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Queimadas: um assunto quente Imprimir E-mail
Escrito por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha   
Sexta, 28 de Setembro de 2007
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Todo ano é a mesma coisa. Chega a ser cansativo: desde que me entendo por gente que a ocorrência de inúmeras queimadas no Brasil nesta época do ano se repete. Do fim de julho até outubro, pipocam notícias de incêndios em parques e áreas protegidas no Cerrado, na Amazônia e no que resta da Mata Atlântica. Além disso, neste período um número assustador de focos de calor é detectado do espaço em todo o território nacional. A explicação para tal propagação de incêndios é simples: nesta época, a estação seca está em seu auge na maior parte do Brasil. Assim, todos, do grande fazendeiro ao trabalhador rural mais humilde, aproveitam que a vegetação está mais ressequida e, antes que as primeiras chuvas de verão comecem, lançam fogo no pasto ou em áreas de mata (embora a magnitude dos efeitos de uns e outros sejam obviamente diferentes). A prática vem de tempos imemoriais, e alguns dos indígenas que aqui viviam em tempos pré-colombianos já se utilizavam dela (assim como ainda o fazem atualmente).

 

Em agosto deste ano, como não poderia ser diferente, a situação repetiu-se e o número de focos superou a casa dos 21 mil. Em setembro, com dados apurados apenas até o dia 27, já foram contabilizados quase 22 mil. O total em 2007 já ultrapassa os 64 mil focos de calor. Só no próprio dia 27 foram 1339 focos. Detalhe: todos estes dados são de apenas um satélite, o NOOA-15. Outros satélites detectam focos adicionais, elevando estes valores (os sítios do PROARCO – Programa de Prevenção e Controle de Queimadas e Incêndios Florestais na Amazônia Legal – no IBAMA e no INPE fornecem maiores detalhes sobre a definição de focos de calor, limitações da metodologia, diversas formas de consulta de dados atuais e históricos e um grande número de outras informações úteis).

 

Em áreas já desmatadas, com pastagens, a queimada serve para estimular a rebrota das gramíneas, pois as plantas mais jovens são mais apreciadas pelo gado. Porém, sempre existe o perigo, e isso freqüentemente acontece, de que o fogo se espalhe para áreas com vegetação nativa. Muitas vezes, isto é até intencional, para que se ampliem as áreas de pastagens. Observei o alastramento diversas vezes no Pantanal, onde a prática da queimada, como em outras regiões do país, faz parte da cultura local de criação de gado.

 

Outras queimadas são feitas para acabar de “limpar” áreas que foram recentemente desmatadas, com as toras e galhos empilhados em montes e aguardando a sua vez de arder. Pior ainda: em muitos locais, o fogo é usado diretamente para queimar a mata ainda em pé e limpar o terreno para a agricultura ou a pecuária. Tosco é o adjetivo mais suave que consegui encontrar para classificar esta prática.

 

Os problemas relacionados às queimadas são muitos: entre eles estão os riscos à saúde humana, à segurança de rodovias e à integridade das linhas elétricas. Mas alguns de seus piores efeitos são, sem dúvida, os ambientais. A vegetação florestal desaparece, sendo substituída por formações abertas. Os animais silvestres sofrem de diversas formas: de morte direta no fogo à redução de recursos alimentares e de locais para viver, além da maior exposição a predadores. Uma imagem emblemática é a do tamanduá-bandeira que, com sua visão e audição ruins, é às vezes apanhado desprevenido pelas chamas, e sua cauda transforma-se numa tocha, com a qual o animal, correndo em desespero, espalha ainda mais o fogo.

 

Outro problema, talvez até mais grave devido às implicações de longo prazo, são as conseqüências para o aquecimento global. As queimadas em áreas de mata lançam uma enorme quantidade de gás carbônico na atmosfera em um curto período de tempo, que não é absorvido de volta. O motivo é que a massa total de matéria orgânica presente numa mata é muito maior do que a massa que irá se acumular na área recém-queimada. Toda a diferença permanece na atmosfera. Por causa destas queimadas que o Brasil é um dos grandes países poluidores. O impressionante total de 75% das nossas emissões de carbono está ligado ao desmatamento, boa parte do qual é feito através do fogo.

 

A prática das queimadas é mais um ingrediente danoso da perspectiva míope (do ponto de vista do desenvolvimento do país como um todo) de fortalecermos o agronegócio exportador de commodities  agrícolas. O pior de tudo é que não auferimos praticamente nenhum benefício para a nossa população. Já a poluição dos países desenvolvidos, conseqüência de sua industrialização, ao menos trouxe junto consigo a melhoria na condição de vida de seus habitantes. No Brasil, temos uma situação em que se ganha pouco e se perde

 

A análise dos dados históricos do PROARCO fornece pistas interessantes sobre tendências temporais e espaciais. Por exemplo, basta olhar os mapas com a localização dos focos que uma conclusão salta aos olhos. A maior parte deles está justamente no arco de desmatamento da Amazônia, numa larga faixa que começa em Rondônia, passa pelo norte de Mato Grosso (estado que detém o recorde absoluto de queimadas), avança por todo o Tocantins e o sul-sudeste do Pará e termina cortando quase todo o estado do Maranhão. Não por coincidência, a mesma área de expansão do agronegócio, principalmente de soja e gado.

 

Sem medo de errar, eu diria que a maioria destas queimadas é ilegal, feita sem os devidos cuidados ou desrespeitando ainda a manutenção das áreas de Reserva Legal. Mesmo com este quadro de incapacidade de fiscalização efetiva por parte dos órgãos governamentais (apesar do esforço de muitos), de desrespeito às leis e de ausência do Estado em boa parte da região amazônica, o governo aposta suas fichas no projeto de concessão de florestas públicas (cuja exploração madeireira, pela abertura de clareiras e pelo inevitável dano colateral, aumentará sua vulnerabilidade a incêndios florestais descontrolados) como panacéia dos problemas na região. O primeiro deles, em Rondônia, na Floresta Nacional do Jamari, está para ter o seu edital publicado. Ingênuo, muito ingênuo, para dizer o mínimo.

 

 

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Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews. E-mail: rogcunha(0)hotmail.com

 

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Última atualização em Segunda, 01 de Outubro de 2007
 

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