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Apesar do Reino Unido, a Europa não é mais tão fiel aos EUA Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 01 de Novembro de 2013
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A revelação das diabruras da espionagem norte-americana nas comunicações privadas da Europa deixou governos, políticos e povo enfurecidos.

 

A premier Merkel, embora também crítica, procurava moderar os protestos gerais. Perdeu a calma quando descobriu que seu próprio celular estava grampeado.

 

Logo, juntou-se a outros líderes europeus, exigindo que os EUA parassem de espionar seus amigos e aliados. Não era coisa que se fizesse!

 

Enquanto isso, comissão de legisladores europeus concluía leis a disciplinar a transferência dos dados dos computadores dos países da União Europeia para os EUA.

 

Elas tornarão essas operações muito mais difíceis para os grandes servidores de internet e provedores de mídia social estadunidenses, pois terão de ser submetidas às leis da Europa e não às concessivas cortes secretas dos EUA.

 

Depois de emitir várias (e duras condenações), Merkel exigiu explicações de Obama, recebendo desculpas, promessas de emenda, nada muito satisfatório.

 

A grande surpresa foi que, dois dias depois, numa reunião de líderes da União Europeia, ela concordou em adiar para 2015 a aplicação das novas leis anti-espionagem.

 

Os chefes de governo europeus – com exceção da França, Polônia e Itália – foram nessa, apesar de contrariarem suas posições públicas e de seus respectivos povos.

 

Preferiram dobrar-se ao lobby pró-EUA conduzido pelo governo inglês. Até a próspera Alemanha, senhora dos cofres da recuperação europeia, cedeu. E não se trata de boato ou duvidosa informação anônima: o Der Spiegel, ao dar a notícia, citou documentos do Ministério do Exterior de Berlim.

 

Evidentemente, a pressão inglesa favorece os EUA, mas prejudica a comunidade europeia, pois adia uma lei do maior interesse dos seus países, que, aliás, há dois anos já teria sido aprovada, não fosse a oposição norte-americana.

 

O primeiro ministro do Reino Unido, David Cameron, continuou prestando serviços à Casa Branca, ao ameaçar a “sacrossanta” liberdade de imprensa inglesa.

 

Em discurso na Câmara dos Comuns, ele censurou o jornal The Guardian pela publicação das denúncias da espionagem na Europa.

 

Disse Cameron: “Vivemos num país livre onde os jornais têm a liberdade de publicarem o que eles quiserem”.

 

Nem tanto, pois ele garantiu que, caso o The Guardian não se calasse, acabaria aplicando o D-Notices, que permite ao governo proibir matérias ameaçadoras da segurança nacional.

 

Como cabe ao governo dizer quando isso acontece, ele poderia simplesmente vetar notícias que o contrariem.

 

E lá se vai a liberdade de imprensa. Para evitar um ato que seria uma tragédia numa democracia como a inglesa, o D-Notice só costuma ser aplicado em situações excepcionais. Numa guerra, por exemplo.

 

Segundo Cameron, o país vive um momento assim, sendo que as denúncias de espionagem já o tornaram “menos seguro.” Claro, não provou nada.

 

Na verdade o que essas denúncias prejudicam é a imagem dos EUA na União Europeia.

 

Do Reino Unido também, pois recentes artigos mostram como os dois países monitoraram as comunicações dos seus bons amigos no Velho Continente.

 

Não é de hoje que o governo de Londres atua como um verdadeiro agente da Casa Branca, infiltrado na Comunidade Europeia.

 

Por pensar assim, o general de Gaulle, quando presidente da França, vetou duas vezes a integração do Reino Unido na chamada Comunidade Econômica Europeia (antecessora da Europa Unida).

 

Justificou-se dizendo que permitir a entrada do Reino Unido seria o mesmo que permitir a entrada dos EUA e as consequências seriam “uma comunidade atlântica colossal, dependente e liderada pela América, que logo absorveria a comunidade europeia”.

 

Bem, esta fase ainda não chegou. Talvez nem chegue. Mas meio caminho já foi percorrido.

 

Após de Gaulle, em muitos eventos, o Reino Unido aceitou a liderança yankee e influenciou outros países europeus nesse sentido.

 

Quando Bush resolveu invadir o Iraque, convocou Tony Blair para apoiá-lo numa guerra ilegal e injusta. E Blair, como primeiro-ministro do Reino Unido na época, topou co-patrocinar aquela farsa cruel, que tantas destruições e mortes causaram aos iraquianos.

 

Até ajudou a convencer Aznar da Espanha, um dos 28 integrantes da Europa Unida, a aderir, contra a opinião do seu próprio povo.

 

Mais recentemente, o Reino Unido pressionou seus aliados europeus a suspenderem a proibição do envio de armas para a revolução da Síria, país que nunca ameaçou a Europa.

 

Quando Obama quis bombardear Damasco, por ter o governo supostamente usado bombas químicas (sem haver provas disso), Cameron aprovou com entusiasmo.

 

E foi além. Por sua ordem, o Estado Maior chegou a planejar a participação militar inglesa no ataque norte-americano.

 

Felizmente, o Parlamento cortou esse barato, pensando nos desejos do seu povo, não da Casa Branca.

 

Essa inversão de papéis, com o Reino Unido seguindo os EUA – sua ex- colônia –, se intensificou durante o governo conservador de Margareth Thatcher. Mesmo com os dois trabalhistas que a sucederam no cargo de primeiro-ministro, não houve mudanças.

 

O que está mudando é a posição dos outros países da Europa diante da hegemonia norte-americana.

 

Não é de se crer que eles irão se desvincular totalmente, formar um bloco à parte. Especialmente a partir do reconhecimento da Palestina pela ONU, quando seus países foram favoráveis ou neutros, contra a posição dos EUA, a Europa Unida tem a divergido da Casa Branca em várias questões pontuais.

 

Nas negociações de paz na Palestina e na discussão dos acordos nucleares com o Irã, por exemplo, as posições europeias são claramente mais flexíveis do que as da Casa Branca, fortemente influenciadas por Tel-aviv.

 

Durante os longos anos da guerra fria, a Europa acostumou-se a ver nos EUA seu defensor diante da ameaça expansionista da União Soviética.

 

Esta confiança foi profundamente abalada, senão perdida, com o episódio da revelação da espionagem.

 

“Não é coisa de aliados e amigos”, disse Angela Merkel. Certamente, o dócil Reino Unido, do primeiro-ministro Cameron, estará a postos para tentar frustrar qualquer nova rebeldia dos europeus.

 

No entanto, não importa o que acontecer, nada mais será como antes.

 

Leia também:

Espionagem dos EUA: liberalização comprometeu soberania nacional


Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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Última atualização em Terça, 05 de Novembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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