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Mandela e Cuito Canavale: os marcos da derrota do Apartheid Imprimir E-mail
Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   
Sexta, 20 de Dezembro de 2013
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Nelson Mandela morreu 25 anos após a batalha de Cuito Canavale, que na história do continente africano simboliza o marco da derrota do regime do Apartheid e do Imperialismo. De fato, os EUA e as potências europeias, durante quarenta anos, ampararam política e juridicamente os arbítrios e as violações da minoria branca sul-africana em função da estrondosa riqueza do subsolo da África do Sul. Foi também para preservar essas riquezas que Ronald Reagan e seu Secretário de Estado, George Schutz, tiveram que engolir dois sapos, o cubano e o angolano, e decretar, em 4 de maio de 1988, o fim da ocupação sul-africana no território da “South-West África” (Namíbia), para realizar eleições livres, que a SWAPO (Organização do Povo do Sudoeste Africano) ganhou com ampla maioria, podendo, finalmente, proclamar, em 1990, a independência da Namíbia.

 

Assim, com quase doze anos de atraso e milhares de namibianos mortos, encarcerados, torturados e exilados, a resolução 435/78 das Nações Unidas foi implementada, criando um novo cenário político na África Austral, que o Império nunca mais conseguiu controlar. De fato, Mandela, apesar de estar preso em Robben Island, após o desfecho de Cuito Canavale e a proeza realizada na Cahama pelas forças cubanas, conseguiu fazer chegar a Joe Slovo – o único membro ainda em liberdade do Estado Maior do braço armado do Congresso Nacional Africano (Umkhontoata we Sizwe – Lança da Nação) - a ordem para criar em todo o país um clima político insurrecional, promovendo grandes e contínuas manifestações de massa. Nelson Mandela entendeu que, se a derrota da SADF (Força de Defesa Sul-Africana, na sigla em inglês) em Cuito Canavale havia, finalmente, aberto a estrada à independência da Namíbia, também na África do Sul havia, finalmente, chegado o momento para o CNA chamar o povo sul-africano a desafiar o establishment do Apartheid, com a realização de contínuas mobilizações nos bairros negros e manifestações nos centros das cidades.

 

Hoje, a “grande mídia” comemora a morte de Mandela de forma extemporânea, apresentando-o não como o chefe da resistência armada do CNA, mas, sim, como o gentil e dócil colaborador sul-africano, que teria dado continuidade ao sistema de exploração mineira e industrial. De fato, a África do Sul, como antes dela a Namíbia e o Zimbábue, não ficou refém da guerra civil que o Império, através da direta participação conspiratória do regime de Apartheid, provocou em Angola e depois em Moçambique.

 

Nelson Mandela sabia muito bem que: 1) em 1990, o CNA, política e sobretudo militarmente, nunca poderia suportar os efeitos destruidores de uma guerra civil a longo prazo, para a qual grande parte da minoria branca estava preparada; 2) o acordo tetrapartite (Angola, Cuba, EUA e África do Sul) assinado em Nova Iorque em 4 de maio de 1988, fixava em dois anos a retirada do contingente cubano de Angola e em um ano a saída dos batalhões sul-africanos da Namíbia, fazendo assim aumentar a presença da SADF (exército) nas províncias da África do Sul mais urbanizadas; 3) o presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov, e sobretudo seu ministro das Relações Exteriores, Eduard Shevernadze, eram totalmente contrários que o CNA organizasse a insurreição do povo negro nas principais cidades da África do Sul; 4) Lembrando também que Shevernadze bateu o pé, quando Fidel ordenou ao comandante das Forças Armadas cubanas em Angola, Arnaldo Ochoa Sanchez, de manter-se preparado para continuar a ofensiva, a partir de Cahama, contra as unidades do exército sul-africano no norte da Namíbia.

 

1988: Cuito Canavale e Cahama quebram o mito do exército racista

 

A batalha de Cuito Canavale começou em 15 de novembro de 1987 e acabou em 23 de março de 1988, com o desfalecimento orgânico das unidades da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), que nessa batalha perdeu oficialmente 3.980 homens. Porém, informações fidedignas relatam que mais de 2.500 “soldados da UNITA morreram nos rios e nas lagoas e seus corpos nunca foram recuperados”. Outros 1.500 se entregaram e cerca de 8.000 soldados ficaram feridos e evacuados para a Namíbia, a maioria deles com pernas amputadas à causa da explosão das minas anti-homem. Por sua parte, o general Magnus Malan, Ministro da Defesa sul-africano, nas suas memórias escreveu que, durante quase um ano de operações de guerra na região de Cuito Canavale, morreram, apenas, 39 soldados sul-africanos!

