Vandalismo e minhocas

 

 

Provavelmente, quase todos acompanham a cobertura da TV sobre as últimas manifestações de rua em São Paulo e no Rio, principalmente as do dia do professor. Já houve algo também depois desse dia. A partir do que se assiste, surgem minhocas na cabeça.

 

Em primeiro lugar, há uma certa "economia" das notícias sobre as manifestações dos professores, reivindicando condições mais dignas de trabalho. Também se vê que a TV mostra planilhas de salários, projetando hipotéticos reajustes, das quais só se pode duvidar. Parece que elevam os valores para dar impressão de que os professores querem muito.

 

Em segundo lugar, vê-se que são mostradas imagens daqueles a quem a imprensa amiga combinou chamar de “vândalos”. Estes, de rostos cobertos, seriam sempre os primeiros a agredir a polícia, que, então, "legitimamente" revida. São também os tais “vândalos” que promovem quebradeira do que encontram na rua. É interessante observar o que os mascarados quebram e/ou queimam: orelhões, lojas, vidros da prefeitura e/ou Câmara, ônibus de transporte urbano, viaturas policiais, uma ou outra estação do metrô e, sobretudo, agências bancárias. Em outras palavras, símbolos de serviços públicos mal prestados, da corrupção, da truculência e da propriedade privada opressiva e corruptora.

 

Sem julgar o acerto ou o erro dos manifestantes, é possível ver lógica, um fio condutor nisso. Os "vândalos" atacam o capital e o poder público que lhe dá proteção. Não se costuma ver casos desses mascarados queimando carros particulares estacionados nas ruas. Nem residências. Nem atirando pedras em qualquer pessoa que encontram pela frente.

 

Se for isso mesmo, esses manifestantes têm um alvo determinado. Não é que saem às ruas porque não têm coisa melhor pra fazer. Ou para pegar carona nas manifestações dos professores, embora seja interessante que justamente os coitados dos professores sejam uma das categorias mais maltratadas pelo capital e pelo poder público, simultaneamente.

 

Mas então. Esses manifestantes são insistente e deliberadamente rotulados de “vândalos” pela TV amiga. É claro que esta não diz que o termo é inspirado num povo germânico, aliado dos godos, e que foi aproveitado por um bispo francês para criticar o que entendia por violência dos revolucionários de 1789, que queriam – e conseguiram – derrubar a ordem estabelecida. É preciso não deixar ninguém se lembrar disto e, mais ainda, descaracterizar qualquer lógica nas suas atitudes, chamá-los de irresponsáveis. Porque é fundamental não chamar a atenção para o eixo do seu protesto.

 

Qualificá-los de violentos é uma estratégia. O brasileiro adora dizer que é contra a violência, embora o Brasil tenha uma das sociedades mais violentas e excludentes, que o diga Marilena Chauí. Segundo ela, quando percebe a violência, o brasileiro médio a explica como coisa “dos outros”, sejam quais forem esses “outros”. Preferencialmente, são os do andar de baixo.

 

É didático lembrar que o capital é também muito violento. Pra falar só do varejo, veja-se o caso de um banco, com seus juros contra o cliente, os pacotes de produtos inúteis que este é forçado a comprar. Se ele dever um centavo, o banco o retira de qualquer depósito que recebe, até mesmo se for salário. É um assalto refinado e seguro, o assaltante usa gravata e atua no ar condicionado.

 

Os Detonautas já cantaram isso. O assaltante, curiosamente, aqui é também uma vítima: das metas que tem para cumprir, do assédio moral que sofre no ambiente de trabalho, dos baixos salários, do perigo de perder a vaga para um concorrente do exército bancário de reserva. O professor é refém dos mesmos perigos e, frequentemente, encontra chefes que, embora igualmente professores, assumem o discurso dos “donos da loja” (é loja mesmo), talvez para garantir o cargo. E por aí vai.

 

E pra terminar: a violência policial na rua não mostra diferença daquela que atuava na repressão ao movimento estudantil, há trinta e tantos anos, apesar da nova Constituição, do Estado de Direito etc. etc.

 

Plínio Gentil, doutor em Direito (PUC-SP) e em Fundamentos da Educação (UFSCar), é professor universitário de Direito Penal, Processo Penal e Ciência Política, Procurador de Justiça criminal no Estado de S. Paulo, integrante do Movimento do Ministério Público Democrático e vice-presidente da Associação de Proteção à Cidadania (APC).

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