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O governo de Salvador Allende: um legado inspirador? Imprimir E-mail
Escrito por Jorge Magasich   
Qui, 23 de Janeiro de 2014
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Quando, em 1970, a coalizão que reuniu praticamente toda a esquerda lançou um programa de promoção da socialização e liberdades democráticas, muitos olhos se voltaram para Santiago. O impacto do sucesso excederia a América Latina: os estudantes, entre outros, aqueles que pensam na Espanha pós-Franco, aqueles que buscam formar uma coalizão semelhante na Itália, ou aqueles que preparam a l'Union da gauche francesa. Quase quatro décadas depois do fim trágico, seu legado parece ganhar importância. É talvez uma das poucas experiências socialistas do século XX que pode inspirar outras no século XXI. A edição chilena do Le Monde Diplomatique ofereceu uma série de artigos, traduzidos pelo Correio da Cidadania, sobre os principais aspectos do governo da Unidade Popular (UP) e sua projeção para os nossos tempos. Aqui vamos dar uma visão geral dos temas a serem discutidos.

 

Instalado em La Moneda, o governo de Salvador Allende lança seu projeto de nova sociedade. Transformar 4.400 fazendas obsoletas  em cooperativas, num total de 5,8 milhões de hectares. Nacionalizar o sal, carvão, ferro e cobre, talvez a medida econômica mais transcendental do século. Organizar o setor social da economia, incluindo quase todos os bancos e mais de 150 empresas que produzem a plena capacidade, sem que haja denúncias de corrupção. E implantar um sistema de planejamento computadorizado inovador (então chamado cibernética). O aumento da produção permite um aumento significativo na receita para a maior parte dos quase 10 milhões de chilenos, especialmente os mais humildes.

 

Não se conhecem mudanças tão profundas e rápidas na América Latina. Nem o presidente mexicano Lázaro Cárdenas, pai da primeira reforma agrária e da nacionalização do petróleo, nem Jacobo Arbens na Guatelama, nem João Goulart no Brasil, nem o próprio Fidel Castro, transformaram tanto em tão pouco tempo.

 

Embora os resultados econômicos sejam difíceis de avaliar em virtude do boicote, que desde 1972 se traduz em filas e mercado negro, pode-se constatar que os resultados do primeiro ano, quando o projeto se desenvolveu em condições normais, são positivos. Em 1971, os deserdados viviam melhor, o que se traduziu nos resultados eleitorais: a Unidade Popular passa dos 36,4% obtidos nas eleições presidenciais de 1970 a 50,2%, alcançados nas eleições municipais de abril de 1971, sendo assim, o primeiro bloco político que propõe o socialismo que consegue a maioria absoluta. Nas parlamentares de março de 1973, chega a 43,7%, um dos melhores resultados de uma coligação governante aos três anos de mandato e, neste caso, afrontando os efeitos da crise econômica instalada.

 

Fazendo história

 

O "governo popular" suscita uma torrente de esperanças para operários, agricultores, empregadas domésticas e servidores de todos os tipos, até então desprezados pelas elites. Os despossuídos vivem pela primeira vez a sensação fascinante de poder forjar destinos, de ser protagonistas da revolução para incidir no curso da história. E atenção: o tratamento aos humildes é o reconhecimento mais respeitoso com a mudança dos tempos.

 

O clima de contentamento popular é revelado nos rostos dos manifestantes de esquerda, dos que emanam alegria e esperança, ao contrário de seus adversários que refletem uma mistura de raiva e angústia (2).

 

E neste triênio de efervescência, discutiu-se iradamente de política, mas também arte, em todas as suas formas. Um clima excepcionalmente inovador incentivou, como nunca, voltar-se à cultura. A produção cinematográfica, musical e literária vive um momento especial. A edição em grande cadência dos clássicos nacionais e estrangeiros, em tiragens impressionantes, de 50 a 100 mil exemplares vendidos nas bancas a preços pouco acima de um maço de cigarros.

 

O país em mutação acolhe numerosos estrangeiros, como terra de asilo ou simplesmente de observação. Nas universidades, construiu-se um amplo restaurante para os delegados da UNCTAD, aberto ao público em 1972 a preços populares, escutava-se o espanhol em todas as suas faixas, incluindo ressonâncias portuguesas, norte-americanas e europeias.

