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Acordo EUA-Irã: paz interina e guerra eterna Imprimir E-mail
Escrito por Ramez Philippe Maalouf   
Segunda, 02 de Dezembro de 2013
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Alívio econômico para um; geopolítico para o outro

 

Os EUA – a nação eleita por Deus para dominar o mundo, segundo a tradição liberal-cristã protestante que legitimou a fundação do país – ofereceram uma espécie de trégua à república islâmica-xiita do Irã para poder avançar em sua guerra contra a China. As relações entre EUA e Irã ficaram estremecidas após a queda do regime do , aliado estratégico de Washington D.C., e a ascensão do regime aiatolás em Teerã, em 1979, que devolveu a soberania aos iranianos.

 

Desde então, assistiu-se o rompimento formal entre os dois países, o que não impediu que se reaproximassem em diversas oportunidades contra inimigos em comum (Iraque, sob Saddam Hussein, 1980 e 2003, Iugoslávia, 1999, e Afeganistão, sob os talibãs, 2001). Desta vez, Barack Obama, presidente dos EUA, foi muito mais além dos acordos tácitos que seus predecessores na Casa Branca firmavam com o ex-aliado convertido em inimigo a partir de 1979. Ele iniciou conversas em alto nível, com o próprio Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, em 2009, por meio de cartas. Em 2011, por meio do sultão omani, iniciaram-se secretamente as negociações entre Washington D.C. e Teerã. Porém, somente após as eleições presidenciais iranianas de 2013, a Casa Branca propôs, em canal aberto com o presidente do Irã Hasan Rouhani, um acordo sobre o programa nuclear iraniano, desde que obedecidas algumas salvaguardas em troca do relaxamento das sanções econômicas impostas pela ONU, sob pressão ocidental.

 

O programa nuclear iraniano foi criado nos anos 1970, ainda no regime do , com apoio dos EUA, e passou a ser visto como ameaça à paz mundial pelo Ocidente a partir da década de 1990, quando o regime nacionalista iraquiano de Saddam Hussein (inimigo do Irã) foi neutralizado por uma invasão e ocupação militar de uma coalizão internacional liderada por tropas estadunidenses. As potências ocidentais, incluindo também Israel, acusaram o governo de Teerã de usar o programa nuclear para fins militares e passaram a hostilizar o país persa por meio de sanções econômicas impostas pela ONU. Com o acordo firmado por Obama e Rouhani, permite-se o enriquecimento de urânio a 5% de pureza, mas impede-se que o enriquecimento chegue a 20% de pureza, visto como perigosamente próximo ao de uma arma nuclear, embora isto exija um enriquecimento a 97%.

 

Desta forma, o governo iraniano deve permitir o acesso irrestrito de inspetores da ONU às suas instalações nucleares. O acordo tem prazo de validade de seis meses. Uma vez cumpridas as exigências, os EUA se comprometem a “descongelar” US$ 7 bilhões dos cerca de US$ 120 bilhões em ativos do governo iraniano “sequestrados” pelo Ocidente desde a Revolução de 1979. O Irã aceitou a proposta uma vez que o levantamento das sanções, mesmo que limitadamente, possibilitaria um incremento imprescindível ao comércio com o exterior, além de diminuir os prejuízos causados pelo embargo internacional aos seus produtos.

 

China, o grande alvo

 

Para os EUA, o alívio oferecido pelo acordo permite-lhes mãos livres para se ocuparem do que realmente lhes interessa: concentrar poder de fogo no Leste Asiático, para o enfrentamento com a China. As negociações com os iranianos teriam começado em meados de março, sendo mediadas pelo sultão do Omã. Esta data coincide com o aumento das hostilidades não declaradas de Washington D.C. contra a China e seu aliado Coreia do Norte. Uma das ofensivas estadunidenses no leste asiático, neste mesmo período, foi a tentativa de fraudar as eleições presidenciais na Malásia, uma nação industrializada e soberana, para tentar impor um primeiro-ministro simpático ao Acordo de Comércio Trans-Pacífico: o ex-vice-primeiro-ministro e ex-ministro das finanças da Malásia, Anwar Ibrahim (filo-wahhabita). Este político malaio com profundas ligações com o wahhabismo (doutrina extremista do islã sunita) foi o responsável, durante seu mandato (1993 – 1998), pela adoção do receituário liberal imposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), causando uma profunda crise econômica no país, que se alastrou por toda a economia mundial, em 1997.

 

Sua política liberal fracassada custou-lhe o cargo. Porém, Ibrahim foi o “ungido” pelos EUA, em maio de 2013, para tentar se eleger ao cargo de primeiro-ministro malaio, recorrendo a métodos “pouco ortodoxos”, mas foi derrotado pelo candidato da situação Nagib Razak. Poucos meses depois, no que pode ser compreendido como uma resposta à intervenção estadunidense nas eleições, as marinhas malaia e chinesa realizaram exercícios conjuntos em novembro de 2013. No mesmo mês, os chineses criaram a Zona de Defesa Aérea do Mar da China Oriental, que inclui as Ilhas Senkaku, um território em disputa com Japão e Taiwan (“província chinesa rebelde”, segundo Pequim). Pequim anunciou ainda que exigiria de todas as aeronaves que sobrevoassem a zona um plano de voo e apresentação da frequência de rádio. Os EUA viram na formação da zona uma afronta ao seu poder na região, pois ocupa militarmente três países na região: Filipinas, Japão e Coréia do Sul, além de ter uma aliança com Taiwan. Assim sendo, não tardaram a despachar aviões para sobrevoar a região e desmoralizar a decisão chinesa. A criação da zona visa romper o bloqueio que estes quatro países do Leste Asiático exercem sobre a China como bases militares do poder dos EUA.

