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Bergogliomania e crise (1) Imprimir E-mail
Escrito por Osvaldo Coggiola   
Qui, 14 de Novembro de 2013
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Ditadura na Argentina e os desaparecimentos forçados

 

Em março de 1976, quando da instauração na Argentina de uma das mais sangrentas ditaduras militares da América Latina, Jorge Mario Bergoglio ainda não havia cumprido 40 anos, mas já era “Provincial” (chefe) da Ordem dos Jesuítas no país. Nenhuma fotografia dos anos sucessivos testemunha diretamente qualquer proximidade entre ele e a Junta Militar, diversamente das que evidenciam a enorme proximidade entre a alta hierarquia católica (à qual Bergoglio ainda não pertencia) e o time de assassinos profissionais governante. Bergoglio, porém, longe esteve de se opor à linha seguida pela Igreja de Roma (não só na Argentina, mas em toda a América do Sul atingida por regimes contrarrevolucionários ferozes). O “processo” militar argentino se autojustificou na necessidade da eliminação da “corrupção” (peronista) e da “subversão” (armada), ou seja, da guerrilha. O conceito desta última foi ampliado até atingir toda atividade político-social: expor opiniões, reivindicar, escrever, falar, ler, até pensar (sic). Semelhante noção não poderia se apoiar em nenhum “direito”: inventou-se então uma “guerra (nacional) anti-subversiva”. Os ideólogos da ditadura chegaram a afirmar que a Terceira Guerra Mundial (contra o comunismo) já começara na Argentina, na forma de uma “guerra suja” (conceito inventado pelos torturadores franceses na guerra da Argélia). A consequência dessa mistificação (não havia nenhuma guerra civil na Argentina, a guerrilha de esquerda era localizada, e já estava militarmente derrotada em 1976) foi a forma ilegal e horrorosa que tomou a repressão: as “desaparições forçadas de pessoas”, que atingiram mais de 30 mil vítimas.

 

As “desaparições”, que eram parte de um plano de total extermínio físico, atingiram guerrilheiros, políticos, estudantes, escritores, dirigentes e ativistas sindicais, e até membros do próprio governo militar, como o seu embaixador na Venezuela (o político da UCR, Hidalgo Solá) ou empresários como Fernando Branca, assassinado pelo seu sócio Emílio Eduardo Massera (membro da Junta), pois o “método” engoliu seus executantes, que passaram a usá-lo entre eles. Massera comandou o centro de detenção clandestino da Marinha em Buenos Aires, situado na ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada). Por esse local passaram mais de cinco mil detidos - desaparecidos, dos quais menos de uma centena sobreviveu.

 

Massera foi julgado e condenado à prisão perpétua em 1985, sendo depois indultado pelo governo de Carlos Menem, na década de 1990. Em depoimento feito a um jornalista em 2011, o ditador Jorge Rafael Videla foi explícito quanto ao método e objetivo das “desaparições”. Estas visavam: 1. A detenção ou o sequestro de milhares de “líderes sociais” e “subversivos”, seguindo listas elaboradas entre janeiro e fevereiro de 1976, antes do golpe, com a colaboração de empresários, sindicalistas, professores e dirigentes políticos e estudantis; 2. Os “interrogatórios” (eufemismo que encobre torturas indescritíveis) em lugares secretos ou centros clandestinos; 3. A morte dos detidos considerados “irrecuperáveis”, geralmente decidida em reuniões específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas nas quais foi dividido o país; 4. A desaparição dos corpos, que eram jogados no mar, em rios, arroios ou canais; ou ainda enterrados em lugares secretos, ou queimados em um forno ou em uma pilha de pneus de automóveis.

 

Disse Videla: “Eram sete ou oito mil as pessoas que deviam morrer para ganhar a guerra contra a subversão; não podíamos fuzilá-las. Também não podíamos levá-las à Justiça”, admitindo sua condição de carrasco de uma geração de lutadores. Como admitir, justificar, abertamente esse papel, perante si próprio e o mundo?

 

Assassinar como Missão de Deus e a Igreja Católica

 

É exatamente aí que entrava um componente essencial da ideologia da ditadura: a suposta “missão de Deus” que estavam cumprindo (“Os assassinos de Deus”, chamou-os a pesquisadora canadense Patricia Marchak), com aprovação de seu representante oficial na Argentina: a Igreja Católica. Diante da pergunta de por que os chefes militares haviam chegado à conclusão de que não podiam levar os detidos diante da Justiça, Videla respondeu: “Também não podíamos fuzilá-los [legalmente]. Como íamos fuzilar toda essa gente?

