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Pobre mercenário: por que o Uruguai retira suas tropas do Haiti? Imprimir E-mail
Escrito por Fernando Moyano, de Montevidéu para o Correio da Cidadania   
Qui, 28 de Novembro de 2013
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“Os uruguaios participamos com algo entre 13% e 15% de nossas Forças Armadas nas missões de paz. Por anos e anos, sempre estamos nos lugares que nos designam, mesmo assim onde se decidem e repartem recursos não existimos nem pra servir café”. Presidente uruguaio José Mujica, Assembleia da ONU, 25/09/2013.

 

A participação do Uruguai nas “Missões de Paz” das Nações Unidas, polícia global para manutenção da ordem planetária capitalista, mostra hoje profundas contradições.

 

Na MINUSTAH, contingente militar para a “estabilização do Haiti” que já tem quase 10 anos e do qual Mujica agora anuncia a retirada, a coluna vertebral são os países latino-americanos (que devemos ao povo haitiano o exemplo e impulso social de nossa vida independente).

 

1. Missões de manutenção da ordem imperial capitalista

 

As “missões de paz” começaram como pequenos contingentes (quase sem armas) para preservar e vigiar o cumprimento de acordos prévios de paz ou armistício alcançados por contendores de conflitos bélicos. Tal como o armistício de 1948 entre Israel e os árabes ou o da paz Índia-Paquistão, onde participa pela primeira vez o Uruguai, de 1952 até hoje.

 

Gradualmente, passam a ser pesadas intervenções armadas. A primeira no Congo, com 20 mil homens em 1960, quando aparece a condição de “biombo colonialista”, que denunciou Patrice Lumumba, assassinado dias depois. Essa guerra segue até hoje, cobrando milhões de vidas. A ONU é cúmplice desde o primeiro dia.

 

Uma pequena parte das “missões” são essas forças de vigilância, neutras entre bandos beligerantes.

 

Mas a grande maioria são forças combatentes a favor de um dos bandos (Congo ou Mali, por exemplo), não são neutras nem buscam a paz, mas a dominação.

 

O Haiti é um caso especial. Não há conflito armado e nem houve. Usou-se tal possibilidade como desculpa, e não se viu nada disso em dez anos. É uma intervenção de controle e contenção de um conflito político e social por via militar.

O que essas “missões” buscam não é a paz, mas manter a ordem imperial nos pontos de distúrbio da periferia capitalista.

 

Modelaram sua própria “legitimidade” acomodando o Direito Internacional às circunstâncias. Por exemplo, para ocultar sua responsabilidade na epidemia de cólera no Haiti, a ONU recorre a convênios internacionais de imunidade, feitos para outra coisa.

 

A ONU apressa, assim, o esforço militar superdimensionado das potências imperialistas, em primeiro lugar os EUA, e da legalidade da guerra permanente de manutenção da ordem mundial.

 

O sistema capitalista atravessa hoje uma crise de hegemonia com uma redistribuição conflitiva do poder e a transição até um “imperialismo coletivo”. Para compensar o retrocesso, os ianques tiram vantagem de sua superioridade militar, levando o mundo à beira da guerra em todo momento.

 

Os pontos mais conflitivos são os supostos “Estados falidos” na periferia, onde a exploração chega ao grau de socavar a base do Estado capitalista como dispositivo de controle semi-autônomo. Imposta a ordem, delega-se sua manutenção a países periféricos que têm essa “ordem para exportar”.

 

2. O país biombo

 

A ideia de impossibilidade de existência do Uruguai como nação separada, sua condição de enclave colonial só redimível na integração em um projeto de emancipação continental, vem do mais destacado de nossa tradição intelectual de esquerda (Carlos Quijano, Roberto Ares Pons, Carlos Real de Azúa etc.) e é parte de nossa cultura de massas.

 

Mas entre os porta-vozes políticos e intelectuais da classe dominante reina um chauvinismo provinciano. A “identidade nacional” é uma ilusão de nacionalismo que encobre a colonização ideológica e cultural.

 

A derrota do projeto de Artigas deixa um país vulnerável em que se estabelece um Estado, mas não uma nação. A debilidade relativa da classe dominante frente a seus vizinhos a faz se inclinar aos centros imperiais da vez, para enterrar toda resistência regional, ainda que sejam simples barganhas dentro da ordem capitalista. Quanto mais pró-imperialista é uma corrente política, mais “nacionalista” é o seu discurso.

