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Verdade 12.528: a importância de apurar fatos obscuros da nossa história Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, da Redação   
Qui, 12 de Dezembro de 2013
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No último dia 19 de outubro, há pouco menos de dois meses, estreou no Cinesesc da rua Augusta, pela 37a Amostra Internacional de Cinema de São Paulo, o documentário Verdade 12.528, dirigido pela Paula Sacchetta e pelo Peu Robles. O filme conta algumas das piores atrocidades cometidas pela ditadura militar brasileira através de depoimentos de familiares de mortos e desaparecidos e também dos camponeses do Araguaia que conviveram com a guerrilha.

 

Vinda de uma família que tem como histórico a luta contra os desmandos da velha ditadura, Paula foi uma das idealizadoras da FEP, Frente de Esculacho Popular, que desde 2012 vem perturbando o silêncio dos obscuros torturadores, apontando seus crimes bem em frente às suas residências. Junto de Peu, os dois resolveram partir para outro campo, e gravaram este documentário que certamente fará parte da história recente do cinema nacional devido às suas histórias emocionantes e repletas de perguntas que ainda estão esperando, ansiosamente, algumas por muitas décadas, serem respondidas. No último final de semana, Paula e Peu receberam os prêmios de melhor filme escolhido pelo público e melhor filme escolhido pelo júri, no festival Cine MuBe Vitrine Independente, realizado em São Paulo.

 

Na entrevista abaixo, pudemos conversar com a dupla a respeito de diversos temas relacionados ao filme. Paula e Peu falaram sobre a criação da FEP, suas idéias em torno das questões que permeiam a Comissão da Verdade e a necessidade de se contar corretamente a história do passado, para que ela não se repita no presente. Além, é claro, de alguns gigantes pormenores presentes nas gravações, entrevistas e viagens que construíram o filme.

 

Correio da Cidadania: Partindo do princípio de que nunca fazemos nada que não tenha a ver com a gente, de onde surgiu esse projeto?


Peu: De onde surgiu, a gente normalmente recebe essa pergunta e é difícil responder, é complicado, porque isso vem lá de trás. Esse documentário tem muito do que a gente vivenciou, sabe? A gente percebe coisas de dez anos atrás, de outros processos pessoais nossos e que estão presentes no documentário. Mas no curto prazo, a gente participa da FEP, a Frente de Esculacho Popular, que faz e organiza os escrachos (contra ex-torturadores e colaboradores do regime militar). Em uma das reuniões da FEP surgiu o tema da Comissão da Verdade e percebemos que isso era pouco conhecido, que, se parássemos alguém na rua e perguntássemos o que era a comissão da verdade, muita gente não saberia responder e muito menos poderia dizer a importância dela, né. Então, eu pensei, “pô, vamos fazer um documentário de cinco minutos sobre a Comissão da Verdade”, com a idéia de viralizar e colocar na internet, divulgar, fazer uma função didática, ou seja, uma explicação de o quê é e o porquê da Comissão da Verdade. E também tinha a vontade de registrar os depoimentos dos familiares que estão aí militando e a gente queria registrar a partir do nosso olhar os depoimentos dessas pessoas que,em minha opinião, são pouco valorizados.

 

Paula: É mais ou menos assim mesmo. Primeiro conversamos sobre a nossa posição, a posição do nosso grupo sobre a Comissão da Verdade, se a gente apoiaria, apoiaria criticamente, e daí, em um determinado momento, pensamos que “nossa, estamos aqui discutindo a nossa posição sobre a Comissão da Verdade enquanto muita gente nem sabe o que é a Comissão da Verdade”. Daí a idéia era essa: fazer um vídeo de cinco minutos explicando.

 

Peu: É, era realmente algo simples. No momento ali eu ainda desenhei um roteirinho pensando como se estruturaria mais ou menos e achei que cinco minutos seriam suficientes. Aí, quando fui trocar essa idéia com a Paula, falamos “opa, que tal fazer isso, isso e isso” e aí já era, né? Começamos a colocar a idéia no catarse e a fazer um roteiro mais elaborado...

