Estados Unidos e Brasil: percepções distintas no cenário internacional

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Com o fim da ditadura militar em março de 1985, às vésperas do vigésimo primeiro aniversário em 1º de abril, o Brasil renovou sua aspiração de ser reconhecido como uma inegável sociedade ascendente, apesar da objeção prática dos Estados Unidos.

 

Na transição de regime, encerrar-se-ia a primeira dificuldade aos olhos da oligarquia local: a política, visto que a adesão à democracia possibilitaria circular com maior desenvoltura entre as potências de primeira ordem, por compartilhar os mesmos fundamentos, não obstante a chamativa diferença de convicção neles e, por conseguinte, de aplicação de diretrizes.

 

A segunda se localizaria na esfera econômica e se observaria sob óticas distintas, a depender do posicionamento político. Desta maneira, haveria uma divisão entre os civis sobre qual dos problemas dever-se-ia primeiramente combater: a desigualdade social ou a inflação, ainda que as duas estivessem conectadas. Por fim, escolheu-se a segunda, ao se avaliar que sua contenção resultaria na solução da outra, mesmo de modo mais lento.

 

Mesmo sem superar suas dificuldades internas, o Brasil não hesitou em solicitar aos principais países um reconhecimento maior, a ser materializado na hipotética reforma da Organização das Nações Unidas, mais especificamente no Conselho de Segurança.

 

A cada década, aventa-se de forma baldada nova estruturação do organismo, sob justificativa de contemplar a crescente diversidade, em função da admissão ininterrupta de novos membros, e destarte de manter o equilíbrio de poder.

 

Assim, desde a época do governo José Sarney (1985-1990), o Brasil clama, com maior ou menor intensidade, em vista da conjugação das circunstâncias externas e internas, sua promoção dentro da hierarquia da comunidade internacional.

 

Nas últimas três décadas, consolidou-se no país a convicção de que ele mereceria patente mais alta na sociedade global, fosse por merecimento, fosse por antiguidade.

 

Por valor, por ter a sociedade retornado à democracia, mesmo de modo insuficiente, e por ter de maneira relativa debelado a inflação ao longo de vinte anos, a despeito do desgastante custo social, resultante de uma política de juros bastante altos.

 

Pelo tempo, por requisitar uma participação maior na sociedade global desde a época da constituição da Liga das Nações no pós-Primeira Guerra Mundial. Com a desistência dos Estados Unidos de integrar o organismo, o Brasil apresentou-se como seu substituto natural no conselho de segurança, ao invocar a necessidade de representação do continente americano lá, mesmo sem combinar isso com a diplomacia norte-americana e com as latino-americanas também.

 

Rejeitado naquela ocasião, especialmente após se comparar à Alemanha em termos de importância na instituição, o governo brasileiro, o primeiro a elevar sua representação na Liga à embaixatura, desligou-se dela.

 

Durante o transcorrer da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, sob a presidência de Franklin Roosevelt, manifestaram-se favoráveis à participação do Brasil em um conselho de segurança de um novel órgão.

 

Todavia, Grã-Bretanha e União Soviética opuseram-se de modo ferrenho à proposta. Em 1963, haveria uma reforma, mas bastante acanhada. Naquele momento, o número de membros rotativos alterou-se, ao passar de seis para dez.

 

Durante as últimas gestões presidenciais, a expectativa de ingresso tem sido o canto da sereia da burocracia diplomática, como forma de valorizar sua atuação. Em busca de prestígio externo para cobrir de maneira parcial e envernizada a deficiente atuação administrativa local, os governantes presidenciais aderem com entusiasmo à idéia.

 

Embora cônscios da impossibilidade de lograr êxito, transformam o pleito em medida patriótica, voltada, por sua vez, para a satisfação do deslumbramento da classe média. Do ponto de vista intelectual, esta se aconchega de forma cômoda na proteção da retórica ufanista dos dirigentes-mores, como a invocação do chamado ‘complexo de vira latas’, citado até por políticos ou intelectuais considerados de esquerda.

 

No fim das contas, a realidade invalida de modo constante o pleito brasileiro. O país não consegue enfileirar-se ao lado das grandes potências em termos econômicos, culturais ou militares – a título de exemplo, no último caso, compare-se a diferença significativa entre a compra do Brasil de 36 aviões da Suécia, e a da Índia, de 126 da França.

 

Em 2013, partiu de maneira indireta dos Estados Unidos, um dos mais antigos aliados, a demonstração de fragilidade de potência aspirante do Brasil: a relativa facilidade com que se espiona o país, falto de proteção tecnológica nacional diante da imprópria curiosidade governamental norte-americana.

 

Apesar de protestos retóricos, o Brasil demonstrou na prática a ausência de condição de se ombrear ao seleto grupo dos países mais poderosos: o Planalto nem sequer se propõe a debater com o Congresso, por exemplo, o pedido de asilo do denunciante da espionagem, refugiado na Rússia, com o intuito de não melindrar a Casa Branca.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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