Estados Unidos e Síria nos últimos anos da Guerra Fria

 

 

 

Com a recente recuperação do equilíbrio bélico, os dois lados na Síria dispõem-se a sentar à mesa em janeiro de 2014 para negociar, ainda que haja divergência sobre o quê. No horizonte do regime ditatorial da família de Al Assad, no poder desde novembro de 1970, não se contempla nenhuma forma de transição de poder.

 

De todo modo, temas importantes como soltura de prisioneiros, considerados por ambos como políticos, e estabelecimento de áreas neutras, com a finalidade de resguardar civis, podem vir à tona até a realização da conferência de paz.

 

Não se sabe até o momento se delegados do Irã, favorável ao governo, e da Arábia Saudita, inclinada à oposição, poderão participar. Diplomatas da região tentam obter um cessar-fogo nos próximos dias, com o propósito de reforçar a realização do encontro na Suíça. De maneira bastante atenta, americanos e russos acompanham a movimentação.

 

No início dos anos 80, Síria, próxima da União Soviética, e Estados Unidos andavam às turras por causa de questões relacionadas com populações da Palestina e do Líbano. Com a presença síria em território libanês, o equilíbrio de poder em terras médio-orientais alterava-se desfavoravelmente aos interesses do Ocidente.

 

As forças armadas de Damasco haviam se deslocado a Beirute em 1976, contrariamente à vontade de Moscou, com o propósito de intervir na guerra civil, iniciada no ano anterior. Em 1982, seria a vez de Tel-Aviv invadir o país.

 

Diante disso, diversos segmentos da comunidade libanesa, como parte dos cristãos, esperavam uma confrontação direta entre os dois ocupantes, considerados pontas de lança de uma disputa maior entre a Casa Branca e o Kremlin: a Guerra Fria.

 

Washington, de forma temerária, permaneceu entre agosto de 1982 e fevereiro de 1984 em solo libanês: na primeira vez, sob a justificativa de colaborar com uma missão de paz, após não ter tido êxito com o envio de fuzileiros em dois momentos; paralelamente, acompanhou a retirada forçada dos combatentes da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e, por fim, a reconstituição da soberania do governo do Líbano.

 

A situação entre as tropas americanas e sírias chegou a um grau de tensão inesperado quando, em outubro de 1983, um ataque de um caminhão bomba provocaria a morte de inúmeros fuzileiros estadunidenses.

 

Na análise de Damasco, se houvesse retaliação, ela poderia ser diretamente direcionada contra ele. A eventual contrarresposta na visão de Washington seria para impedir a absorção do Líbano à órbita da União Soviética.

 

Cautelosos, os norte-americanos não desejavam mais aventurar-se lá de modo militar – resquício do trauma da prolongada Guerra do Vietnã; assim, eles passaram a depender mais do apoio diplomático francês e a preocupar-se muito com a sofreguidão política soviética com o objetivo de ampliar seu poder de influência na área médio-oriental.

 

Anos antes, a comunidade internacional havia assistido à prevalência de três grandes temas na região: a revolução religiosa no Irã, a ocupação do Afeganistão pela União Soviética e, por último, o irrompimento de conflito entre Iraque e Irã.

 

Todavia, o embate entre Washington e Damasco em vista da ocupação do Líbano poderia ser ombreado àqueles. Durante o governo Reagan (1981-88), a visão da diplomacia estadunidense resumiu-se a considerar na maior parte do tempo a rivalidade com sua contraparte soviética como um jogo de soma zero.

 

Em sendo sinceros anticomunistas, vários nomes da cúpula do governo americano tinham dificuldade de vislumbrar brechas no dia a dia, a fim de obter diálogo com seu maior rival sobre temas significativos. Ao considerar de maneira equivocada a Síria como mera marionete da União Soviética, os Estados Unidos reiteraram de modo indireto a aproximação entre aqueles dois.

 

Aos olhos de Washington, a invasão de Cabul por Moscou havia se constituído na maior ameaça à paz naquela vasta plaga e, desta forma, deveriam ser contidas iniciativas similares a todo custo. Nesse sentido, não deveria haver hesitação no tocante ao auxílio militar, mesmo indireto, e secundariamente econômico aos adversários do comunismo. Afastados do Irã e do Afeganistão, os Estados Unidos se voltariam para o Iraque com o propósito de uma aliança temporária.

 

Com o relativo distanciamento dos norte-americanos das questões libanesas, os sírios aspiraram a exercer uma influência política maior no Oriente Médio, ao definir sua área de influência ideal: Líbano e Jordânia.

 

Assim, eles não aceitariam a proposta estadunidense de paz direcionada a sua retirada do fragmentado país em troca da devolução das colinas do Golã e aproveitariam a oportunidade para fortalecer os xiitas em detrimento dos cristãos.

 

Ao longo dos anos 80, a resposta dos Estados Unidos seria valer-se de seus aliados fraternos, Turquia e Israel, para politicamente pressionar a Síria, visto que, do ponto de vista interno, a ditadura de Al Assad havia amedrontado a oposição, especialmente após a ação na cidade de Hamah em 1982.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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