 

Paula: Na verdade, a partir daí, começamos a fazer uma lista de pessoas e a gente olhou para a lista e falou “tá, isso não dá em cinco minutos,” daí fizemos a primeira entrevista e o áudio ficou ruim. Acabamos precisando de grana para comprar um equipamento fino de áudio, vimos que precisaríamos de grana para ir para o Araguaia também, daí, quando vimos o tamanho dos gastos, achamos melhor colocar no Catarse e daí...

 

Peu: Só uma coisa importante: até agora só falamos do que foi posto em prática, do tipo “ah, fizemos isso, isso e isso”, mas ainda tem uma certa angústia, uma indignação da nossa parte de que a sociedade não se envolve, sabe? O documentário também serviu para a gente tentar ir contra essa corrente. Então, além dessa questão prática, do que fizemos e etc., ainda tem a questão de se expressar contra essa corrente de anestesia que existe.

 

Paula: Bom, daí fizemos um orçamento não muito alto, porque não dá para pedir uma quantia de por exemplo 100 mil reais no Catarse, e fizemos uma pesquisa, lemos muito a respeito de financiamento no Brasil, vimos em até quanto os projetos são apoiados, e no final decidimos pedir 17 mil reais em quarenta dias, e conseguimos 18 e meio. E o melhor do Catarse, 18 mil reais é muito pouco para fazer um documentário, tiramos muita grana do nosso bolso e etc., mas foi uma coisa que nos deu força e nos possibilitou duas coisas. Uma, a entrada da grana. Com ela a gente foi atrás de equipamentos melhores, pudemos ir para o Araguaia e, sem essa grana, talvez não pudéssemos ir, demos grandes passos e profissionalizamos o projeto; e por outro lado, havia 152 pessoas que tinham dado grana e nós não podíamos decepcionar essas pessoas, sabe? Criou-se uma expectativa em cima do filme e nós tivemos que assumir essa responsabilidade, não era mais simplesmente fazer um videozinho. Saímos na Folha, na revista Claudia, “Casal recebe doação para fazer filme sobre a Comissão da Verdade”...

 

Peu: A arrecadação desse dinheiro acaba promovendo esse trabalho, sabe? Além das pessoas que deram a grana, ainda tem as pessoas que não doaram, mas que estavam sabendo do projeto, que acharam legal, e isso criou um corpo, tomou uma dimensão enorme. Além disso tudo, veio uma obrigação de preencher essas lacunas, do tipo, não estamos sozinhos, e também a energia, o combustível para fazermos o projeto dar certo, que veio das pessoas.

 

Correio da Cidadania: Voltando à FEP, tive a oportunidade de acompanhar alguns atos, um deles no antigo DOI CODI, aqui no Paraíso, e a pergunta é: por que vocês entraram para essa militância em específico?


Paula: A história da FEP, da Frente de Esculacho Popular, é meio engraçada. Ela surgiu na minha casa. Eu já conhecia os escrachos na Argentina e no Chile e um belo dia (17 de outubro de 2011), no Roda Viva, sabe, lembra quando reformaram o Roda Viva, o cenário e tal, e reabriram o programa com o Mario Sergio Conti de entrevistador? Então, quando o Conti foi reestrear o Roda Viva pegaram quem para ser o entrevistado? O Cabo Anselmo. Eu lembro que era uma segunda-feira, começo de semana, tinha sido um dia insano, eu tinha trabalhado que nem uma louca, chegado em casa destruída e deito no sofá da minha sala, da minha casa, e vejo aquele sujeito rindo da minha cara, entendeu? Eu me senti violentada. Eu pensei “cara, esse sujeito está dentro da minha sala rindo da minha cara”. Então, a tensão aumenta para mim, me dá até arrepios falar sobre isso. E com o estômago revirado, era uma coisa insuportável. Foi um negócio desesperador, eu me senti violentada no meu sofá, dentro da minha casa e pensei assim: cara, esses caras estão por aí, e estão impunes e rindo da nossa cara, e vão em rede nacional falar que tudo bem, que o que eles estavam fazendo era bom, senão o Brasil iria virar uma ditadura comunista.