 

O uruguaio é o mais disciplinado vassalo, isso segue sendo “politicamente correto” para o governo atual, em especial para o setor “astorista” (ligado ao vice-presidente Danilo Astori).

 

Antes do deslocamento do imperialismo britânico, o Uruguai semi-colônia inglesa era fonte de matérias-primas para a metrópole industrial. Porém, os EUA se provêm dos mesmos produtos que o Uruguai exporta. A importância do Uruguai semi-colônia ianque é mais como “provedor de política”, porque não tem muito mais para vender de diferente, em relação ao que vendem os outros da região.

 

O envoltório democrático e ilustrado do Uruguai serve à política pró-imperialista subjacente, sob esse pseudo-nacionalismo. E quando deve incluir colaboração militar, aparece a participação em “missões de paz”.

 

Porém, essa condição estratégica não explica o peso desproporcional da participação.

 

3. A reciclagem do aparato militar

 

O desproporcional aparato militar uruguaio aparece com o batllismo como dissuasão aos meios rurais inconformados, depois frente à crescente inquietude operária no país que se modernizava. E complementa o colchão amortecedor absorvendo parte da pobreza rural. Isso acompanha sua inutilidade para a defesa territorial: serve pra outra coisa.

 

Quando da saída das ditaduras militares no continente, os governos burgueses liberais tiveram de assumir a reciclagem dos aparatos militares. Diminuí-los drasticamente não era opção para as classes dominantes, e as reestruturações inevitáveis despertavam resistências perigosas. A internacionalização militar parcial foi uma solução de compromisso em todo o continente.

 

A dimensão do problema do Uruguai expandiu também essa solução de compromisso. A reciclagem do aparato armado pela transnacionalização, compartilhando o recurso entre dois clientes (Estado e ONU), custos, manutenção, formação etc., é uma novidade dos últimos tempos.

 

Envolve 40% do pessoal, contando a preparação de coberturas, a recuperação dos que voltam e a logística; e mais ainda em recursos materiais, compra de armamentos e equipes.

 

Isso já mostra a inutilidade assumida do aparato armado na defesa territorial. Que país preocupado com sua defesa comprometeria a metade de sua força, tornando-a indisponível no curto prazo, dependente de estruturas e mandatos estrangeiros, inclusive para os salários de seus soldados?

 

Pensemos como é complicado para a seleção uruguaia de futebol repatriar jogadores espalhados pelo mundo quando são necessários em torneios internacionais.

 

Isso não tem nada de defesa. É um serviço político que o Estado presta ao sistema de dominação mundial.

 

4. A esquerda no governo

 

Para chegar ao governo, a Frente Ampla (FA) teve de pactuar com os militares a manutenção da impunidade dos crimes da ditadura, e outros temas.

 

O Haiti estava no pacote. Ficou demonstrado pela “síndrome da mão estranha” (“do dr. Strangelove”), a “mão de gesso” (voto parlamentar forçado por disciplina), em 2005, ao se aprovar o envio de tropas ao Haiti.  Foi assim que a Frente, agora no governo, deu um giro de em 180 graus em relação ao que sustentara meses antes na oposição, provocando a renúncia do deputado Guillermo Chiffet, que se negou a votar. Foi a política militar que ditou a política internacional, o “braço” comandou a “cabeça”.

 

O governo da FA não pode prescindir do aparato militar porque é o depósito caução do aluguel que deve cobrir como arrendatário (e recém-chegado) do lugar que ocupa, propriedade da classe dominante. Mujica disse isso expressamente: “Qual a última garantia de uma sociedade? Que seus corpos armados, nos grandes momentos de tensão, cuidem e respeitem”. Audição radiofônica, 14/4/2010.

 

O governo de Mujica deu grande importância à política e ao aparato armado, multiplicando os compromissos. Gerou, assim, a possibilidade de “exigir contrapartidas” que outros governos burgueses não tiveram.

 

Uma vez comprometida essa onerosa garantia, deve-se mantê-la e amortizá-la. Fazê-la render em um negócio secundário, financiar compras e adestramento, obter retorno político por um serviço e abonos para oficiais e tropas era a ideia. Mas o negócio não deu muito certo.

 

5. A retirada do Haiti

 

A retirada uruguaia do Haiti se deve, antes de tudo, à luta do povo haitiano. Entra em crise a intervenção no Haiti, antes que em outros localidades.

