Estados Unidos e Síria – o estranhamento nos anos 60

 

 

A Liga Árabe anunciou a disposição das partes em conflito na Síria em reunirem-se até o final de novembro. Provavelmente, a Organização das Nações Unidas, sob a chancela inicial dos Estados Unidos e Rússia, irá subscrever a significativa iniciativa, de sorte que se possa interromper o morticínio em andamento há quase dois anos. Embora tenha sido fundadora da entidade regional, a Síria encontra-se suspensa por causa da guerra civil.

 

Na década de 1950, Estados Unidos e Egito divergiam politicamente sobre o destino do Oriente Médio. Enquanto Washington enfatizava o anticomunismo, o Cairo o fazia pelo pan-arabismo e o antiocidentalismo, em função dos antigos vínculos de Londres e Paris com o imperialismo.

 

O auge do descompasso se manifestou na denominada Crise de Suez, em novembro de 1956, originada meses antes em face da nacionalização do importante canal egípcio, a despeito da discordância das potências norte-atlânticas.

 

Anteriormente, a Casa Branca já havia externado preocupação com a crescente presença do Kremlin na região, facilitadora de ações como aquela. Em 1955, a União Soviética, através da Tchecoslováquia, forneceu armamentos ao Egito.

 

Em junho do ano seguinte, ela propôs-se a parcialmente financiar a construção da represa de Assuã, obra vultosa. Meses depois, haveria o anúncio da estatização do canal.

 

Como consequência, os Estados Unidos comunicariam em janeiro de 1957 a Doutrina Eisenhower, voltada para a proteção militar de aliados em vista do comunismo internacional pairador. Suas raízes localizavam-se no denominado Memorando Ômega, de março de 1956, por meio do qual se havia analisado o quadro político daquela área e se sugerido formas de ação.

 

Não há até hoje consenso entre historiadores e internacionalistas se a decisão norte-americana de acirrar os ânimos com os egípcios teria enfraquecido seus principais parceiros lá, britânicos e franceses, e contribuído para reduzir a influência ocidental, mesmo involuntariamente.

 

Nas inúmeras considerações da diplomacia dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, o apoio das monarquias conservadoras seria mais valioso que o do Egito naquele momento, em decorrência da importância econômica, através do petróleo, e política, via anticomunismo, malgrado o peso do milenar país na região.

 

Uma alternativa posta à mesa ao Cairo seria a união com Damasco, ocorrida em fevereiro de 1958, com o propósito de se fortalecer: nasceria a República Árabe Unida (RAU). Efêmera, ela seria dissolvida no final de setembro de 1961, em função de um golpe de Estado militar na parte síria. Aquele ano seria marcante para o Oriente Médio porque houve guerra civil no Líbano e revolução no Iraque.

 

Naquela ocasião, não houve por parte do Egito manifestação de resistência, de maneira que a Síria logo se tornaria independente, com a obtenção do reconhecimento da Organização das Nações Unidas em poucos dias.

 

Os Estados Unidos somente reconheceram a nova soberania após quase duas semanas da proclamação castrense, depois mesmo da União Soviética, mais atenta às movimentações desde a aproximação frustrada com o Egito na década anterior.

 

Destaque-se que a Casa Branca havia aceitado a formação do novo país, em vista de a união síria-egípcia ter mantido a validade dos acordos assinados antes com cada um dos dois governos. A República Árabe Unida manteve os termos do entendimento amero-sírio de 1944, relativos às cláusulas de nação mais favorecida e de preservação de determinados direitos mútuos.

 

Na década de 60, os democratas retornaram ao poder nos Estados Unidos, após dois mandatos de ausência. Diante da polêmica da Doutrina Eisenhower, houve a tentativa de nova configuração do relacionamento com a maioria dos países médio-orientais, ao enfatizar a importância da colaboração das Nações Unidas no encaminhar de questões da região e ao substituir parte do quadro de embaixadores. Em abril de 1962, o país mostrou insatisfação no Conselho de Segurança onusiano, com as incursões de Israel junto à Síria.

 

Com a extinção da RAU em 1961, a relação diplomática entre Síria e Estados Unidos naturalmente se reduzira, visto que a atenção maior era para o Egito, avaliado com desconfiança pela Casa Branca por causa do pan-arabismo.

 

Além do mais, dois eventos atraíram a atenção de Washington na primeira metade daquela década: a crise no Coveite em 61, em face de nova definição do relacionamento com a Grã-Bretanha, e a revolução no Iêmen em setembro do ano seguinte, assinalada pela proclamação da república, logo após o falecimento do rei.

 

Após o assassínio de Kennedy, em novembro de 1963, a política externa estadunidense adquiriu nova forma. A rivalidade sovieto-americana passou a refletir-se com mais intensidade na composição das alianças. Na visão da Casa Branca, três países durante a década de 60 estiveram mais próximos do Kremlin: Egito, Síria e Iraque. Os ânimos acirrar-se-iam mais ainda depois da Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967.

 

 

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Estados Unidos e Síria – da proximidade ao afastamento

Guerra da Síria: a vitória russa e o possível fim da unipolaridade


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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