 

A justiça espanhola condenou à morte três integrantes do ETA, uma decisão que Franco avalizou apesar dos protestos de boa parte do mundo: só pôde executar o primeiro, apesar de ser Franco. Também existia o temor pela reação mundial que a repressão de Pinochet no Chile havia provocado” (em 1973). Para Videla, “não havia outra solução. Estávamos de acordo em que era o preço a pagar para ganhar a guerra e necessitávamos que não fosse evidente para que a sociedade não percebesse. Por isso, para não provocar protestos dentro e fora do país, durante o transcurso dos fatos, se chegou à decisão de que essas pessoas desapareceriam; cada desaparição pode ser entendida, certamente, como a maquiagem ou a dissimulação de uma morte”. Boa parte de juventude e da classe trabalhadora militante argentina foi fisicamente eliminada, ou condenada a uma fuga que para muitos nunca teve fim.

 

Juan Gelman, poeta, pai e avó de desaparecidos, comentou: “Essa entrevista com Videla, na qual ele confessa que matou oito mil, permite-me descobrir nele uma qualidade que desconhecia: a modéstia. Porque, na verdade, foram mais de 30 mil. Videla se expressa como quem encabeçou o golpe militar, mas, para analisar os golpes, necessitamos levar em conta primeiro que eles sempre tiveram respaldo civil; segundo, que houve partidos políticos que os incitaram; e, terceiro, que os golpes foram movidos por interesses muito concretos e importantes. Faltou dizer, por exemplo, quantos campos de concentração existiram, o que ocorreu dentro deles e qual foi o destino dos desaparecidos. Videla tampouco disse onde estão os arquivos. Enfim, há uma quantidade de perguntas que os familiares dos desaparecidos se fazem e sobre as quais ele não falou”.

 

Em 1984, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) informou ao governo do presidente Raúl Alfonsín que, durante a ditadura militar argentina (1976-1983), haviam desaparecido 8.961 cidadãos, daí a cifra dada por Videla, que justificou religiosamente o uso da tortura (“Deus sabe o que faz, porque o faz e para quê. Aceito a vontade de Deus e acredito que Deus nunca soltou a minha mão”: os ditadores achavam mesmo que estavam cumprindo uma missão divina, no que era visível a mão da Igreja Católica) e destacou o papel da “doutrina francesa na luta contra guerrilhas” em seu governo.

 

Movimento operário era alvo certo

 

A tortura e a morte tinham alvo certo: os primeiros levantamentos da Anistia Internacional, realizados já em fins de 1976, comprovaram que a porcentagem maior de vítimas achava-se no movimento operário, em especial seus setores de vanguarda (delegados de base, ativistas classistas). Esse foi o modo de eliminar a chamada “guerrilha fabril” (o ativismo operário classista) denunciada pouco antes do golpe militar pelo “democrata” Ricardo Balbín (líder da União Cívica Radical, UCR). Era um movimento de extrema reação política do conjunto da burguesia argentina, por intermédio dos militares, contra a perspectiva da revolução social.

 

O terrorismo anticomunista peronista que o precedeu (a célebre AAA, ou Tríplice A, Aliança Anticomunista Argentina, organizada pessoalmente por Perón e seu ministro-secretário López Rega, atuante desde finais de 1973) foi integrado, incrementado, no terrorismo militar, estabelecendo-se uma continuidade essencial entre os dois regimes. Os militares chamaram de “guerra suja” os seus procedimentos, reconhecendo a natureza do seu comportamento. O termo “terrorismo de Estado”, adotado depois, ocultou o essencial: um massacre metodicamente planejado e executado pelas Forças Armadas (tal como o reconheceu a “Comissão Sábato”, criada pelo governo Alfonsín em 1984).

 

Seu cúmplice na tarefa mortífera foi a Igreja Católica, que na Argentina sempre foi um bastião da oligarquia dominante, a ponto de Perón ter sido excomungado no seu primeiro governo (1946-1955) e os tanques do golpe de 1955 terem sido pintados com cruzes e a frase “Cristo vence!”.  Na Argentina o catolicismo ainda é religião oficial e o Estado paga os salários do clero com o dinheiro público. Até recentemente, a principal cerimônia de comemoração da independência nacional era uma missa na catedral. Encarregada em 1976 pelos militares do ministério da educação, com Ricardo Bruera, a Igreja promoveu o pior processo educacional obscurantista já conhecido na Argentina (a teoria dos conjuntos, por exemplo, foi banida do ensino escolar da matemática, por partir de um “princípio comunista”). Monsenhor Plaza (arcebispo de La Plata) distribuía crucifixos nos campos de extermínio (onde os detidos sofriam as piores torturas antes de serem mortos), enquanto Monsenhor Bonamin (capelão do Exército) benzia os “grupos de tarefa” encarregados de sequestrar, torturar e matar; não faltando os que, como o padre e capelão militar Christian Von Wernich, hoje condenado pela justiça, montaram um lucrativo comércio de venda de informações (falsas) aos desesperados parentes dos desaparecidos.

