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Líbia implodiu a democracia criada com a “guerra humanitária” da OTAN Imprimir E-mail
Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   
Quarta, 27 de Novembro de 2013
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A mídia europeia e a estadunidense se aproveitaram do final positivo das negociações entre os EUA e o Irã sobre a normalização do uso de urânio nas centrais nucleares iranianas, para reconstruir o “glamour” político do presidente Barack Obama. De fato, nos últimos seis meses, a imagem política de Obama caiu bastante, em função dos erros de avaliação política cometidos no Oriente Médio, primeiro por Hillary Clinton e depois à causa das péssimas opções geoestratégicas adotadas por John Kerry na Síria, no Afeganistão e, em particular, na Líbia, onde o primeiro-ministro, Ali Zidan, além de enfrentar, com poucos resultados, uma dificílima situação econômica, agora deve resolver dois complicados problemas institucionais.

 

Primeiro com Fezzan, que requer mais autonomia administrativa do governo de Trípoli, e, em segundo lugar, com a Cirenaica, que já anunciou a ruptura política e institucional, exigindo a criação de um Estado federal para legitimar seu governo formado com 26 ministros e, consequentemente, negociar a venda do petróleo e do gás extraído na Cirenaica, sem a intermediação dos burocratas de Trípoli.

 

Em poucas palavras, um desastre para a geoestratégia da Casa Branca que, no lugar de antecipar os eventos, agora é, praticamente, obrigada a correr atrás deles para evitar o pior. Por exemplo, no Egito, os EUA sustentaram Mubarak até o fim, desatendendo ao que estava acontecendo na Praça Tahrir. Depois, cederam às pressões da Arábia Saudita e do Qatar e apoiaram a Irmandade Muçulmana, legitimando a eleição fajuta de Mohamed Morsi como presidente. Quando os militares intervieram para evitar a bancarrota e a islamização do Egito, aprisionando o presidente Morsi e toda a direção da Irmandade Muçulmana, a Casa Branca ficou muda. Depois, fixou uma temporária suspensão para os financiamentos ao exército egípcio (1,6 US$ bilhão) e, quando ficou evidente que a Arábia Saudita apoiava os golpistas, John Kerry foi ao Cairo e normalizou as relações, como se nada tivesse acontecido!

 

É evidente que a ziguezagueante atuação da Casa Branca estimulou no Oriente Médio diferentes reações. Por exemplo, em Israel, o governo sionista liderado por Benjamin Netanyahu se aproveitou para realizar a construção de 1500 apartamentos na parte palestina de Jerusalém, para depois querer extrapolar com a construção de mais 24.000 apartamentos na Cisjordânia, provocando a dura reação de Abu Mazen da ANP, que ameaçou abandonar a mesa das negociações. Diante disso, Obama fez a voz grossa com “Bibi”, que prometeu parar os projetos de colonização apenas na Cisjordânia.

 

No mundo islâmico Obama é cada vez mais desacreditado e desconceituado por ser vítima do que poderíamos chamar a “síndrome dos Clinton”, isto é: o conjunto de características diplomáticas e militares ou de sinais geopolíticos associados a uma condição política crítica, suscetíveis de despertar reações de temor e insegurança.

 

Elementos que se enquadram perfeitamente na difícil e trágica evolução da conjuntura política da Líbia, visto que:

 

1) O presidente Barack Obama pediu, em setembro, ao primeiro ministro italiano Enrico Letta: “...considerar a necessidade de a Itália se manter pronta a intervir na Líbia e garantir a estabilidade no aproveitamento dos recursos  energéticos (petróleo e gás), além de colaborar na reconstrução do exército, da polícia e da estrutura  administrativa...”. Um pedido que nunca será atendido pelo governo italiano, que não quer repetir o fracasso da intervenção na Somália, visto que as milícias mobilizam 230.000 homens armados, dos quais 150.000 em Trípoli.

 

2) No passado dia 10 de outubro, o primeiro-ministro Ali Zidan foi sequestrado por uma milícia ligada ao Ministério de Interior para obter dele uma “demissão voluntária”. Algo que não aconteceu porque intervieram os homens da milícia de Misratah, que o próprio primeiro-ministro havia contatado com uma “doação” de um milhão de dólares.