 

E daí eu fiquei maluca, liguei para uma amiga e falei “fulana, estou passando aí e preciso de uma amiga para ir nesse rolê comigo”; fomos até a porta da TV Cultura de carro, tampei as placas do carro, parei lá e falei “fulana, fica no volante, se eu entrar correndo, você vai embora, tampei as placas, o radar não vai pegar velocidade, só faz isso”. Fui para a porta com um ovo em cada mão e pensei“bom, se esse cara foi na minha casa rir da minha cara, eu vou pelo menos chamar ele de ‘verme’ ali na porta da emissora”. E ele dizer que o que fez foi um favor à pátria, entregar a mulher dele grávida de um filho que era dele também, ela foi torturada e morta. Ele era infiltrado na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de luta armada). Daí eu fiquei ali na porta da TV Cultura conversando com o segurança, ele falou “você está esperando alguém? É filha do entrevistado?”. Eu falei “não, o único filho que ele poderia ter, ele mandou matar, a mulher grávida”; e o cara não acreditava. Daí, para não ficar discutindo muito com ele, disse que eu estava “esperando o meu namorado que trabalhava ali e já ia sair”.

 

Quando ele saiu, eu joguei um ovo no para-brisa e saíram os seguranças de dentro do carro para vir atrás, era um carro blindado, acho, e quando eles abriram a porta, eu gritava numa altura para ele me ouvir: velho, assassino, filho da puta. Cheguei em casa revoltada, mandei e-mails para alguns amigos que eu sabia que se preocupavam com essa questão de uma forma ou de outra, ou por terem gente na família que sofreu diversas formas de violência, ou que simplesmente não acham justo viver em um país sem memória; falei “gente, aqui tem um vídeo de um escracho que ocorreu no Chile, contra o assassino do Victor Jara (famoso cantor chileno)”. Era fim do ano isso, daí falei “ó, reunião na minha casa em janeiro, beijos”. E assim começou. Então eu acho que surgiu, e já tinham tentado criar comitês com os velhinhos, antigos militantes, já existia essa conversa, não fui eu que inventei nada, mas houve aquele passo, no sentido de “agora a gente vai fazer”.

 

Os velhinhos num primeiro momento não apoiaram a gente, depois eles super apoiaram, compraram a briga. E por que isso? Porque um sujeito que torturou, matou, e que entregou até a própria esposa grávida, não pode estar por aí solto, sabe? Ele no mínimo deveria ter sido julgado e a justiça ter sido feita. Porque nem isso, né; o escracho e o nosso filme também, eles são atos quase que desesperados, de dizer “gente, acorda!”.

 

O lema da FEP é “se não houver justiça, haverá esculacho popular”, e em um momento em que se está fazendo a justiça na Argentina e no Chile, em que o Videla (ditador argentino) foi preso, eles pararam de fazer os escrachos por lá, não precisavam mais ir atrás dos torturadores, porque eles estavam sendo presos. Mas isso não acontece aqui. E é exatamente por isso que essa idéia foi levada adiante. Podem até dizer que você não viveu a ditadura ou que não tem parentes mortos e desaparecidos, mas você vive em um país onde pode cruzar na rua com um torturador, um estuprador ou um ocultador de cadáveres.

 

Peu: Porque além de torturar, matar, eles também aumentaram essa alienação toda, afastaram ainda mais o povo das decisões políticas, do pensamento critico, das universidades. Já tínhamos um viés voltado para isso antes, e eles ainda catalisaram esse processo. E se envolver nisso é perceber o que está acontecendo e não tem como não se envolver nisso, sabe?

 

Correio da Cidadania: Em que pé está atualmente esse movimento dos esculachos?