 

Trinta e cinco anos depois dos fatos, o cardeal argentino Primatesta referiu-se a uma carta de “Emilio Mignone, padre de la detenida-desaparecida Mónica Candelaria Mignone, y una de las más altas personalidades laicas del catolicismo argentino. Mignone había sido ministro de Educación en la provincia de Buenos Aires en la década de 1940 y viceministro de Educación nacional en la de 1960. El fundador del CELS [Mignone] le escribió a Primatesta que el sistema del secuestro, el robo, la tortura y el asesinato, agravado con la negativa a entregar los cadáveres a los deudos, su eliminación por medio de la cremación o arrojándolos al mar o a los ríos o su sepultura anónima en fosas comunes, se realizaba en nombre de la salvación de la ‘civilización cristiana’, la salvaguardia de la Iglesia Católica. Agregó que la desesperación y el odio iban ganando muchos corazones”.

 

A um jornalista espanhol, Videla disse: “Mi relación con la Iglesia Católica fue excelente, muy cordial, sincera y abierta”, porque “fue prudente, no creó problemas ni siguió la ‘tendencia izquierdista y tercermundista’ de otros Episcopados”. Condenava “algunos excesos”, mas “sin romper relaciones”. Con Primatesta, até “llegamos a ser amigos”. A Igreja Católica argentina, portanto, sabia, calou, ocultou e até deu a benção (ao genocídio).

 

É claro que houve exceções dentro da Igreja (também as houve nas Forças Armadas), mas a instituição clerical como tal foi parte ativa do massacre, como foi denunciado pelas Mães da Praça de Maio ou pelo grande artista plástico León Ferrari. Não raro as exceções clericais, como o bispo da província de La Rioja, Monsenhor Angelelli, ou os padres da ordem palotina, que foram todos massacrados por protegerem perseguidos políticos, foram vítimas dos assassinos benzidos pelos seus superiores. Enrique Angelelli morreu em um suposto acidente de carro: embora houvesse evidências gritantes de assassinato, a cúpula da Igreja aceitou a versão oficial e acobertou o crime enquanto mantinha o apoio a Videla e a Junta.

 

A exacerbação da corrupção e do Estado capitalista

 

A “corrupção” do precedente governo peronista foi eliminada hegelianamente, ou seja, conservada e elevada a níveis estratosféricos. Negociatas, mas também roubo e venda dos bens das pessoas desaparecidas, sem falar no orçamento astronômico militar, responsável por quase metade da dívida externa, que atingiu 45 bilhões de dólares. O Estado capitalista assumiu, na Argentina da ditadura militar, sua forma extrema, essencial, de máfia armada dedicada ao saque das finanças públicas e da população.

 

Na degringolada da Junta Militar, durante e consecutiva à derrota da Argentina na guerra das Malvinas, o Vaticano assumiu um papel de primeiro plano para evitar uma crise revolucionária (e também para garantir a vitória da coalizão militar anglo-ianque). Em 1º de junho de 1982, na véspera da derrota argentina, o Papa João Paulo II chegou a Buenos Aires para «orar pela paz». O Papa permaneceu no país por dois dias, durante os quais desenvolveu uma intensa atividade que compreendeu, fundamentalmente, uma prolongada entrevista com a Junta Militar e com o presidente Leopoldo Galtieri, duas missas celebradas junto aos cardeais, que congregaram centenas de milhares de pessoas, uma delas em Palermo (Buenos Aires) e outra em Luján.

 

Durante esses atos e outras aparições ante a multidão, o Papa pronunciou discursos em espanhol, pedindo a toda a nação para orar pela paz, com a guerra ainda em andamento. Antes de voltar para Roma, o Sumo Pontífice manteve uma conversa a sós com o presidente Galtieri, cujos termos nunca foram revelados, mas que foram decisivos para a rendição argentina, em momentos em que o desfecho bélico ainda era incerto.

 

Osvaldo Coggiola, historiador e economista, é professor do departamento de História da USP.

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