 

A formação social haitiana é mais moderna que outras comunidades agredidas, como os países africanos. Sua revolução de escravos marca toda sua história. Tem vínculos estreitos com os países mais desenvolvidos que o rodeiam, e em especial com Cuba, desde sempre. E tem dois séculos de vida política independente. Tudo isso faz que o “espelho haitiano” reflita para os dois lados, a América Latina se vê no Haiti e o Haiti na América Latina.

 

Mas por que o Uruguai vai embora antes?

 

A ideia de sair do “Estado biombo” para o “Estado ponte” não ocorreu a Mujica, é tomada (de ponta-cabeça) da mesma tradição intelectual que retomamos aqui. As invariantes estruturais que fazem a política mercenária criam seus limites.

 

A pesada implicação do aparato militar nas “missões” traz um acelerado desgaste: os custos são cada vez maiores e os lucros menores. O “prestígio internacional” resultou em enorme desprestígio pelos vícios militares agravados por sua condição muito mais parasitária. O Uruguai ficou exposto na vitrine haitiana.

 

E há a resistência do povo uruguaio, que não sendo intensa e aberta como no Haiti, é “fonte de inspiração” das dissidências no aparato da Frente Ampla.

 

Uma vez assumida, a retirada deve ser feita por Mujica, abrindo campo para o próximo governo de Tabaré. Depois, seria mais difícil porque é ele quem pode controlar as tensões com o aparato militar. E, frustrado em suas outras iniciativas, precisa sair com algum triunfo de esquerda.

 

O subsecretário de Defesa diz agora que existem “coisas mais importantes que a economia... ou a satisfação salarial... uma Missão de Paz”. Indo à guerra com objetivos tão mesquinhos como foram – a negativa cínica é admitida tacitamente, se não o assunto nem seria mencionado –, não se poderia esperar outro resultado.

 

A saída do Haiti é uma medida de prudência, antes que sobrevenham males maiores. Um recuo imposto pelo setor mais lúcido da burocracia frenteamplista, vencendo resistências internas.

 

6. O sub-império e seu porta-voz

 

O projeto sub-imperial do Brasil também é de longa data. A participação de países latino-americanos sob seu comando é uma tentativa de organizar a ordem imperial recorrendo ao sub-império, e busca disfarçar a ocupação como “ajuda”, ao delegar a manutenção da ordem a países mais parecidos com o ocupado. Torna possível uma continuidade e instala uma hierarquia que atenua a contradição do centro com sua periferia próxima, sendo mediadora com o resto.

 

É parte da reorganização geral do império, e sua crise mostra o desenvolvimento de tais contradições. Os sub-impérios sempre foram estratégia dos impérios, mas também fonte de problemas.

 

O Brasil “foi lá atrás de lã e de lá voltou esfarrapado”. Em vez de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, colhe espionagem.

 

Essa dinâmica parece o “bipartidarismo imperialista” de alternância de potências na periferia (Europa/EUA). No Haiti, foi montado o modelo; quando afloraram as contradições, os EUA impuseram a dedo o títere Matelly. Mas seu governo foi desastroso, outro indicador da decadência dos EUA. Agora, o Brasil paga a fatura.

 

Atuar como porta-voz do mal-estar do Brasil é também expressão da condição uruguaia de Estado-biombo-cunha-ponte.

 

O chanceler uruguaio Luis Almagro negocia com a ONU a retirada de tropas alegando que o governo de Matelly está dando um “autogolpe” ao não convocar eleições para renovar o Senado. E, sem garantias democráticas, o Uruguai se retirará da MINUSTAH. Os EUA, em compensação, conclamam o “respeito ao governo eleito”.

 

Além do mais, ao seguir interferindo na política haitiana, ambas as posições padecem do mesmo. E em 2004, no governo eleito de Aristide, onde esteve essa preocupação com a democracia? A diferença é que, agora, Almagro reconhece o fracasso da intervenção de dez anos.

 

Para além de alguns fios desencapados, a retirada das tropas uruguaias do Haiti é um fato.

 

Agora aparece a preocupação em encontrar outros destinos às tropas, apagando com o cotovelo a ideia de que não importa o dinheiro. E fica confirmado que a política mercenária responde causas estruturais. Os problemas que agora se analisam voltarão.

 

Fernando Moyano, uruguaio, é membro da revista marxista Alfaguara; fundador da "Coordinadora por el retiro de tropas de Haití".

 

Traduzido por Gabriel Brito, Correio da Cidadania.

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Última atualização em Sexta, 06 de Dezembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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