 

Paula: A gente se desarticulou bastante após as manifestações de junho e julho, estamos fazendo menos reuniões, nos encontrando menos e os escrachos promovidos pelo nosso grupo não saem faz um tempo. Até porque precisamos ter certeza que fulano é um torturador, não podemos ir à casa de uma pessoa, fazer um escracho dizendo que ele é um torturador e no final das contas ele não ser. Precisamos ter provas, depoimentos, a gente procura, por exemplo, fazer escracho contra pessoas que estão sendo investigadas ou sofrendo ações penais ou declaratórias do Ministério Publico Federal, assim temos algum respaldo legal, que nos ampara, do tipo “esse cara torturou, esse cara desapareceu com corpos”.

 

E bom, agora estamos desarticulados, mas estamos aí. E tem também outros grupos e, enfim, isso não acabou, enquanto não houver justiça, haverá esculacho popular, os caras estão aí. A FEP está no momento focando menos na ditadura e participando de debates sobre a desmilitarização da PM, porque nos nossos escrachos, e também no filme fazemos isso, uma ponte com o presente: de que a impunidade do passado dá a carta branca para a impunidade do presente, em todas as ações da FEP, deixamos isso bem claro, do tipo “olha só, se a polícia te dá porrada na rua em uma manifestação pacífica, é porque eles sumiram com corpos no passado com a certeza da impunidade, ou seja, eles têm certeza que podem fazer certas coisas”.

 

Correio da Cidadania: Vamos entrar mais a fundo nessas questões: que semelhanças e diferenças vocês vêem entre os militares daquela época e a PM de hoje, e de que forma sistemática essa cultura de tortura, de espancamento, se manifesta nos diferentes momentos históricos?

 

Peu: Essa é uma resposta muito complexa. Tem a PM, tem a polícia em geral etc., que são ensinados que a lógica é essa, sabe? Eles têm aulas na academia deles e tal que ensina que não teve golpe de Estado, mas que houve uma revolução, então até hoje os erros deles são tratados assim, sem autocrítica alguma. Não há uma conversa sobre o que realmente aconteceu, não há um debate sobre a polícia realmente estar do lado da população, tem mesmo é essa lógica, essa estrutura de repressão. Não é uma parceira da população...

 

Paula: É, ela é muito menos uma força de segurança e muito mais uma força de repressão, na sua essência, na sua história. Tem um tenente da PM, que é o tenente Paz, o nosso único policial amigo, o tenente subversivo, foi preso na ditadura, e ele conta para nós a história. A polícia surgiu quando? Em 1800 e tanto, para reprimir os abolicionistas; então, ela sempre foi uma força para manter o status quo, manter a sociedade como ela está. Tentou manter daquele jeito, e depois a ditadura veio teoricamente para manter uma determinada ordem e não deixar uma suposta ditadura comunista se instalar, e hoje em dia tenta manter a mesma ordem. Reprimindo pessoas que estavam lutando pela redução de uma tarifa absurda do transporte público.

 

Peu: Na ditadura, ensinou-se que o pensamento de elite está certo. Que reprimir etc. está certo. Como eles conseguiram destruir o pensamento crítico em relação a isso, acabou enraizada essa lógica. E esse é um processo que está continuando, ele não parou no tempo.

 

Paula: A maior diferença para mim é o alvo dessa violência: antes eram militantes de esquerda, hoje são negros e pobres da periferia. No nosso filme temos depoimentos de familiares que desde 71 não sabem se seus parentes estão vivos ou mortos, que desde aquela época estão desaparecidos e eles não sabem onde estão; hoje, a família do Amarildo, por exemplo, vive a mesma situação. Em plena democracia, um absurdo. Ele entrou em um carro de polícia, de uma polícia teoricamente pacificadora, e desapareceu. Não só foi morto, como dizem que foi torturado, como também não foi achado o corpo. E aí? Sabe, cadê o Amarildo? Cadê a Ísis de Oliveira? Cadê o Rubens Paiva? Cadê os corpos desaparecidos? Entende? Eles sabem de tudo, eles sabem, e até hoje ninguém foi preso, por que a gente não pode fazer? Só porque é pobre, é negro, mora na periferia....

