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Black Bloc Imprimir E-mail
Escrito por Lincoln Secco   
Terça, 29 de Outubro de 2013
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A imagem de um coronel da PM paulista agredido chocou a imprensa. Deixemos de lado o fato estranho: numa corporação militar não é comum que justamente o oficial de máxima patente fosse deixado sozinho em meio a manifestantes que não costumam ser bem tratados por seus soldados.

 

A presidente da República, movida pelas pesquisas de opinião, logo se declarou contra os “vândalos”. A Folha de S. Paulo já tinha uma pesquisa pronta para revelar que 95% dos paulistanos são contra os Black blocs. Mas o mesmo jornal não explica como a esmagadora maioria da população pode se posicionar sobre aquilo que ninguém sabe o que é! Afinal, a grande imprensa costuma mostrar o “vandalismo” como um ato irracional. Por que, afinal, alguém ataca caixas de banco?

 

Um articulista da Folha de S. Paulo sugeriu covardemente o uso do exército contra manifestantes! Já o governador paulista, sempre movido pelo feixe para onde convergem suas ideias, pede que as leis sejam mais duras para agressores de policiais. Ele sequer tem o pejo de violar o artigo 5 da Constituição. Não somos todos iguais perante a lei? Sobre a desmilitarização da polícia nenhuma palavra, afinal, é uma obra da ditadura tão intocável quanto os torturadores ainda soltos por aí.

 

Depois dos confrontos do terminal Parque Dom Pedro em São Paulo, foram 7 os jovens encarcerados. Segundo relato de um apoiador dos manifestantes, “na delegacia da Mooca havia um advogado do grupo dos ativistas com uma marca de tiro de borracha no abdômen, uma mãe rockeira orgulhosa do filho, pais da Cohab e duas meninas da USP, combativas, e muito gratas pela nossa presença inútil por ali, que era basicamente para afastar os olhares repugnantes dos PMs, rodeando no entorno como cães impunes”.

 

Mais surpreendente foi o caso de um garoto que chegou de madrugada procurando o irmão que estava preso por formação de quadrilha. Detalhe: estavam passeando em São Paulo, vieram de Curitiba (portanto, formaram a "quadrilha em poucas horas").

 

O fato é que jovens sem a cultura política tradicional resolveram deixar a ideologia da espera. Tratados a pão e tijolo, enjaulados em terminais horrendos como o do Parque Dom Pedro, submetidos a infinitas baldeações, eles perderam o medo.

 

Descobriram que não é a esperança que vence o medo. Mas a raiva. Se algum articulista já esperou de madrugada a saída do 1178 na Praça do Correio; depois chegou ao seu bairro e levou a milésima batida policial, engoliu a seco, chutou tudo o que viu pela frente e foi dormir chorando de raiva, deve só imaginar o que sente a juventude mascarada.

 

O velho Mao disse certa vez: uma Revolução “não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa”. Não vivemos nenhuma revolução até porque a ação dos blocos negros está muito longe da violência revolucionária, especialmente num país com as taxas de homicídio do Brasil. Só a PM mata mais gente do que alguns países em guerra declarada.

 

Excessos? Sem dúvida. Não advogo aqui tudo o que se faz sob a tática dos blocos negros. Acredito que nem eles. Quando uma esquerda revolucionária retomar seu lugar nas ruas, talvez eles voltem para o fundo das periferias de onde saíram e deixem a direita e a esquerda aliviadas.

 

Para os que têm dúvidas como eu, repetiria o que me disse um colega há muitos anos numa greve: “eles estão errados, mas se a repressão está do outro lado, eu não tenho dúvida. Estarei sempre do lado de cá”.

 

Licoln Secco é professor do Departamento de História da USP e publicou em 2011 o livro “História do PT”, pela Ateliê Editorial.

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