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Escrito por Léo Lince   
Qui, 05 de Abril de 2007
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O presidente Lula foi eleito na primavera do ano passado, tomou posse no verão e só no outono deste ano fechou a lista do primeiro escalão governamental. Demorou três estações, um recorde na história republicana. O parto foi demorado e o resultado confirma o dito popular: a montanha pariu ratos. Tirando as exceções que confirmam a regra, localizadas naqueles pontos onde “não se pode brincar”, tudo que é feio e torto na politicalha brasileira está representado no primeiro escalão do novo governo.

 

A sopa de letrinhas da coalizão no governo, que reúne titulares qualificados da pequena política, velhos e novos oligarcas regionais, é uma espécie de cruzamento de cavalo com vaca: a cria não dá leite nem puxa carroça. Sem luz própria, a feição do novo ministério é a de um ajuntamento para o desfrute da máquina estatal, posta a serviço do continuísmo do modelo econômico dominante. Um ministério apagado e de perfil baixo, que não manda, não pode e não vale nada, é de grande valia para os negócios que estão dominando a política.

 

Parece absurdo, mas faz sentido. Para os donos do poder real, partidários do Estado mínimo e, logo, do governo mínimo, é funcional que os titulares do primeiro escalão tenham a reputação próxima do zero. Com o cerne do governo plugado na casta financeira, o resto é de somenos. O Meirelles blindado é mais do que suficiente. E esta parte do governo funciona que é uma beleza. Exemplos? O rendimento da poupança estava incomodando os banqueiros e foi alterado sem delongas. Os resseguros privatizados precisavam de regulação para abrigar os interesses das grandes corporações e ela veio com a rapidez de um relâmpago. Ninguém empurra com a barriga nem protela, a máquina azeitada reconhece com presteza a voz do dono.

 

Na questão da crise aérea, outro assunto que dominou o noticiário dos últimos meses, se repete, como no caso da formação do ministério, a prevalência do protelatório. Há um gargalo na infra-estrutura aeroviária, semelhante ao da portuária, ferroviária, rodoviária e energética. O ganho financeiro viaja no virtual e faz pouco caso do mundo produtivo. O volume de investimento requerido para enfrentar com eficácia tais problemas não cabe na lógica do modelo dominante. Sendo assim, é assunto para empurrar com a barriga.

 

O governo, se tem, não sustenta com firmeza qualquer posição. Deixa azedar, protela, dilui responsabilidades e forja bodes expiatórios. Condição para a qual se encaminha a categoria dos controladores do tráfego aéreo, as primeiras vítimas da crise do sistema. O governo dá uma no cravo e outra na ferradura. Quando se reúne com os controladores se compromete com a sua pauta de reivindicações. Quando se reúne com a cúpula militar adere ao “prende e arrebenta”. O presidente se declara traído pelos controladores que, por sua vez, podem se declarar traídos pelo governo. O ministro da Aeronáutica e o outro que foi negociar com os grevistas podem usar, com propriedade, a mesma palavra forte. No jogo de empurra, a única decisão firme, pelo receio de que se descubram negociatas nos gastos da Infraero, é a de abafar a CPI.

 

O ministério apagado e o apagão aéreo são acontecimentos que lançam luz sobre o padrão de funcionamento do governo. Um padrão no qual se revela a marca do modo lulista de governar.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Última atualização em Qui, 05 de Abril de 2007
 

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