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Bergogliomania e crise (3) Imprimir E-mail
Escrito por Osvaldo Coggiola   
Sexta, 29 de Novembro de 2013
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Contra a teologia da libertação e prestigiado por João Paulo II

 

Durante o período da democracia, Bergoglio prosseguiu, sem ser inicialmente incomodado por seu passado comprometedor (como aconteceu com muitos outros) sua carreira político-religiosa. Distinguiu-se como portavoz das principais campanhas reacionárias encabeçadas pela Igreja Católica argentina, contra a lei do divórcio e contra o aborto legal, entre outras. Foi o principal opositor à legislação argentina que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tendo dito que "se o projeto de lei que prevê às pessoas do mesmo sexo a possibilidade de se unirem civilmente e adotarem também crianças vier a ser aprovado, poderia ter efeitos seriamente danosos sobre a família. O povo argentino deverá afrontar nas próximas semanas uma situação que, caso tenha êxito, pode ferir seriamente a família. Está em jogo a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Não devemos ser ingênuos: essa não é simplesmente uma luta política, mas é um atentado destrutivo contra o plano de Deus" (sic). Em maio de 1992, o Papa João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires. Sua ordenação episcopal deu-se em junho de 1992. Em 3 de junho de 1997, foi nomeado arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Tornou-se arcebispo metropolitano de Buenos Aires em fevereiro de 1998. Foi depois nomeado ordinário para os fiéis de rito oriental por João Paulo II, em novembro de 1998.

 

Uma carreira meteórica, garantida pelo favor de Karol Wojtila, que tinha reduzido o teólogo progressista Leonardo Boff e seus partidários ao silentium obsequiosum, e proclamado claramente que “a Igreja católica não é uma democracia”. Como se sabe, João Paulo II combateu firmemente a Teologia da Libertação e outras vertentes progressistas dentro da Igreja ao mesmo tempo em que canonizava o fundador da reacionária Opus Dei e afagava o criminoso pedófilo Marcial Maciel, fundador da ultra-ortodoxa seita dos “Legionários de Cristo”. Silenciou enquanto foi possível sobre as ditaduras militares da América latina com apoio norte-americano; acobertou as fraudes financeiras pelo Banco do Vaticano junto à máfia italiana e à CIA, incluindo o tráfico de armas e financiamento de guerrilhas de direita, como revelou o escândalo do Irã-Contras. Protegeu o presidente do mesmo banco, Arcebispo Marcinkus, condenado por cometer fraudes e crimes financeiros, e também suspeito de ser mandante de três assassinatos. Encobriu os casos de pedofilia na Igreja enquanto cobrava dos fiéis que não usassem meios contraceptivos como a pílula e a camisinha, mesmo na época em que surgiu a epidemia pelo HIV, e lutava ativamente contra o reconhecimento das relações homossexuais.

 

Quando Bergoglio, nos anos 2000, chegou à condição de chefe do episcopado argentino, as relações sociais do país se encontravam em processo de dissolução. Bergoglio considerou positivamente a operação de resgate político do Estado, encabeçada pelos Kirchner. Quando a Argentina capitalista se derrubava, Bergoglio convocou a mesa de “diálogo social”, onde participou a central sindical CTA para sustentar o governo de Duhalde, que antecedeu Kirchner e estava procedendo a um gigantesco confisco econômico-social. O vice-governador de Buenos Aires, Gabriel Mariotto, o chefe do Movimiento Evita, Emilio Pérsico, qualificaram Bergoglio de “peronista”. Em 19 de abril de 2005, quando Ratzinger foi eleito sucessor de João Paulo II, a ascensão internacional de Bergoglio já estava bem consolidada (sobretudo ao calor da luta contra as tendências “progressistas” na Igreja) ao ponto de ocupar o segundo lugar na votação do conclave vaticano. Provavelmente, não foi vencedor na ocasião por causa das denúncias que começavam a pesar sobre ele na Argentina. Em O Homem que Não Queria Ser Papa, o jornalista alemão Andreas Englisch, correspondente no Vaticano, disse que o medo de eventual cumplicidade com a ditadura tornou o argentino uma escolha insegura para os cardeais. O escolhido, Joseph Ratzinger, fora o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (como foi em 1908 rebatizada a Santa Inquisição), colocado no posto por Wojtila para modelar a doutrina da Igreja.

