Estados Unidos e Síria – da proximidade ao afastamento

 

 

Nos últimos dias, o governo norte-americano dedicou-se mais a um importante fato interno: a obtenção da aprovação do orçamento, suspensa em decorrência da posição intransigente da maioria dos deputados, quase todos eles pertencentes ao Partido Republicano.

 

Desta forma, o próprio noticiário do país momentaneamente colocou em segundo plano a política externa, mesmo a relacionada com temas candentes como o do Irã e o da Síria.

 

Concernente à última, imersa em sangrenta guerra civil há quase dois anos, a Casa Branca diariamente avalia a possibilidade de apoiar de modo militar o lado insurgente à longeva ditadura da família Al-Assad.

 

Dados os laços antigos com o país, os Estados Unidos não aceitam a hipótese de manterem-se distantes daquele terrível conflito, ainda mais diante do vivo interesse dos russos e dos iranianos com a questão.

 

Ao adquirir a independência em meados da década de 1940, a Síria tornou-se a referência árabe aos movimentos nacionalistas. Vinculada inicialmente à esfera anglo-americana, ela não se sentiu impedida de aproximar-se comercialmente da União Soviética uma década depois, ao valer-se da conexão militar entre egípcios, de quem ela era próxima, e soviéticos. Nos anos seguintes, armamentos do leste europeu far-se-iam presentes na região médio-oriental.

 

1955 foi um ano marcante no mundo subdesenvolvido, recentemente descolonizado, por causa do impacto da Conferência de Bandung, em abril, sucedida em 1961 pelo Movimento dos Não Alinhados, liderado por Iugoslávia, Índia e Egito. Aquele período assinalou a afirmação do neutralismo, o que permitia a governos da Ásia, África e América Latina oscilar entre as duas grandes superpotências.

 

Entre outubro e novembro de 1956, durante a Crise de Suez, momento em que tropas israelo-franco-britânicas invadiram o Egito, Damasco apoiou o Cairo, ao chegar até a bloquear o uso de oleoduto vindo do Iraque. Washington observou a solidariedade pan-arabista como parte de uma aliança, ainda que informal, maior: a filocomunista.

 

Com a substituição do governo sírio em 1957, os novos dirigentes esforçaram-se para estreitar os laços econômicos e militares com seus correspondentes egípcios, próceres, sob o comando de Gamal Nasser, da postura antiocidental ou antiimperialista.

 

Naquela época, Estados Unidos e Grã-Bretanha acompanhavam com preocupação a nova conformação de poder no Oriente Médio e adjacências. O desafio era equilibrar as aspirações da Turquia, Arábia Saudita, Iraque e Jordânia. Estes dois, sob a liderança de monarcas hachemitas, cogitavam a incorporação territorial da Síria.

 

O objetivo maior do esforço diplomático anglo-americano seria o de impedir a formação de uma base territorial segura para a movimentação soviética. Assim, dever-se-ia obstar a ‘satelitização’ pelo arco comunista. Os próximos possíveis alvos seriam o Líbano e a Jordânia, esta em Estado de Sítio a fim de conter a oposição.

 

Em agosto de 1957, diplomatas norte-americanos seriam expulsos da Síria, sob a suspeita de conspirarem contra o governo. Em decorrência disso, os Estados Unidos contatariam o Egito com o propósito de solicitar apoio ou ao menos intermediação no caso. Este lhes informa sua posição: neutralidade. Todavia, adverte-os de que a pressão ocidental teria como resultado a procura de apoio soviético.

 

Diante do quadro, uma intervenção multilateral seria considerada pelo Departamento de Estado como derivação da Doutrina Eisenhower, firmada em janeiro de 1957. A Turquia punha-se favorável a ela, mas Iraque e Arábia Saudita, não. Embora a maioria dos países da região se opusesse à aproximação da Síria com a União Soviética, nem todos se inclinavam para o emprego da força para evitá-la.

 

Além do mais, havia o espectro do malogro de Suez a pairar na região. Assim, a presença militar do Ocidente poderia ocasionar o efeito contrário. Seria mais adequado que a iniciativa partisse dos governantes locais: uma ‘guerra santa’ contra o comunismo.

 

Ademais, outra justificativa para agir poderia ser a eventual ameaça de sabotagem síria no oleoduto iraquiano, o que poderia afetar o abastecimento da Europa.

 

Na visão ocidental, a Síria poderia converter-se ao comunismo estimulada por razões econômicas e militares, ainda mais depois do lançamento, em outubro de 1957, do satélite Sputnik. Com o envio do pequeno artefato ao espaço, soviéticos e estadunidenses aparentemente se igualavam em termos tecnológicos.

 

Confiante com o êxito espacial, Moscou propôs a Washington uma moratória na venda de armas e a aplicação do princípio de não intervenção no Oriente Médio, o que não seria aceito. Com proveito do impasse, tropas egípcias desembarcariam em solo sírio em outubro do mesmo ano. Como contraparte, a marinha estadunidense enviaria a 6ª frota.

 

Semanas depois, Egito e Síria fundir-se-iam e surgiria a República Árabe Unida, de efêmera duração, mas de grande impacto político inicial em toda aquela área. Setores do Líbano aspirariam a compor a união. Entretanto, tropas dos Estados Unidos invadiriam o país em julho de 1958 e impediriam o desdobrar do projeto.

 

O envio de fuzileiros caracterizou a súbita alteração de comportamento da Casa Branca: em vez de prolongadas consultas diplomáticas com países médio-orientais, houve a decisão individual do emprego da força. Atingida indiretamente pela alteração de curso da política externa norte-americana, a coligação síria-egípcia duraria pouco mais de três anos e meio.

 

 

Leia também:

Estados Unidos-Síria: a antiga parceria frustrada

Síria: esperanças de paz


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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