 

Peu: A lógica não tem muita diferença, pelo menos hoje a gente pode participar de algo assim, né, isso realmente é um avanço, mas a lógica está aí. E é revoltante ver que a população não se envolve, que essa maneira, essa lógica está enraizada, parece que está apenas começando um processo. É interessante ver o que a internet proporciona em relação a esses temas, a divulgação das nossas idéias, dá um certo ar de democratização da informação. E essa democratização da informação permite esse processo ir para frente.

 

Paula: Se você vê um PM batendo numa menina na manifestação, prendendo alguém, você pode filmar e pôr na internet, às vezes pode até pautar a grande mídia. Acho que é nesse sentido mesmo.

 

Correio da Cidadania: Vocês acham que é possível falar em democracia tendo em vista todo esse processo da repressão sendo confundida com segurança, fazendo com que a polícia siga a velha lógica de não ser amiga das pessoas, mas sim de determinados interesses?

 

Paula: Acho que não se pode falar sobre democracia de fato. A gente agora está fazendo um outro trabalho, que é um vídeo sobre advogados que lutaram contra a ditadura; e a entrevista sempre começa perguntando o que é justiça e o que é direito. O que é a justiça e o que é o direito hoje? E eu acrescento, o que é a democracia? A democracia de um cara que mora na Maré no Rio e pode ser morto a qualquer momento e ter seu corpo desaparecido é a mesma democracia que a minha, que não moro na favela, moro na Vila Madalena, em São Paulo, que tenho mais condições? Enfim, a minha democracia é mais democrática do que a dele, e isso é ridículo, é horrível, sabe, eu acho que não vou ter o meu corpo desaparecido porque a mídia vai se importar um pouco mais comigo do que com ele.

 

E o que muitos desses caras respondem é muito interessante: que a democracia, a justiça e o direito sempre obedecem a uma lógica econômica. Sendo assim, não se pode falar em uma democracia de fato, ainda mais quando nesse bolo entram crimes gravíssimos de violação dos direitos humanos que não foram sequer apurados, investigados. A justiça do (Carlos Alberto Brilhante) Ustra, por exemplo, também é maior do que a minha justiça, a democracia do Ustra, os direitos dele de matar, estuprar, desaparecer com corpos, são maiores do que os dos outros, enquanto uma amiga nossa não tem a avó. O pai dela não sabe onde está o corpo da mãe, então isso é muito grave. O direito infelizmente está vinculado a essa lógica de manter o status quo a partir de um viés econômico.

 

Correio da Cidadania: Bom, falamos sobre o direito, a justiça, a democracia, mas e a mídia? Se antes ela usava palavras como “subversivo e terrorista”, hoje ela não se cansa de falar em “vândalos, baderneiros” e fazer a distinção entre “bons e maus” manifestantes, “bandidos”, quando se refere a pessoas da periferia, principalmente se forem negros. É possível fazer esse mesmo paralelo em relação à mídia? Tendo em vista as constantes campanhas difamatórias da juventude, principalmente a da periferia, e dos movimentos sociais, atualmente tendo o blackbloc como principal alvo.

 

Peu: A grande imprensa olha para os fatos com o olhar de um capitalista. Ela vai falar o que aquele cara ali, que faz parte, ou visa um lugar na mesa de jantar do sistema, quer ler, ouvir, ou seja, a relação ali é muito voltada para a grana, então escreve-se o que é mais fácil de ser vendido para esse público. Não quero transformar isso em um panfleto anticapitalista, isso é uma leitura, a grande mídia é um negócio mesmo, funciona assim.

 

Paula: E talvez mais grave ainda é a mentalidade dessas grandes empresas de mídia, que seguem a mesmíssima lógica da qual estamos falando aqui. Sabe, quem são os donos das grandes empresas de telecomunicações do Brasil hoje? São senadores, famílias riquíssimas, são oligopólios, são grandes grupos da elite. Eles pegam esses veículos e veiculam as ideologias deles, defendem os interesses deles, propagam as idéias que bem entendem...