 

3) Em 13 de novembro, vários deputados promoveram uma greve e diversas manifestações em Trípoli, aparentemente organizadas para denunciar a violência das milícias. Na verdade, no dia 15, os manifestantes tentaram atacar o prédio onde estavam aquartelados os milicianos de Misratah, aqueles que haviam salvado o primeiro-ministro. Vendo-se cercados, os milicianos reagiram com selvageria, matando 67 pessoas e ferindo mais de 500 manifestantes. A seguir, o “Conselho dos Sábios” de Misratah ordenou a saída da milícia de Trípoli juntamente com todos os deputados de Mesurada.

 

4) No dia 23, cinco dias após a proclamação da “autonomia política e econômica” da Cirenaica, o governador militar de Bengazhi, Abdullah Al-Saiti, declarou o “estado de sítio” para reagir aos ataques dos milicianos da Ansar Al Sharia (fundamentalistas islâmicos salafitas). Por isso, o primeiro-ministro Ali Zidan foi logo nos EUA para pedir uma possível intervenção dos EUA e da OTAN, obtendo apenas promessas e condenações verbais dos separatistas.

 

O Pentágono não quer deslocar tropas na Líbia

 

Os generais do Pentágono descobriram que, na Líbia, os EUA estão repetindo o mesmo erro que o governo Bush cometeu no Afeganistão com os Taleban e Osama Bin Laden. Quer dizer: os emissários de Hillary Clinton usaram muita leviandade e dólares para cooptar as lideranças dos grupos do fundamentalismo islâmico (jihadistas, salafitas, irmandade muçulmana  e outro radicais sunitas) para mover uma “guerra santa” contra Kadafi e seu exército.

 

Um conflito onde as múltiplas operações realizadas pelos caças-bombardeiros dos países da OTAN, o uso maciço dos foguetes lançados dos navios da VI Frota para destruir as infraestruturas civis e militares e as missões secretas dos grupos especiais britânicos, franceses, catares e sauditas caracterizaram a dinâmica dessa “guerra humanitária”. Por sua parte, o “exército rebelde”, após a eliminação dos últimos núcleos de resistência do exército de Kadafi, se fragmentou, dando vida a um conflito de baixa intensidade, onde as milícias lutam entre elas pelo controle do poder.

 

A presença das milícias no cenário político da Líbia, na realidade, se tornou preponderante em função da manipulação planejada e realizada pelos agentes dos serviços secretos da Arábia Saudita e do Catar, bem como pelos representantes das diferentes facetas do universo fundamentalista (muffits sunitas, Irmandade Muçulmana, Al Qaeda, jihadistas, defensores da sharia, salafitas etc.). Um universo político que se associou aos velhos líderes das 140 tribos (também divididas em clãs familiares), se ligou aos chefes dos grupos étnicos (Cabili e Berberes) e garantiu a representatividade dos líderes dos Conselhos de Sábios de cada província e dos comitês urbanos.

 

Nesse confuso cenário institucional, onde a política se mistura com o islamismo, o nacionalismo é sufocado pelo fundamentalismo e as conquistas da revolução foram logo silenciadas com a possível imposição das leis da Sharia, houve também a participação das multinacionais europeias e dos serviços secretos dos países da OTAN, para sustentar a formação de uma “frente liberal”, sob a direção de Mahmoud Jibril, Mohamed Megarief e do próprio Ali Zidan. Contrariando todas as expectativas políticas, a Frente Liberal, criada na última hora e sem grandes pretensões políticas, inesperadamente conseguiu derrotar os partidos islâmicos na primeira eleição livre realizada em 2012, após a queda de Kadafi.

 

Esse fato não foi minimamente avaliado pela então Secretária de Estado, Hillary Clinton, que, no pico de sua desdenhosa arrogância, nomeou Christophens Stevens, “embaixador de paz” com a função específica de monitorar a frente liberal, com vistas a promover uma rápida e dinâmica ocidentalização da nova democracia líbia. Um processo que, no campo econômico, deveria promover a “privatização” da  NOC-Libia (National Oil Corporation Líbia) e assim entregar às transnacionais 85% do patrimônio da indústria dos hidrocarbonetos da Líbia.