 

De fato, o general não revelou que a “Operação Hooper” havia sido planejada para salvar fisicamente a UNITA entrincheirada em Mavinga e que o Estado Maior sul-africano havia transferido para o sul de Angola as melhores unidades do exército, equipadas de tanques Olifant e Ratel; numerosas baterias moveis anti-aéreas; as rampas de lançamento dos mísseis Cactus e Tigercat; mais dois batalhões de artilharia armada com os poderosos canhões G5 de 155mm, capazes de disparar seu projétil até 40Km. Também em suas memórias o general não especificou que a maior parte dos soldados que a SADF utilizava em operações fora dos confins sul-africanos eram mercenários estrangeiros, cujo massivo recrutamento iniciou-se em 1975, com a criação do Batalhão 32 “Buffalo”. Na realidade, os mortos dessa Legião Estrangeira do exército sul-africano nunca resultaram nas listas dos soldados sul-africanos mortos em combate, pelo fato de serem estrangeiros e mercenários.

 

É preciso lembrar que o elemento estratégico mais dinâmico do regime de Apartheid foi transferir os conflitos armados para além de suas fronteiras e localizá-los diretamente nos territórios do inimigo. Assim foi em Angola, quando, em 1981, as unidades regulares da SADF e os mercenários do Batalhão 32 Buffalo invadiram o sul do país, ocupando uma longa faixa no sul das regiões de Cunene e de Huila, até serem derrotados em Cahama pelas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FLAPA) angolanas e as Forças Armadas cubanas.

 

Em Moçambique, a SADF criou e sustentou a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) durante doze anos, com o único objetivo de pressionar o governo moçambicano e o partido FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) em não ajudar militarmente o CNA e, antes dele, a União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU) e a União do Povo Africano do Zimbábue (ZAPU), na ex-Rodésia.

 

Em 1986, o general Malan submeteu à “eminência parda do Apartheid”, o ministro das Relações Exteriores Pik Botha, o projeto de reforçar a presença militar da UNITA de Savimbi em Mavinga, para permitir aos parceiros europeus da África do Sul (França, Grã-Bretanha, Bélgica e Alemanha) apoiarem as tentativas de Ronald Reagan em deslanchar o líder da UNITA, Jonas Savimbi, em nível internacional, através da interposição de Freedom House, que qualificava Mavinga um mini-Estado rebelde governado pela UNITA no seio de Angola e, portanto, digna de um debate nas Nações Unidas.

 

Para evitar isso, o Estado Maior das FAPLA , em 1987, lançou uma ofensiva, conseguindo cercar Mavinga. Porém, para evitar a possível morte ou captura de Savimbi, o Ministro da Defesa sul-africano, general Magnus Malan, lançou a “Operação Hooper’, empregando cerca de 20.000 homens, com 500 tanques Olifant e Ratel, e o melhor da aviação de guerra sul-africana, que de fato provocou a retirada das quatro brigadas angolanas até a cidade de Cuito Canavale.

 

É nesse momento que Fidel Castro começou a jogar um papel mundial, determinante em termos políticos e estratégicos, inclusive porque não acreditava muito na “mala suerte de los asesores soviéticos”. De fato, não era a primeira vez que Fidel e Raul Castro tiveram que emendar erros táticos, operativos e sobretudos estratégicos cometidos pelos “camaradas generais soviéticos”. Por isso, Fidel comunicou ao presidente de Angola, Eduardo Dos Santos, que Cuba tomava o comando das operações para derrotar os sul-africanos em Cuito Canavale.

 

Assim, a famosa Divisão 50, e outras unidades de especialistas das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), além dos melhores pilotos de Mig 23, desembarcaram em Luanda para integrar no sul do país uma linha de defesa que somava 40.000 cubanos, 60.000 angolanos e 10.000 soldados da SWAPO. Consequentemente, os generais cubanos Arnaldo Ochoa e Cintra Frias alinharam na região de Cuito Canavale cerca 1000 Tanques T54/55, enquanto 300 helicópteros e 200 Mig 23 ficavam estacionados na base de Menongue, para depois ganhar todos os combates com os Mirages sul-africanos.

 

As crônicas das batalhas e a análise dos documentos militares sul-africanos e cubanos demonstram, sem sombra de dúvida, que a “Operação Hooper”, depois do inicial sucesso nos redores de Mavinga, se transformou em um autêntico desastre político e militar, visto que os comandantes cubanos Ochoa e Cintra Frias, ao fingirem a retirada, atraíram as colunas de tanques e blindados sul-africanos e os homens da UNITA, em um funil onde passaram a ser alvejados pelos canhões de 120mm e os foguetes S-25 (SAM Guild) e Strela 1 (AS-9 Gaskin), tendo como única saída os mortíferos campos de minas.

 

Segundo o presidente angolano, Eduardo Dos Santos, "com a vitória em Cuito Canavale e as medidas tomadas posteriormente, foram eliminados os principais fatores externos que ainda condicionavam o conflito em Angola e abriu-se uma via favorável à sua resolução interna”. De fato, foi a partir desse momento que o subsecretário dos EUA para as questões africanas, Chester Croker, começou a querer negociar com a República Popular de Angola o fim do conflito.