 

Peu: E aí fica essa representação de uma lógica que precisa ser mantida.

 

Paula: Isso me lembrou um caso muito grave, que representa bem essa história de que antes era terrorista e hoje é vândalo. É o do Ivan Seixas, filho do então militante Joaquim Alencar de Seixas. Ele havia sido preso junto com o pai no DOI CODI e posteriormente levado pelos militares para uma simulação de fuzilamento no parque do Estado. No caminho, ele passou de carro em frente a uma banca de jornal e viu uma foto do pai dele na capa da Folha da Tarde e a manchete era algo como “morre um terrorista”; e daí ele voltou ao DOI, e o pai estava lá, vivo. Então, imagina a inserção que a ditadura não tinha nesses jornais, no sentido de “vai lá, dá essa notícia”. Daí o jornal dá a notícia da morte do cara de dia, mas ele está vivo, e é só de noite que vão de fato matá-lo.

 

Neste caso foi assim. E hoje funciona mais ou menos igual, tem a mesma falta de respeito com a pessoa acusada. Você liga o jornal nacional por exemplo e está lá: “Foram presas três pessoas acusadas de roubar não-sei-quem”. E daí aparece na globo o cara ali, algemado, colocam ele até na frente do banner da polícia, mas sabe, o cara ali ainda é suspeito e está em rede nacional sendo acusado de roubo. Mesmo que ele seja inocente e posteriormente prove isso, a inocência dele não vai sair numa errata do jornal nacional e ele estará ferrado do mesmo jeito, pois, para a opinião pública, ele já é culpado, já foi dado o veredicto. E acabou a vida dele: dificilmente conseguirá um emprego, imagina o quanto ele vai sofrer moralmente na comunidade onde mora, entendeu? A promiscuidade da grande mídia é muito grave.

 

CDC: Numa conversa preliminar, vocês comentaram sobre um incidente em um cemitério agora essa semana relacionado à questão da memória, podem contar pros leitores um pouco sobre esse episódio?

 

Paula: Estava rolando a Bienal de Arquitetura aqui em São Paulo e uma das obras era uma instalação no cemitério do Araçá, do artista e músico, Celso Sim e de uma arquiteta, a Anna Ferrari. No cemitério do Araçá estão as 1049 ossadas retiradas da vala clandestina de Perus. Essa vala foi descoberta nos anos 90, durante a prefeitura da Luiza Erundina, e as ossadas, possivelmente restos mortais de desaparecidos políticos, foram transportadas para o Araçá para ficarem lá até teoricamente serem identificadas. Suspeita-se que há ossadas tanto de militantes quanto de pessoas que não eram militantes, de indigentes e tal. E daí fizeram essa instalação que tem um texto do Helio Oiticica adaptado pelo Celso Sim; você entra nela e passa uns vinte minutos percorrendo a instalação dentro do cemitério até chegar ao ponto principal, onde há a projeção de um vídeo sobre uma pedra de mármore que eles fizeram e que diz exatamente sobre a possibilidade de haver ocorrido o que ocorreu com essas ossadas.

 

Então eles quiseram fazer essa instalação no local onde estão localizadas essas 1049 ossadas, para pôr essa questão em evidência. Eis que um dia, antes da abertura da instalação, entraram no cemitério de madrugada e depredaram tudo, destruíram toda a instalação, incluindo a pesadíssima pedra de mármore. E isso saiu em pouquíssimos veículos de imprensa. E foi um crime muito grave, é uma depredação de uma obra de arte pública ali, que discute temas relacionados com a democracia, a cidadania, em um espaço público, que deveria oferecer uma certa segurança.

 

Correio da Cidadania: Muito interessante toda essa análise que estamos fazendo, mas vamos falar sobre as filmagens. Gostaria de saber mais sobre a viagem de vocês para o Araguaia, um retrato mesmo dessa viagem.