 

Um projeto que despertou o ódio das lideranças separatistas da Cirenaica, que decidiram bloquear o plano dos EUA, fazendo assassinar o embaixador Christophens Stevens pelos homens da milícia jihadista “Ansar Al Sharia”, quando o mesmo se deslocava em Bengazhi no simbólico dia de 11 de setembro de 2012. Pois, desta maneira, todo os jornais e as televisões penalizaram os jihadistas de Bengazhi!

 

Estado Federativo?

 

Se o governo do primeiro-ministro Ali Zidan quer evitar a explosão de uma incontrolável guerra civil deve, desde já, negociar a principal reivindicação do governo do novo estado de Barga (Cirenaica), cujo primeiro-ministro, Abd-Rabbo al-Barassi exige da Assembleia Nacional de Trípoli a aprovação de uma lei que transforma a Líbia em um Estado federal formado por três estados nacionais: Tripolitânia, Fezzan e Barga (Cirenaica).

 

A seguir, Ali Zeidan deve, também, negociar com Ibrahim Al Jathran, líder da milícia Hamza, que ocupou militarmente os portos petrolíferos e as refinarias de Es Sider, Brega e Ras Lanuf , e mantém sob seu controle a “Petroleum Facilities Guard”, que é a empresa de segurança que controla os portos, os oleodutos, os gasodutos, as refinarias e as áreas de estocagem localizadas ao longo da costa da Cirenaica. Ibrahim Al Jathran exige do governo de Trípoli que a venda do petróleo e do gás da Cirenaica seja feita por uma nova empresa pública controlada pelo governo da Cirenaica, chamada “Libia Oil and Gas Corp”. Segundo Ibrahim, a nova empresa vai repassar aos governos de Trípoli e do Fezzan dois quartos dos valores faturados com a vendas dos hidrocarbonetos da Cirenaica.

 

Uma condição que coloca o governo de Trípoli no limite da bancarrota, criando as condições objetivas para a implosão da guerra civil. Porém, para fazer a guerra aos separatistas, o governo de Trípoli precisa de ter um exército preparado para isso. Um problema que o primeiro-ministro Ali Zidan deve resolver o mais rápido possível, visto que em Trípoli o Ministério da Defesa recorre “aos serviços” de 20.000 milicianos, enquanto espera que da Jordânia voltem os soldados formados pelos “conselheiros” da OTAN.

 

Uma situação anacrônica, onde Ali Zidan nem sequer pode bater os punhos na mesa das negociações, porque o governo de Trípoli ainda não planejou a formação de um “exército nacional”, capaz de desarmar os 430 grupos armados que se consolidaram sob forma de milícias populares, mobilizando 230.000 homens, regularmente armados e com os salários em dia. Pois a primeira lei que os seis ministros do partido da Irmandade Muçulmana impuseram ao governo “democrático” de Ali Zidan foi o “financiamento das atividades das milícias populares com 900 milhões de US$”.

 

Uma lei que na realidade inviabilizou a formação de um exército regular, por dois motivos: falta de fundos e de voluntários, visto que a maioria do jovens continua alistada nas milícias. Por outro lado, os seis ministros e os deputados da Irmandade Muçulmana, bem orientados por assessores sauditas, conseguiram desarticular todos os projetos de reorganização da administração, da polícia e sobretudo do exército, fazendo votar a lei do “isolamento político”, em base à qual quem trabalhou ou apoiou o regime de Kadafi não pode exercer nenhum tipo de chefia, cargo de responsabilidade e tampouco ser oficial do exército nacional. Uma lei que penalizou milhares de funcionários públicos e de militares que lutaram contra o exército de Kadafi. Tanto que Mohamed Megarief, antigo embaixador líbio na Índia até 1986 e depois fundador da Frente de Salvação Nacional da Líbia, foi obrigado a se demitir do cargo de presidente da Assembleia Nacional em função da nova lei.

 

Porém, esse cenário político se torna complexo também para os separatistas da Cirenaica, do momento em que dos 6,1 milhões de líbios quase 3,5 milhões ficam concentrados na Tripolitania e mais da metade de 1,6 milhão de trabalhadores emigrantes – que, com a guerra, perderam o trabalho e suas poupanças -, permanecem acampados nos arredores de Trípoli. Enfim, como irá reagir esse povo quando o governo de Trípoli não puder pagar os salários e as importações dos alimentos?

 

 

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania"

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Última atualização em Quarta, 04 de Dezembro de 2013
 

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