 

Protegendo o lado obscuro da Igreja

 

Durante o pontificado de Bento XVI estalou a crise econômica mundial. A crise, não era mais, para o Vaticano, a da Igreja, mas sim a crise do capitalismo e de sua forma institucional como um todo, atingindo a totalidade dos Estados e instituições. Ratzinger pouco poderia fazer em meio a esta tormenta. O que pôde ele fez, no sentido de continuar encobrindo, disfarçando, tocando adiante um barco furado cujo destino é naufragar, de modo similar aos Estados Nacionais com suas dívidas e escândalos políticos. Seu legado para a Igreja foi, afinal, semelhante ao que o reinado de Bush deixou para os Estados Unidos: a clareza mais ou menos generalizada de que comandava uma instituição suja, corrompida e podre em seus fundamentos. Para o IOR (Instituto para as Obras da Religião), o banco do Vaticano (1), Ratzinger havia nomeado um banqueiro ligado a Opus Dei e ao Banco Santander, Gotti Tedeschi, que renunciou em 2012, no mesmo dia em que o mordomo do papa era preso por revelar documentos secretos.

 

O informe secreto de Tedeschi sobre o IOR revelava que ocorriam todo tipo de negociatas, lavagem de dinheiro, inclusive da máfia siciliana. O novo presidente do IOR, Ernest von Freyberg, foi nomeado após a renúncia do papa e, até então, presidia um estaleiro alemão que fabricava navios de guerra desde o período nazista. Bento XVI protegeu setores diretamente nazistas do clero, como o bispo Richard Williamson, negacionista do Holocausto que havia sido excomungado por João Paulo II, e cuja excomunhão foi revogada por Bento XVI em 2009. Apesar disso e de ter atendido aos interesses de setores ultraconservadores da Opus Dei e do Caminho Neocatecumenal, cerrando fileiras com partidos como o PP na Espanha para impor os planos de austeridade e flertando com a extrema-direita europeia, Bento XVI teria desagradado a esses setores ao tentar reconhecer parte dos escândalos de pedofilia para buscar limpar a reputação da Igreja. Um colunista do jornal espanhol El País avaliou que a renúncia foi resultado da pressão desses setores integristas.

 

Em inícios de 2013, o papa Bento XVI anunciou que renunciaria ao pontificado em 28 de fevereiro. O impacto da renúncia, embora anunciada como sendo devido a debilidades de saúde, foi um gesto extremo diante de um Vaticano imerso em escândalos hediondos, de depósitos no IOR do dinheiro da Máfia até redes de prostíbulos, de pedofilia e assédio sexual sistemático (um cardeal, o escocês Keith O´Brien deixou de ir ao conclave por esse motivo) até corrupção e assassinatos. Bento XVI comunicou sua renúncia em discurso pronunciado em latim durante um consistório convocado para anunciar três canonizações: "no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado. Deverá ser convocado, por quem de direito, o Conclave para eleição do novo Sumo Pontífice".

 

Em 2012, o arcebispo italiano aposentado Luigi Betazzi já havia especulado abertamente sobre a possibilidade de sua renúncia: "Aqueles entre nós que têm mais de 75 anos não são autorizados a comandar nem mesmo uma diocese pequena, e os cardeais com mais de 80 anos não podem eleger o papa. Eu entenderia se um dia o papa dissesse ‘mesmo eu, não posso mais realizar meu trabalho'". O último papa a renunciar fora Gregório XII, que abdicou em 1415, no contexto do “Grande Cisma do Ocidente”: antes dele, houve apenas dois casos: Ponciano em 235 e Celestino V em 1294.

 

Houve assim uma eleição papal de emergência, em uma situação de crise. A Rede de Sobreviventes dos Abusados por Sacerdotes, no México, apresentou uma lista de doze cardeais do país encobridores de padres pederastas, solicitando sua exclusão da assembleia. Os doze, claro, votaram no conclave, assim como muitos outros em situação semelhante. Só nos EUA, a Igreja católica pagou, entre 2007 e 2009, mais de um bilhão de dólares em ressarcimentos judiciais a vítimas de prelados pedófilos. A homofobia (e ao mesmo tempo a prática secreta da homossexualidade) e a misoginia da Igreja Católica são resultados da repressão e do recalque sexual. A reiterada prática de pedofilia por uma parte do clero é produto das neuroses sexuais de recalcados da castidade compulsória.

 

