Memórias de Alice

 

 

Se me é dado recordar, puxo lá no fundo da memória. Só deslembranças mais profundas, as que se refugiam atrás do inconsciente, carregadas de dor, revestidas de traumas, que preferem se esconder nos recantos mais obscuros do olvido. Porque outras eu sei guardar na lembrança. São as que permanecem tatuadas no coração, enraizadas no cipoal de sentimentos, impregnadas na superfície da pele.

Já viu, Alice, alguém esquecer o calor das mãos amadas, o beijo afetuoso, o olhar acolhedor, o sorriso de alvíssaras? Rodam-me a gargalhada do avô, ouvir a piada contada pelo tio, observando a espuma subir no copo enquanto a cerveja descia; o cheiro apetitoso da quitanda de seu Nezinho, florida de verduras e colorida de legumes; o silvo agudo da roda pétrea do amolador de facas se anunciando na esquina.

Também jamais se me apagam as lembranças da infância, não todas, mas sim aquelas que me fizeram dar conta de mim, saber que eu sou eu, fatos, episódios, eventos que me serviram de espelho no qual refleti essa personalidade moldada no tecido cotidiano da vida. Porque a gente não nasce sabendo de si. Nasce exilado de si. A sabença vem aos poucos, vem pelo olhar do outro, vem pelo carinho acalentador, e também pelo golpe desferido na face, o horror, o grito ofensivo, a ferida aberta na alma pela ponta da maledicência.

Quando a linha invisível do espaço que nos cerca é feita de bem-querer, o nosso lado de dentro também se faz de generosidade. Mas quando são fios eletrizados a nos causar permanente tensão, somos impelidos a romper a linha, destroçá-la, na ânsia de liberdade ilimitada. Reside aí a fonte maligna de todas as guerras.

Quem nasce tropeçado tende a atropelar os demais. Essa memória negativa nem é conveniente, porque se abriga nas dobras da irrazão, na ponta áspera de nosso lado vulcânico, lá onde o limite do humano se desembesta em fera, no resgate ancestral, atávico, dos bichos medonhos que nos coabitam e constituem a mais profunda raiz genética do nosso ser.

Sabe, Alice, eu às vezes tenho medo de minhas memórias. Elas ficam guardadas em mim como se numa caixa muito bem trancada e cujas chaves joguei no mar. E não falo apenas das memórias retorcidas, as que expõem minha face disforme no espelho da alma, carregadas de culpa, não da culpa da transgressão, e sim da culpa da omissão, a que se reveste da máscara da indiferença, do descaso, como se a minha vida fosse um rio capaz de fluir sem prestar atenção aos afluentes. Falo também das lembranças saudáveis, luminescentes, gratificantes, as que exaltam o ego e nos delineiam a auto-estima. Porque não se me apraz olhar para trás. Não quero jamais ser o que fui, quero ser o que não fui, fiel à minha identidade mais profunda, a que se esconde nas cavernas secretas do meu ser e aspira pela transcendência.

Não sou de nostalgias, de reminiscências, de cavucar o passado para maldizer o presente. Sou de ânsias de futuro, movido a utopias. Contudo, prometi a você que contaria o que sucedeu naqueles anos sombrios. Você me disse que precisa saber, penetrar fundo os mistérios de sua própria família, recolher os cacos espalhados pelo passado e tentar reconstruir o mosaico. Assim, tantos estilhaços que hoje lhe pulverizam a memória talvez se reajuntem e formem um conjunto conexo, um bordado que, ainda pelo avesso, só exibe linhas desarmônicas, entrecruzadas, impedindo-a de contemplar o desenho configurado do outro lado.

Hoje você completa 20 anos. E é preciso que se saiba neta de um herói. Seu avô são todos aqueles que abandonaram as salas de aula e ousaram enfrentar uma ditadura militar munidos de idealismo, generosidade, confiança em si e no futuro. Graças a eles, Alice, você agora não precisa olhar para trás nas ruas, nem desconfiar do colega de curso ou do vizinho a espreitar-lhe pela janela, e tentar adivinhar o que significam tantas receitas estampadas nos jornais e temer o carro de polícia cuja sirene lhe afoga os ouvidos às suas costas.

Alice, felicidade é não se envergonhar da própria história e cultivar, nos campos profícuos da subjetividade, amorosas orquídeas irrompidas, como por milagre, nos troncos ásperos dessa conflitiva existência.

 


Frei Betto é escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Rocco), entre outros livros.

 

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