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A crise e os arrivistas Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Passarinho   
Sexta, 11 de Outubro de 2013
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A crise está posta. As dificuldades econômicas, as pressões sociais crescentes das manifestações populares e as movimentações políticas de antigos aliados do lulismo mostram o esgotamento do padrão de governabilidade defendido pela cúpula do PT ao chegar ao governo federal.

 

As dificuldades econômicas se evidenciam – pelo seu lado mais superficial – com as sucessivas e frustradas tentativas do governo em reativar o ritmo de crescimento da economia. Afinal, desde 2012, os atuais dirigentes do governo anunciam medidas que visam reativar a economia. Depois de sucessivas elevações na taxa básica de juros, em 2011, no primeiro ano do seu governo, Dilma Rousseff percebeu o equívoco dessa política com o resultado do PIB daquele ano, inferior a 3% (expansão de 2,7%).


Contudo, a partir desta referência do PIB, o resultado, em 2012, foi pior ainda: tivemos um crescimento de apenas 0,9% e com uma taxa de investimento muito aquém do desejável. Foi a partir dessa realidade, agravada por uma conjuntura externa que expõe todas as nossas fragilidades, que o governo federal resolveu deixar cair a sua máscara e apostar todas as suas fichas na falsa “solução” das privatizações.

 

As fragilidades da nossa economia frente ao quadro externo podem ser traduzidas na absoluta incapacidade do governo em defender o país, por exemplo, das instabilidades na área do câmbio. Tornou-se muito comum Guido Mantega e Dilma Rousseff se manifestarem, inclusive em fóruns internacionais e em passado muito recente, contrários aos efeitos da política de estímulos monetários promovida pelo FED, o banco central norte-americano.

 

Ambos denunciavam o que foi chamado à época de “tsunami monetário” e seus efeitos negativos sobre a nossa taxa de câmbio, sofrendo indesejável valorização. Entretanto, já em meados deste ano, frente à expectativa de suspensão do programa planejado de compra de títulos americanos pelo próprio FED, a preocupação maior do governo passou a ser a forte desvalorização do Real e seus efeitos sobre a taxa de inflação...

 

O que esta conduta errática do discurso governamental evidencia é que carecemos de uma política soberana e consciente para conduzir os nossos objetivos econômicos. Estamos ao sabor das pressões de bancos, multinacionais e dos efeitos da conjuntura internacional. Não temos, a rigor, um governo na área econômica, mas apenas gestores subordinados às pressões dos agentes financeiros internacionais e de seus aliados internos.

 

O resultado de todo esse “padrão de governabilidade” é o pior possível, frente às indefinições e incertezas que ainda marcam o cenário externo. Em termos de expansão da atividade econômica, por exemplo, e com toda a propaganda em torno das privatizações de portos, aeroportos, estradas, ferrovias e campos de petróleo, os resultados continuam pífios. O FMI acaba de reduzir as suas estimativas de crescimento econômico para 2014, prevendo que no ano que vem teremos o mesmo resultado esperado para esse ano de 2013: expansão do PIB de apenas 2,5%.

 

Caso essas estimativas do FMI para a economia brasileira se confirmem, teremos no governo Dilma uma média anual de crescimento do PIB de apenas 2,15%, que por sinal foi o mesmo resultado obtido por FHC, em seu segundo mandato (1999/2002).

 

É justamente esse quadro de indefinição dos rumos da economia brasileira, somado às fortes pressões populares por mudanças, representadas pelas manifestações de junho, que fazem com que antigos aliados do lulismo procurem se apresentar como alternativas diferenciadas ao atual governo. Na última eleição presidencial, já tivemos a tentativa de Marina Silva se apresentar como essa opção ao lulismo. Agora, além da própria Marina, foi o PSB, de Eduardo Campos, que anunciou a sua dissidência em relação ao barco lulista, sob o comando de Dilma.

 

Com o frustrado processo de registro da sua Rede Sustentabilidade, Marina a muitos surpreendeu e anunciou a sua entrada no PSB. Esse movimento, em um primeiro momento, fortalece a candidatura do PSB à presidência da República e, especialmente, coloca a candidatura do PSDB em xeque, como principal alternativa à possível candidatura de Dilma à reeleição. A adesão de antigas lideranças do DEM – como é o caso do clã dos Bornhausen, velho aliado dos tucanos – ao PSB é um claro exemplo desse processo de tentativa de “renovação” das opções da direita brasileira.

 

Pelo lado do lulismo, por sua vez, a dependência em relação ao PMDB torna-se maior. Com a tentativa de Eduardo Campos de procurar transformar o seu PSB no principal polo de aglutinação da oposição eleitoral ao lulismo – e com a possibilidade de agravamento da crise econômica e política, no ano que vem –, o partido de Michel Temer, Sarney e Renan Calheiros se transforma em um delicado fiel da balança.

 

O dado mais grave, contudo, de todo esse quadro que se esboça é que nenhum desses ditos candidatos à eleição presidencial do ano que vem apresenta alternativa real ou opção substantiva diferente do que vem sendo feito no país, desde os anos 1990.

 

O comportamento dos ex-lulistas procura seguir o triste exemplo da cúpula do PT, em 2002, quando, frente à perspectiva de vitória eleitoral, abandonou o seu diagnóstico próprio da crise que vivenciamos no segundo mandato de FHC, renunciou ao programa até então defendido de mudanças na economia brasileira e se jogou em um acordo espúrio com o sistema financeiro internacional, com a nomeação de Henrique Meireles – executivo de um grupo financeiro credor do Brasil e deputado eleito pelo PSDB – para o importante e estratégico cargo de presidente do Banco Central. Frente ao desafio de colocar em prática o que defendiam, Lula e a cúpula do PT preferiram o caminho fácil da composição de interesses com os verdadeiros donos do poder. Falou mais alto, na ocasião, a ambição do sucesso a qualquer custo e com o menor risco político possível.

 

Marina Silva ou Eduardo Campos não apresentam – ao contrário do antigo PT – nenhuma alternativa programática ao modelo defendido pelos bancos e multinacionais. Entretanto, o “senso de oportunidade” de ambos – frente ao inevitável desgaste do governo de plantão – os faz tentar se apresentarem como alternativa para um país em crise. Mas, ao invés de apostarem nas transformações estruturais que precisamos, o caminho escolhido é apenas o do oportunismo bem comportado e ajustado ao desejo dos verdadeiros donos atuais do poder, os bancos e as multinacionais. E, nesse sentido, torna-se apenas uma reprodução acanhada do arrivismo de Lula, em 2002.

 

Leia também:

O Discurso e a Prática de Dilma

O Estado brasileiro e as perguntas essenciais


Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.

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Última atualização em Qui, 17 de Outubro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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