 

Paula: Claro que foi muito difícil em um primeiro momento, imagina dois paulistanos chegando lá para filmar as pessoas.Paulistanos gostam de deixar tudo agendado, já ter os contatos e os horários certinhos para encontrar as pessoas e isso não acontece lá. A gente estava trabalhando durante boa parte das filmagens, então filmávamos nos finais de semana e feriados e, durante a semana, trabalhávamos para nos sustentar. Daí definimos que iríamos para o Araguaia no carnaval, e assim compramos as passagens dois ou três meses antes. Nesse carnaval passado, de 2013. A meta era entrevistar os camponeses, e estar com tudo agendadinho, super organizado, pois teríamos pouco tempo lá. Bom, pensei, fizemos uma pesquisa no youtube, na internet, para ver quais camponeses queríamos, fizemos a lista, passamos para conhecidos nossos que foram do Partidão, estiveram no Araguaia, para que pudessem nos auxiliar na escolha; até porque existem camponeses que hoje dizem que ajudaram os guerrilheiros mas, na verdade, naquela época, colaboraram com os militares.

 

Daí começou a incansável busca pelos camponeses. E chegávamos lá para falar com fulano e ele não estava ou alguém dizia “ah, agora ele não pode, volta mais tarde, volta amanhã”, e não havíamos conseguido falar com nenhum camponês em Marabá, em lugar nenhum. Encontramos um grupo que já havia feito um documentário sobre o Araguaia, chama Araguaia Campo Sagrado, e foram eles que abriram nossas portas. Colocaram a gente dentro de um carro, nos levaram uns 100km pra dentro da transamazônica, que passou por cima dos índios e etc., em nome do progresso do Brasil, e nos levaram lá na cidade para falar com o presidente da associação dos torturados do Araguaia. E esse cara nos salvou. Pois ele nos levou para a casa de um camponês, e esse nos levava para a de outro, que levava para a de outro e de outro. Alugamos um carro para ir para as casas de todos esses camponeses.

 

Lá acontece uma coisa que eu acho muito curiosa, que era o comandante do exército na região que, depois da guerrilha, virou prefeito de uma cidadepróxima e é dono de umas terras; ou seja, ele ainda mora lá e, com ele, ainda existe um medo dos camponeses e das pessoas em geral em falar sobre a guerrilha e sobre as coisas que aconteceram por lá.

 

Correio da Cidadania: Pegando como gancho uma coisa que vocês haviam dito na estréia do filme: os camponeses viam algo dos guerrilheiros em vocês?

 

Peu: Teve uma coisa afetiva muito forte com eles assim. Eu fiquei muito ligado ao Seu Pedro, que é um cara muito culto. Ele, sem querer, na fala dele, me passou todo um contexto de como eram as coisas lá antes e depois da guerrilha, falou sobre como foi politizado, sobre como se envolveu com os guerrilheiros, foi muito legal, sabe? A gente comeu com eles, em uma casa muito humilde, muito simples. Lá estava muito difícil, muito quente, úmido, a gente acabou se entregando àquelas pessoas e à situação.

 

Paula: Sabe, por que viram semelhança entre nós e os guerrilheiros? Éramos dois paulistas que chegaram ali, diferentes deles. A gente não era camponês, não éramos da roça nem nada....

 

Peu: Sim, e chegamos também de coração aberto, com uma postura aberta, querendo se envolver com eles, rolou uma identificação.

 

Paula: Como a Dona Adalgisa fala, “era gente educada, gente sabida...”, e éramos mesmo muito diferentes deles, mas em uma postura positiva, sem querer nos impor, pelo contrário. Acho que se identificaram com isso também.

