Retrospectiva econômica 2013

 

 

Crescimento econômico com distribuição de renda é a etiqueta apresentada em prosa e verso nos documentos e eventos comemorativos dos dez anos dos governos do PT, de resto também reprisado no discurso oficial do governo Dilma. Vejamos a relação desse discurso com a ‘práxis’ neodesenvolvimentista efetivada em 2013.

 

Desde o início do governo Dilma, continuando em 2013, a política econômica persegue, sem sucesso palpável, a expansão do investimento privado na indústria de transformação e nos serviços de infraestrutura (energia e obras viárias principalmente). Esses setores e atividades seriam os veículos primordiais para elevar a produtividade do trabalho no conjunto do sistema econômico, sem o que o crescimento da economia se restringiria ao aproveitamento das vantagens comparativas naturais, ciclicamente impulsionadas pelo comércio externo de ‘commodities’.

 

Em 2013, a aposta no crescimento industrial não se confirmou, com agravante do aprofundamento da dependência por importações manufatureiras, propagando-se por vários setores de bens intermediários e até de bens-salário.

 

Por sua vez, os investimentos em infraestrutura viária, petróleo e energia elétrica emitem mensagens contraditórias à frente, por duas sinalizações ambíguas: a) os leilões realizados em 2013 (Campo de Libra, Estradas e Aeroportos) ainda não se concretizaram no sentido de desenhar um ciclo expansivo; b) o governo depende essencialmente do giro do fundo de recursos (“funding”) do BNDES para apoiar esses e outros investimentos, que por sua vez se apoiam fortemente nos empréstimos do Tesouro, ora em fase de contração. Depende também dos investimentos do sistema Petrobrás, ora constrangidos pela política de derivados do petróleo que importa, com prejuízos de caixa evidentes.

 

Por sua vez, a expansão em 2013 dos setores estritamente ligados às vantagens comparativas naturais – economia do agronegócio e indústria extrativa mineral - tende a declinar com a desaceleração dos preços das ‘commodities’ agro-minerais, em relação às quais o Brasil realizou forte especialização nos últimos 13 anos. Aparentemente, a renda fundiária (o lucro extraordinário) obtida no ‘boom’ das ‘commodities’ tende a se esgotar e mesmo esses setores primário-exportadores precisariam de investimentos em infraestrutura de transportes para reconstruir sua competitividade externa.

 

Fatores conjunturais que puxam o crescimento – os investimentos na infraestrutura esportiva e os gastos estatais em ano pré-eleitoral (2013) e eleitoral (2014) – não são, no momento, um bom aliado do crescimento, pelos seus limitados efeitos de encadeamento para melhoria da produtividade sistêmica.

 

Finalmente, o componente distributivo exercido pelo conjunto da política social, principalmente pelos benefícios monetários, que desempenharam recentemente sólido impacto alimentador do consumo de bens salário, vê-se ora sob duas sérias ameaças: 1) os vazamentos para o exterior, sob a forma de importações, do conjunto do gasto social (ao redor de ¼ do PIB), outrora forte aliado da recuperação industrial; 2) um programa equivocado de desfinanciamento da Previdência Social, sob a forma de desoneração da Contribuição Patronal.

 

Em síntese, o ano de 2013 não se caracteriza nem pelos resultados alcançados, nem pelas indicações e constrangimentos de política econômica emitidos para a frente, como sinalizador de uma relação virtuosa do crescimento com a distribuição de renda. O ano de 2014 pode mudar esse quadro, desde que fora do roteiro das propostas do neo-subdesenvolvimento x neoliberalismo, que ora ensaiam a futura disputa eleitoral.

 

Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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