 

Pelos motivos acima mencionados, o Acordo Nuclear Interino de Genebra está sendo compreendido pelos analistas internacionais como um processo de desengajamento dos EUA do Oriente Médio, já detectado com a falta de iniciativa mais incisiva na revolta popular egípcia, iniciada em 2011, em curso até o presente momento. Com a distensão com o Irã, limitando seu projeto nuclear e relaxando algumas sanções, porém mantendo pressão sobre o país, Obama cumpre promessa de negociar com o ex-aliado persa, anunciada ainda na campanha eleitoral.

 

Desagradando aliados regionais

 

Trata-se de uma aposta muito alta do presidente ianque, que coloca em risco a aliança estratégica dos EUA com Israel e Arábia Saudita, caso o acordo fracasse. De fato, israelenses e sauditas não escondem a fúria com as negociações com aquele que consideram como inimigo em comum, a República Islâmica do Irã, cujo programa nuclear passa a ter aval da maior potência militar do planeta. Israel teme que os EUA possam algum dia restabelecer com o Irã o tipo de relação especial que tinham na época da autocracia do . Se se isto voltar a ocorrer, o “Estado judeu” perde os privilégios conseguidos somente após a queda do autocrata persa - toda sua geoestratégia se baseia na permanente necessidade de demonstrar ao poder norte-americano que Israel é um aliado indispensável no Oriente Médio.

 

Além disto, ao não se eliminar o programa nuclear iraniano, os israelenses entendem que seus dias como única potência nuclear médio-oriental estão contados. Isto também é o que o reino saudita mais teme, pois Israel tem servido como escudo da Arábia Saudita desde 1967, quando os israelenses derrotaram e humilharam os maiores inimigos dos sauditas (o Egito nasserista, a Síria ba’athista e a Jordânia hachemita). Desta forma, como resposta a esta “afronta” dos EUA aos seus interesses, há fortes indícios de que os dois países formalmente inimigos articularam ações, principalmente armadas, para sabotar as negociações: atentados em Beirute (capital do Líbano) contra a embaixada do Irã; onda de atentados a bomba no Iraque; aumento da repressão da ditadura militar egípcia contra manifestações a favor da Irmandade Muçulmana e simpatizantes; intensificação do recrutamento, financiamento e armamento dos “rebeldes” contra o regime do Ba’ath em Damasco; apoio à aproximação do Egito com a Rússia; entre outros ataques aos árabes.

 

Numa das atitudes mais surpreendentes e inéditas da diplomacia internacional, o reino saudita recusou a vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU, após ter sido eleito pelos países membros da organização. Mas a vingança de sauditas e israelenses pode ter apoio dos próprios deputados e senadores do Congresso dos EUA, por meio dos lobbies das petrolíferas e pró-sionista, articulando a oposição ao governo Obama, dificultando-lhe o seu governo, que já sofreu o bloqueio orçamentário por picuinhas partidárias com o Partido Republicano (muito simpático aos interesses petrolíferos sauditas e armamentistas israelenses).

 

Guerra sem fim

 

As responsabilidades impostas ao presidente dos EUA com a assinatura do Acordo são, portanto, muito grandes. A decisão de Obama não pode ser interpretada como apenas o reconhecimento do Irã como potência regional soberana. Ainda que a derrota momentânea dos EUA pela Rússia na Síria o tenha obrigado a reconhecer o fim (da ilusão) da unipolaridade, a Casa Branca segue sua “geoestratégia do caos” no Oriente Médio: os ataques de aviões não-tripulados ianques permanecem no Afeganistão, Iêmen e Paquistão, assassinando centenas de pessoas; assim como o apoio indireto à desestabilização/balcanização da Síria, do Irã e até mesmo de aliados como a Turquia; enquanto que, simultaneamente, mantém a Líbia devastada sem um governo central efetivo.

 

Não podemos deixar de salientar as tentativas de continuar a ocupação militar do Afeganistão, após 12 anos de guerra. Tal quadro não nos permite duvidar de que as regras do jogo podem ser mudadas ao bel prazer dos EUA e que, portanto, o perigo de uma guerra (até mesmo nuclear) no Oriente Médio não está afastado. A “paz interina e guerra eterna” é o recado que Barack Obama e a república liberal da “casta dos grandes proprietários brancos, anglo-saxões-pós-protestantes-pagãos”, estão enviando à Rússia e à China, via Irã e Síria. Afinal, o destino manifesto do “povo eleito por Deus” é o de submeter toda a Humanidade aos seus desígnios.

 

Leia também:

Obama e Rouhani: as ligações perigosas entre EUA e Irã

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Ramez Philippe Maalouf é historiador e doutorando em Geografia Humana pela USP.

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Última atualização em Quarta, 11 de Dezembro de 2013
 

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