum oportunismo ou sensacionalismo neste caso específico, uma vez que a situação é similar em todos os cantos do país e a mesma mídia chegou a denunciar “privilégios” dos presos, até no presídio ora em evidência?

 

Maria Railda Silva: Sabemos que a mídia é cheia de oportunismo e sensacionalismo, pois em geral não mostra a realidade violenta dos presídios. Um preso custa um absurdo para o Estado, mas não tem tratamento algum dentro do sistema prisional, não existe nenhum presídio modelo e na verdade o que acontece é que eles tiram as pessoas de circulação e jogam lá dentro, para oferecer um “alívio” à sociedade.

 

Depois, a pessoa passa anos e anos lá dentro, sem tratamento algum, como dito, e, quando volta às ruas, vive o círculo vicioso, de retorno à criminalidade e novamente à cadeia.

 

Sobre privilégios dos presos, é tudo mentira! Estão dando comida estragada pra preso. Recebi notícia de São José do Rio Preto de que não havia sequer arroz para os presos, entre outros fatos.

 

Correio da Cidadania: É líquido e certo que tais condições só fortalecem as facções do crime organizado?

 

Maria Railda Silva: Ninguém está ganhando, todo mundo perde. Os presos são jogados lá. A saúde vai de mal a pior. Há médicos, material também, mas não fazem nada.

 

Há cerca de três anos, morreu um rapaz na prisão por mera falta de tratamento, no CDP de Mogi das Cruzes. Morreu preso. Tive que ir até lá com o deputado José Candido pra visitá-lo e tentar alguma coisa. É assim...

 

Eu não acredito que facções do crime fiquem mais fortes por causa disso. Pois, se existe PCC, é por omissão do Estado, porque quem lançou o PCC dentro dos presídios foi o Estado, não fomos “nós”.

 

Correio da Cidadania: Em que estágio você acredita estar o Brasil nos trabalhos com os presos e a suposta intenção de ressocializá-los?

 

Maria Railda Silva: Estágio nenhum. Pra eles é vantajoso manter um sistema perverso, sem responsabilidade nenhuma pela saúde e integridade dos presos. Trancam lá e exploram. Utilizam-se muito deles para promover trabalho escravo.

 

Não tem interesse algum do poder público em realmente ressocializá-los. É só analisar: quem tem uma pena de 10, 15 anos pode trabalhar muito enquanto está na cadeia. Quantos e quantos empresários estão ganhando em cima disso? Por que o Brasil tanto encarcera?

 

Correio da Cidadania: Qual seria sua resposta a esta pergunta?

 

Maria Railda Silva: É bem mais vantajoso trancafiar todo mundo. Depois, oferecem seus serviços, por exemplo, para uma empresa de celular, e pagam uma mixaria. Isso não deixa de ser trabalho escravo, comparando-se com o preço normal da força de trabalho.

 

Tem muita gente lucrando com isso. O Brasil é o país que mais encarcera jovens de 18 a 29 anos. Se você for numa cadeia, só verá rapaz novo. Não tem pena alternativa. Gente que roubou boné ou celular passa anos presa.

 

Correio da Cidadania: Quais políticas você acredita serem necessárias, e até urgentes, para que o país comece a apresentar um quadro mais digno em suas carceragens?

 

Maria Railda Silva: A coisa mais urgente é a mudança de mentalidade das pessoas. Mudar de sistema. Hoje, o sistema prisional é o mesmo que o navio negreiro. Superlotado, onde o preso não tem nada pra fazer, não tem atividade, não tem atendimento psicológico, embora tudo isso exista dentro do sistema. A estrutura não é utilizada. As famílias são humilhadas, não há tratamento digno nem com os presos nem com as famílias. Dinheiro existe de sobra, dá pra fazer caixa 2 e caixa 3 com o sistema prisional. Se não desse dinheiro, não se prenderia tanto como se prende no Brasil. Por que a Holanda fechou um presídio, tempos atrás? Por falta de preso.

 

Correio da Cidadania: Por ter vivido situações cotidianas do sistema prisional, e participar de um movimento que trabalha sobre tais questões, diria que há outras desumanidades ainda muito presentes neste contexto?

 

Maria Railda Silva: Sabe uma coisa que agora se faz? Desligam a água dos presos. Eles ficam sem água, sem limpeza, sem condição de banho, as famílias passam horas e horas na fila pra entregar materiais aos parentes. Se reclamar de maus tratos, vai pagar castigo, vai sofrer represália... As famílias não têm direito de reclamar. Mostram um lado lindo do sistema prisional, que não existe. As famílias mandam material de higiene, e outros pertences, e os presos não recebem...

 

Correio da Cidadania: Por fim, como mulher, o que poderia acrescentar a respeito do mundo das prisões, não só para quem está encarcerado(a), como para quem visita seus parentes e amigos presos(as)?

 

Maria Railda Silva: As mulheres são um caso à parte. Vivem sendo humilhadas dentro das cadeias, têm de ficar na delas, pois também podem pagar castigo. Outro dia, conheci a história de três presas que ficaram gritando desesperadamente que não havia ninguém por elas ali. Depois, a mãe de uma delas até fez uma denúncia, mas de pouco serve. Quando a mulher vai ser presa, ela larga do filho algemada, tem também a questão da revistas... São muitas coisas, é feio.

 

Há interesse do poder público em manter muita gente presa, para alguns dá dinheiro. Seria bom que mais jornalistas entrassem nos cadeiões. É um cenário de terror. Nada fazem pra mudar a estrutura do sistema prisional.

 

Leia também:

Brutalidade do sistema prisional e bárbaras humilhações a parentes são denunciadas em Ato Público

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Segunda, 10 de Fevereiro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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