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Franz Kafka: crítico do poder, da burocracia e da reificação
Escrito por Demetrio Cherobini   
Segunda, 25 de Novembro de 2013
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A literatura pode ser meio de compreensão e de crítica radical da realidade que nos rodeia. É o que atesta o excelente livro de Michael Löwy, Franz Kafka: sonhador insubmisso, que analisa aspectos importantes do pensamento e da obra do grande escritor tcheco e universal.

 

Löwy procede, desde o início, a uma abordagem ousada: busca compreender as formas dos romances escritos por Kafka em conexão com a visão de mundo significativa do autor, forjada na sua vivência diária, na interiorização das relações estabelecidas com a realidade circundante, no seu distanciamento crítico e na afinidade com certos grupos humanos, sempre situados na posição de párias ou de submetidos às engrenagens massacrantes dos poderes estabelecidos.

 

Interessa ao sociólogo brasileiro, sobretudo, desvendar como alguns dos inúmeros conflitos sociais e humanos se sedimentam, mimeticamente, em construções literárias, por meio da escrita de Kafka. Nesse percurso, Löwy demonstra com maestria “a paixão antiautoritária que atravessa como uma corrente elétrica” as obras do escritor tcheco (p. 12).

 

São escrutinados, nesse movimento, tanto os escritos do autor quanto seu contexto histórico-político. Através do estudo de textos literários, historiográficos, cartas, diários, ensaios críticos, relatos de amigos e biografias escritas por companheiros muito próximos, Löwy reconstrói os elementos determinantes da composição das lentes pelas quais Kafka via e se apropriava do mundo.

 

Descobre aí elementos significativos, entre outros: a simpatia pelo movimento socialista libertário (anarquista), com o qual o escritor manteve contato durante alguns anos – e que, ao que tudo indica, deixou marcas indeléveis na sua subjetividade: “sua visão do capitalismo como sistema hierarquizado de dominação aproxima-se do anarquismo, por sua insistência no caráter autoritário do sistema” (p. 28); os conflitos que Kafka sempre manteve com o pai, rico comerciante, caracterizado por ele como “tirano” e “autocrata”, e cujo ferrenho autoritarismo serviu para despertar no jovem escritor uma afinidade espontânea com os “de baixo”, a ponto de se sentir pertencente àquilo que denominou de “o partido dos empregados” (p. 63) (1); o judaísmo, que lhe deu a consciência de como certos indivíduos podem ser isolados e desprezados – ou meramente tolerados – pelos grandes grupos sociais humanos, e que em Kafka se converteu num tipo de religiosidade sui generis, não fixada a símbolos exteriores, e sim cristalizada numa disposição interior baseada na recusa do mundo e que toma a liberdade como fim supremo (2).alt

 

Essas experiências estão na base da formação da sensibilidade do autor tcheco. Ao longo de sua vida, vincularam-se às características da forma de seus romances, nos quais se destacam, frequentemente, “atitudes arbitrárias sem justificação alguma (moral, racional, humana); exigências desmesuradas e absurdas com relação ao herói-vítima; injustiça (a culpabilidade é, falsamente, considerada evidente, patente, indubitável); punição totalmente desproporcional ao ‘erro’ (inexistente ou trivial)” (p. 73), entre outras. Tais elementos são costurados na narrativa de Kafka de modo que o produto de sua composição se apresente como crítica impiedosa de uma sociedade comandada pela lógica da reificação e submissa às estruturas hierárquicas e burocráticas de poder.

 

Mas não se trata aqui de fazer com que a literatura se rebaixe à posição de mera serva de uma ideologia ou de uma doutrina qualquer, e sim de negar radicalmente esta realidade brutal em que nos encontramos com o arsenal que lhe é próprio: “a ironia, o humor, esse humor negro que, segundo André Breton, é ‘uma revolta superior do espírito’” (p. 57) – e que, segundo Löwy, permitiram ao autor de O processo “explodir o cânone da literatura realista” (p. 195).

 

Junto com o cânone da literatura realista, também voam pelos ares a presumida respeitabilidade impessoal em que se arvoram as burocracias, a aura mística de sacralidade em que se envolvem os diversos tipos de hierarquias sociais e políticas, o pretenso sentido que reveste e justifica a submissão voluntária das pessoas às múltiplas estruturas de poder existentes. Numa palavra: algo de muito inerente e central pertencente ao atual modo com que produzimos e reproduzimos nossa vida em sociedade.

 

Vemos, assim, que, desvinculado de qualquer organização e sem nenhum registro partidário, Kafka permanece ainda um militante, mesmo que de uma estranha e solitária forma de militância: aquela que, no campo da literatura, permanece vigilante e sonhadora, porque radicalmente insubmissa em relação às determinações autoritárias do mundo circundante.

 

Os construtores de um mundo novo, no futuro, saberão acolher e ser generosos com uma literatura feita nesses moldes? (3)

 

Notas:

 

1. Investigando a vida de Kafka, Löwy ressalta a semelhança de forma entre o “poder sem limites” do pai e a “tirania do sistema político”, que, aos olhos do escritor, eram homólogos, e que desencadearam efeitos profundos em sua subjetividade: “como observa tão bem Elias Canetti, ‘Kafka colocou-se desde a origem do lado dos humilhados, (...) ele é tomado de aversão por tudo aquilo que se ergue sobre o pedestal do poder’” (p. 64).

 

2. Como assegura Löwy: “a religiosidade de Kafka manifesta-se menos por um sistema elaborado e oculto de figuras simbólicas do que por uma certa Stimmung, uma atmosfera espiritual, um sentimento do mundo e da condição humana moderna” (p. 158).

 

3. A questão é pertinente. Um caso curioso e perturbador – e kafkiano, talvez -, para os que se posicionam politicamente a favor de uma humanidade emancipada, respalda essa asserção: Kafka, autor cujas possibilidades criativas atestam tremendo potencial crítico em relação aos detentores do poder e da ordem, foi condenado e severamente adjetivado por intelectuais pertencentes ao campo... dos antigos países socialistas. Löwy cita o exemplo de Klaus Hermsdorf, um autor “oficial” da RDA (Alemanha Oriental), que, mesmo reconhecendo a importância da crítica da burocracia inerente aos escritos de Kafka, acusou-o de “subjetivismo pequeno-burguês”. Já o grande György Lukács, com mais requinte, afirmou que, para Kafka, “o mundo é concebido como alegoria de um Nada transcendente...” (p. 189).

 

Ficha técnica

Título: Franz Kafka: sonhador insubmisso

Autor: Michel Löwy

Editora: Azougue Editorial

Ano: 2005

Páginas: 207

 

Demetrio Cherobini é cientista social, doutorando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina.

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Última atualização em Terça, 26 de Novembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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