A rapidez com que Jorge Bergoglio foi consagrado por um conclave semelhante a uma omertà buscou tirar a sucessão de Bento do impasse dominado pelo colapso da cúpula vaticana. Antes do conclave, todos os analistas escreviam que ele não tinha chances por seu currículo ao menos omisso diante do genocídio argentino. Ao que parece, em novas condições (a crise mundial e a crise da Igreja), foi justamente esse currículo que lhe deu as credenciais para a vitória. “A questão central é a governabilidade”, disse John Allen, biógrafo de Joseph Ratzinger, para explicar a urgência dos cardeais “depois de oito anos de não governo” (sic), aludindo, sem nomeá-la, à massa sem precedentes de delitos, crimes e fraudes de todo tipo que levara à renúncia do papa alemão. Os “informes secretos” que provocaram a fuga de Ratzinger nem sequer foram revelados aos 114 cardeais que deviam eleger seu sucessor. A negativa do Secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, em entregar os informes secretos os convenceu de que estavam no fim de uma linha. A continuidade do “partido romano” (um quarto do colégio de bispos) ameaçava com a explosão do bordel vaticano, onde – segundo esses informes – operava, entre outros, um “lobby gay”. O candidato brasileiro, Odilio Scherer, foi liquidado como candidato quando tentou uma defesa do IOR, cujas operações e contas foram objetadas pela comissão europeia dedicada ao resgate do sistema bancário. O IOR está falido, esvaziado por operações com a máfia, lavagem de dinheiro e negociatas da cúpula romana.

 

“Escolha de crise”

 

A decomposição do “partido romano” da Igreja afundou outro papabile, o bispo de Milão Angelo Scola, promovido por bispos ianques e alemães. Bergoglio pareceu ter se beneficiado da fúria e do ressentimento sentidos pelos cardeais em relação às rivalidades e lutas internas da Cúria, que tiraram força do tradicionalmente poderoso bloco italiano, quase um quarto dos cardeais, reduzindo as chances do arcebispo de Milão, Angelo Scola, um dos dois favoritos, com Odilio Sherer. Foi, portanto, uma escolha de crise. Havia uma consciência clara de que se operava no limiar do abismo: um teólogo afirmou que diante da crise da cúria vaticana, “os monumentais templos religiosos do continente poderiam se transformar em museus”. O “populismo” bergogliano, posto em prática desde os primeiros instantes de seu mandato, antecipa uma das variantes que poderiam preencher o “vazio de poder” europeu: o bonapartismo, que na Europa sempre foi o pedestal que antecipou o fascismo.

 

Depois de fracassar com um representante alemão, acertado com a política do Bundesbank, os cardeais buscaram o novo papa na finisterrae, numa metáfora da bancarrota da UE, a Europa do capital. Hans Kung, líder intelectual do progressismo católico, depois de dizer que não esperava um Gorbachov no Vaticano, acendeu de cara uma vela para Bergoglio. Não foi o único. Cristina Kirchner esqueceu seus atritos recentes com o inimigo do aborto, dos divorciados e dos gays para correr a saudar o homem da reação argentina no trono de Pedro. Os “teólogos da libertação”, por sua vez, nem esperaram a visita de Francisco ao Brasil. O jornal oligárquico argentino La Nación, na outra ponta do espectro político, deixou claro que, no rubro “pedofilia”, Francisco “nunca se pronunciou”.

 

O cardeal Bergoglio foi assim eleito em 13 de março de 2013, no segundo dia do conclave, escolhendo o nome de Francisco. Sua escolha parece ter sido o resultado de um acordo entre os homens da Cúria, especificamente o decano do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano (que não participou do conclave), os cardeais Giovanni Battista Re e Tarcisio Bertone, e os cardeais norte-americanos. Foi o primeiro jesuíta a ser eleito papa, o primeiro papa do continente americano, do hemisfério Sul, e o primeiro não europeu investido como bispo de Roma em mais de 1.200 anos, desde Gregório III, que nasceu na Síria e governou a Igreja Católica entre 731 e 741. A ordem dos jesuítas esperou quase cinco séculos: ela foi reconhecida pelo Vaticano em 1540, em pleno desenvolvimento das cisões protestante e calvinista (Inácio de Loyola, seu fundador, chegou a coexistir na Universidade de Paris com o próprio Jean Calvin). Tinha sido constituída pouco antes como “ordem guerreira” a serviço do papa e da expansão da fé no Cristo: a Societas Jesu, ou “Ordem de Jesus” (como a chamava seu fundador) se organizou como um exército, comandado por um general vitalício ao qual se devia obediência absoluta; um exército de alcance e abrangência mundial em defesa da Igreja Romana, no período da Contrarreforma.

 

Nota:


1) O Banco do Vaticano (o “banco mais secreto do mundo” como disse a revista Forbes) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período, o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazista, por parte de Pio XII, e de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que assinou com o Vaticano em 1929 o Tratado de Latrão com o Estado italiano. Esse tratado, também conhecido como Concordata, foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália, que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero (só em 1975, houve uma alteração, em que o divórcio foi aprovado). Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicada em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam um valor estimado de meio bilhão de libras esterlinas, embora o valor real permaneça secreto.

 

Leia também:

Bergogliomania e crise (1)

Bergogliomania e crise (2)


Osvaldo Coggiola, historiador e economista, é professor do departamento de História da USP.


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Última atualização em Segunda, 02 de Dezembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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