 

Em 10 de março, os jornais do mundo inteiro veicularam que os 15.000 soldados cubanos que estavam de prontidão na capital da região de Huila, Lubango, haviam sido transferidos por ordem dos generais Cintra Frias e Miguel Lorente Leon até Cahama, onde os especialistas cubanos haviam criado, em apenas dois meses, uma pista para os Mig-23, outras duas para os helicópteros e uma base militar inteiramente subterrânea. Outra base com semelhantes particularidades estava sendo construída mais a sul, em Xangongue, a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Namíbia. Por duas vezes, os sul-africanos tentaram impedir essa concentração de tropas cubanas, mas nada puderam fazer contra a supremacia da artilharia cubana e dos Mig-23, que, em resposta, foram bombardear os quartéis da SADF em Calueque, em território namibiano.

 

Diante da possível invasão dos 10.000 combatentes da SWAPO, apoiados pelos 40.000 cubanos que começavam a entrincheirar-se ao longo da fronteira namibiana, Chester Croker convenceu George Schutz e o presidente Reagan de que o principal objetivo era evitar a entrada dos cubanos na Namíbia. Por isso, era necessário iniciar imediatamente as negociações com Angola, negociando e aceitando todas as reivindicações da SWAPO. Assim, em menos de dois meses, os negociadores de EUA, África do Sul, Angola e Cuba se encontraram primeiro no Cairo, depois em Londres e por fim em Nova Iorque, onde em 4 de maio foi assinado o acordo de paz com base a implementação da resolução da ONU 438/78.

 

O desmanche do regime de Apartheid

 

É evidente que a batalha de Cuito Canavale e depois o acordo para a independência da Namíbia quebram os principais conceitos políticos e geoestratégicos do regime de Apartheid. Nas mãos do sucessor do ultra-conservador Pieter Botha, Willem de Klerk, permaneceu, apenas, a opção de uma resistência militar com a explosão de uma guerra civil que podia degenerar no extermínio da minoria branca e a destruição de um rico e poderoso parque industrial. De fato, o ministro da Defesa Malan tentou cavalgar por certo tempo essa opção, colocando os mercenários do Batalhão Búfalo na repressão das manifestações nos centros urbanos e nos bairros negros das periferias das grandes cidades. Mas os resultados eram sempre os mesmos: mortos, feridos, jovens presos e, no dia seguinte, mais manifestações, para lembrar quem morreu, quem foi ferido e quem estava sendo torturado nas prisões.

 

O povo negro da África do Sul voltou a ocupar as ruas e a enfrentar a polícia porque Cuito Canavale e Mandela haviam quebrado o mito da imbatibilidade do regime de Apartheid. Havia a certeza de que aquela era uma luta justa, por isso ninguém recuava quando apareciam os blindados do Exército ou da polícia sul-africana. O motivo do atrevimento político por parte dos jovens sul-africanos era a extrema certeza de que estavam lutando para acabar com o Apartheid, mesmo sem ter canhões e tanques. E foi por isso que o regime de Apartheid foi derrotado, obrigando o presidente Willem de Klerk a assinar a lei que em 2 de janeiro de 1990 legalizava o CNA, o PAC (o Partido Comunista Sul-africano) e todos os outros organismos anteriormente proibidos. A seguir, veio a lei que libertava os presos políticos e, por fim, a negociação com Mandela sobre a transição.

 

Depois de dezoito meses de intenso debate e preparação, o novo parlamento sul-africano aprovou o Ato de Promoção da Unidade e Reconciliação Nacional, que estabelecia a Comissão de Verdade e Reconciliação. Em 1995, a comissão foi chefiada pelo arcebispo Desmond Tutu. As audiências para ouvir o testemunho de mais de 23 mil vítimas e testemunhas começaram em 1996 e acabaram em 1998, com a publicação dos trabalhos em cinco volumes.

 

Na Comissão de Verdade e Reconciliação, que foi muito criticada por oferecer a anistia aos agentes da opressão, prevaleceu a idéia de recorrer à justiça restaurativa e não à retributiva. Apesar da anistia, o reconhecimento da verdade e a rejeição social dos atos cometidos funcionaram como um processo de reprovação moral. O arcebispo anglicano Desmond Tutu, um dos maiores defensores das comissões de verdade e da justiça restaurativa, ressaltou que esta visão é baseada não só em idéias cristãs de perdão para aqueles que reconhecem seus erros, como também no conceito indígena africano de ubuntu. Pois, segundo o arcebispo Desmond Tutu “...a concepção de ‘ubuntu’ está ligada à busca por harmonia social, visto que um ser humano só é um ser humano por meio de outros e, se um deles é humilhado ou diminuído, o outro o será igualmente. É praticamente a idéia de compartilhar e de pertencer a uma comunidade..." (Tutu, 2000, p. 35,).

 

 

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania"

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Última atualização em Sexta, 20 de Dezembro de 2013
 

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