 

A transgressão das hierarquias é subversiva na sociedade classista chilena, a tal ponto que muitos setores altos e médios não toleravam a emergência de "inferiores" e, de fato, temem  irracionalmente, a ponto de clamar para que alguém restabeleça a "ordem "a qualquer preço.

 

Desde o primeiro ano de governo, as correntes conservadoras conhecem uma mudança surpreendente. De defensores dos valores tradicionais se transformam em organizadores da insurreição, que toma a forma de greves destinadas a paralisar o aparato produtivo, campanhas de imprensa extremamente agressivas nos meios que controlam, chegando inclusive a difundir falsas informações. E recorrem ao terrorismo contra as ferrovias, pontes e dutos para matar pessoas. No entanto, a direita sozinha não poderia agir. A CIA se orgulha, segundo o relatório Covert, da ação no Chile, de ter influenciado os democratas cristãos a se unir com o Partido Nacional de extrema-direita com o objetivo de derrubar o governo.

 

Golpe documentado

 

Embora algumas sombras existam, o golpe de 1973 é um dos mais bem documentados. As comissões parlamentares organizadas pelos EUA para investigar seu envolvimento no Chile fizeram relatórios esclarecedores, ao que se adiciona a publicação de documentos secretos “desclassificados”.

 

Foram as medidas da UP pouco ou radicais demais que provocaram o golpe? Hoje sabe-se que não. A decisão foi tomada na Casa Branca em 15 de setembro de 1970, 50 dias antes da posse de Allende.

 

Já em março de 1970, Agustín Edwards alerta David Rockefeller que os “EUA teriam que impedir a eleição de Allende”, e conseguem contatar Henry Kissinger. Depois da eleição, o proprietário do El Mercúrio tem duas decepções: descobre que os rumores de uma revolta naval não são mais que isso (3) e o embaixador Edward Korry responde que os EUA não farão nada (4).

 

Voa para Washington. Numa segunda-feira, 14, na casa de Donald Kendall, presidente da PepsiCola e aliado de Richard Nixon, "adverte" Kissinger e o procurador-geral John Mitchell sobre as  "consequências de derrubar Allende". Em outra reunião, Edwards discute com o diretor da CIA, Richard Helms, as chances de parar Allende legalmente e também "uma possível ação militar." Kendall parte para fazer lobby na Casa Branca.

 

No dia 15, Nixon convoca Kissinger, Mitchell e Helms. Determina que o governo Allende não é aceitável e ordena a CIA a organizar uma "operação secreta" para impedir a posse de Allende, tomar ou derrubar seu governo: "Há talvez uma possibilidade em 10, mas salvem o Chile", "10 milhões disponíveis, mais se for necessário", " trabalho em tempo integral, os melhores homens"," faça a economia gritar de dor", "48 horas para um plano de ação".

 

Os fatos são categóricos. Primeiro, impacta o desprezo de Edwards e Kendall pela vontade popular, só podem existir os governos "aceitáveis" para eles. Em seguida, o poder de influência da Casa Branca, que também zomba do processo democrático. E, finalmente, a reveladora documentação. É - diz Peter Kornbluh - o primeiro registro de um presidente americano dando instruções para derrubar um governo democrático.

 

Notas:

 

1.Martner G. Gonzalo, 1988, O governo do presidente Salvador Allende, 1970-1973. Uma avaliação, Ed. Programa de Estudos e Desenvolvimento Nacional e Edições literatura americana reunida, p. 161

 

2. Esta observação foi confirmada por pessoas que, na época, eram ativistas de direita.

 

3. ARANCIBIA Patricia, de 2005, conversando com Roberto Kelly V. Memórias de uma vida, Ed. Biblioteca Americana de Santiago, p 124.

 

4. As atuações de Edwards quando ele vai para os Estados Unidos para insistir que um golpe de Estado no Chile são expostas por Peter Kornbluh em 2003; Os EUA e a derrubada de Allende. Uma história desqualificada. Ed B. Os documentos foram publicados pelo Arquivo de Segurança Nacional.

 


Jorge Masasich é historiador chileno e leciona em Bruxelas.

Série de artigos originalmente publicada pelo Le Monde Diplomatique francês e espanhol.

Traduzido por Daniela Mouro, Correio da Cidadania.

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Última atualização em Quarta, 19 de Fevereiro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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