 

Peu: Ah, deixa eu falar da Vale. Bom, chegamos em Marabá e fomos jantar com um pessoal de lá. No jantar, eles comentaram sobre como a Vale atua na região. E a gente não tem idéia. Eles contaram que, por exemplo, se a Vale está interessada em uma região e lá tem uma cidade, que ela chega na cidade e compra o açougue, compra o mercado, compra a padaria, e depois fecha tudo. Daí o morador não tem mais opções de açougue, de padaria, de mercadinho, de nada, e vão embora da cidade, liberando o espaço para a Vale entrar. Além disso, se vai um repórter de fora para lá investigar isso, em todo lugar para onde ele vá, vai junto com ele um capanga. Daí o repórter senta em um lugar para tomar café e o capanga está na mesa ao lado fitando sem se preocupar em fingir que não é com ele. A Vale hoje, uma gigante principalmente lá na região amazônica, e outras empresas também, são empresas que cresceram muito durante a ditadura, com dinheiro proporcionado pela própria ditadura.

 

Correio da Cidadania: Vocês poderiam citar aqui dois depoimentos presentes no filme que mais emocionaram vocês: um do Araguaia e outro daqui do Sudeste?

 

Peu: Lá no Araguaia eu me emocionei com o Seu Pedro. Ele que é um cara consciente, lá no meio do Pará, ao longo da vida, buscou estudar, ler muito, se informar, ele argumenta muito bem. Mas o que mais mexeu comigo foi um trecho da Adalgisa, quando ela fala dos guerrilheiros: “gente do peito da gente, eu gostava muito daqueles guerrilheiros”. Aquilo ali eu acho que tem uma carga emotiva muito forte.

 

Paula: Eu acho que essa fala de que “os guerrilheiros eram gente do peito da gente” é muito emblemática, porque, afinal, quem eram os guerrilheiros? Eram estudantes de medicina, de humanidades e, além de tudo, além das atividade da guerrilha, eles ainda prestavam atendimento às pessoas, conversavam, contavam histórias para as crianças de noite... Faziam uma série de atividades e prestavam atendimentos para um povo que era carente de tudo.

 

Sabe, eu como jornalista e como pessoa, desde que me entendo por gente, a questão da ditadura sempre me chamou a atenção, me comoveu, então imagina, vi tudo quanto é filme, li livros etc.; eu achava que nada mais me pegaria, sabe? Mas, daí, conversando com esses camponeses do Araguaia, com as famílias dos desaparecidos, sempre me cai uma lágrima, eu pude perceber que meu coração não endureceu, que ainda estou sensível. A parte que mais me pega é a da dona Otilia, mãe de Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido em 1971,pelo motivo de que elae a Regina, irmã do desaparecido, enterraram o parente delas sem que houvesse um corpo. Imagina o tamanho desse desespero, dessa desolação.

 

O corpo é importante, sabe? Você vê o corpo ali do seu parente e pensa “pô, o cara morreu”;  no caso delas, o corpo não está, e elas não fazem a menor idéia de onde esteja. Por exemplo, no caso do Virgílio Gomes da Silve, que desapareceu em 1969, eu perguntei para a Ilda, sua viúva, quandoela teve certeza da morte; e ela me disse que em 2004, quando o Mario Magalhães encontrou um atestado de óbito dele. Daí eu falei “nossa, de 69 a 2004, são 35 anos aí”; e ela respondeu “ah, eu achei que ele pudesse ter sido torturado, solto e agora estivesse meio maluco por aí, andando como mendigo”.

 

Verdade 12.528 – Ficha Técnica

Direção e produção: Paula Sacchetta e Peu Robles

Montagem e finalização: André Dib

Música original: André Balboni

Som direto: André Mascarenhas

Cor: Pedro Moscalcoff

Efeitos: Alison Zago

Mixagem: Gui Jesus Toledo

Produtora de áudio: Estúdio CANOA

Realização:João e Maria.doc

Cor, 55 minutos

 

*Devido as inscrições do documentário em diversos festivais, ele ainda não está disponível na internet, mas é possível visualizar as atualizações dos diretores e a agenda de exibições para 2014 na página João e Maria.Doc: http://joaoemariadoc.com/doc-verdade-12-528 ou facebook/

Raphael Sanz é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 20 de Dezembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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