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Belo Monte, Marina e os Black Blocs Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Sexta, 18 de Outubro de 2013
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“Manifestantes bloqueiam rodovia BR-163, em Novo Progresso, no Pará – caminhoneiro tentou furar bloqueio e teve a carga jogada na pista. Protesto de garimpeiros, comerciantes e sem-terra já dura cinco dias”, anunciou recentemente o site G1. Com a interdição da estrada, garimpeiros e madeireiros que vivem na Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim protestavam contra o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

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Essa notícia, de 5 de outubro, é na verdade corriqueira. Há muito se sabe que a pressão sobre as florestas da região da rodovia Cuiabá-Santarém só tende a aumentar e inevitavelmente cresceria com a pavimentação da rodovia. Cito a matéria só para introduzir e ligar os dois assuntos centrais deste artigo: a atuação e as posições de Marina Silva diante das políticas ambientais. E o vandalismo dos protestos de quebradeira. E isso sob a ótica da hidrelétrica de Belo Monte, o tema recorrente dos meus artigos para o Correio nos últimos anos.

 

Visto que a barragem de Belo Monte, se não destruirá totalmente, transformará profundamente para pior, possivelmente já no final do ano que vem, a natureza do maravilhoso rio Xingu que vejo à minha frente enquanto escrevo estas linhas, não tenho nenhuma simpatia por este protesto dos madeireiros e garimpeiros da Cuiabá-Santarém, apesar de compreender o desespero de muitos dos que resolveram parar a rodovia pelo direito de garimpar ouro, cortar madeira, caçar e desmatar a floresta da Flona do Jamanxim – uma área de pouco mais de um milhão de hectares (equivalente a um quarto do estado do Rio de Janeiro), criada em 2006 pela então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para proteger as florestas do entorno da rodovia em asfaltamento, no contexto do plano BR-163 Sustentável.

 

A destruição da floresta, de sua fauna e seus rios, é um tipo de vandalismo muito mais grave do que a destruição de ônibus, carros da polícia ou agências do Bradesco, praticada pelos chamados Black Blocs, simplesmente porque esses ecossistemas demoraram milhares, se não milhões, de anos para se formar, enquanto que as construções e os equipamentos podem ser repostos rapidamente. Mas, tratando-se da devastação da Amazônia, vale a pena se focar apenas nos desesperados que já estão vivendo naquela área sem trabalho, sem escola, sem saúde e que muitas vezes estão lutando para ter algo para dar de comer a um filho? Evidentemente que não. A responsabilidade maior é dos políticos que promovem essa onda de colonização no meio da floresta sem o mínimo de planejamento social. Sempre se pode dizer que a floresta está melhor com a Flona do que estaria sem ela e que a Marina deveria ser dado o crédito de tê-la criado.

 

Mas eu vejo essa história de um modo diferente. Quando o PT chegou à Presidência da República, em 2003, trouxe consigo grandes esperanças para a área ambiental, especialmente para os mais preocupados com a região Amazônica, área onde grandes decisões estratégicas, de impacto profundo, estão sendo tomadas nesse ponto da nossa história. Para mim, seria o fim daquele ciclo de colonização e devastação, iniciado com os militares e continuado quase que imutável pelos presidentes eleitos desde então.

 

Nesse contexto, Marina Silva, herdeira de Chico Mendes, à época recentemente morto por fazendeiros no Acre, era a mais perfeita encarnação dessa esperança. Esperança que no meu caso não durou muito, quando percebi que, ao invés de focar na luta contra o desmatamento, ela começou com uma batalha infrutífera contra certos tipos de transgênicos sobre os quais hoje nem se fala mais, pois foram mais ou menos aceitos sem contestação maior. E nem Marina Silva fala mais de suas “tão temidas” consequências. Enquanto isso, a devastação persiste a passos largos.

 

A Flona do Jamanxim foi criada para proporcionar uma falsa imagem de ordem e planejamento para as ações do governo Lula, que prosseguiria com os asfaltamentos de estradas no coração da floresta exatamente como sonhado pelos militares. E, por algum tempo, muita gente bem intencionada se impressionou com o discurso de Marina e seu visual de “mãe do Macunaíma e descendente dos tururus bandeira, o povo que vive nas árvores”, “ema de xale” ou “tartaruga sem casco”, como comparou o colunista da Folha de S. Paulo José Simão.

 

“Vândalo”, para mim, acima de tudo, é quem chamou esse projeto de asfaltamento de “Sustentável”, termo tão repetido pela Marina enquanto era evidente que o asfaltamento daria exatamente no que deu. Ainda por cima envolvendo o nome do líder seringueiro assassinado. E por isso hoje somos obrigados a ler que “O G1 entrou em contato com Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), em Brasília, mas ninguém foi encontrado para comentar o assunto”. Quem foi contra os asfaltamentos na floresta terminou com o nome envolvido nessa lambança.

 

Focando agora em Belo Monte, Marina sempre foi uma decepção para aqueles que tinham esperanças na luta contra a barragem. Basicamente, ela nunca disse abertamente que as hidrelétricas não são uma alternativa sustentável, e não produzem energia “limpa”, não sendo uma alternativa inerentemente melhor sob o ponto de vista ambiental do que qualquer outra. Não apenas pelas trágicas consequências ecológicas e sociais, mas porque seus lagos produzem grandes quantidades de metano, um poderoso gás do efeito estufa (para maiores informações ler “Gases de efeito estufa em hidrelétricas da Amazônia”). Fez algumas críticas à forma como a coisa foi feita, mas até aí o Serra também fez e nada demais.

 

Quanto aos protestos de quebradeira ou não, como já disse antes, as manifestações contra a barragem, que já foram tão tocantes, desapareceram completamente. É claro que não teriam qualquer poder sobre uma obra de quase 30 bilhões de dólares em uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes.

 

Agora, se eu pudesse, eu mesmo ajudaria a quebrar, a reduzir a pedacinhos o paredão de concreto armado que destruirá as praias e os ecossistemas de corredeiras da Volta Grande do Xingu, com todas as suas espécies únicas de peixes, altamente dependentes da água superoxigenada dessa região, e que se acaba com a formação do lago. Bárbara mesmo é a construção dessa barragem, “na lei ou na marra”, como definiu o Lula em 2010 na época do leilão da obra, com o dinheiro do povo e por benefícios eleitoreiros.

 

Leia também:

Tudo errado em Belo Monte

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte.

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Última atualização em Terça, 22 de Outubro de 2013
 

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