Com Vandalismo: ‘fomos atrás dessas pessoas e as acompanhamos na linha de frente’

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Centro da disputa ideológica em torno das grandes mobilizações que já estão na história do Brasil, a palavra “vandalismo” virou filme. Através da produtora Nigéria, de Fortaleza, Bruno Xavier e alguns colegas produziram um documentário a partir da linha de frente dos momentos mais tensos dos protestos de massa.

 

“A ideia do documentário “Com Vandalismo” veio depois que fizemos o registro da primeira manifestação em Fortaleza, no dia do Brasil x México pela Copa das Confederações. Nos deparamos com 80 mil pessoas, um número que nunca tínhamos visto em manifestação de rua, e resolvemos tentar registrar pelo nosso ângulo essa série de manifestações”, disse Xavier ao Correio da Cidadania, em outra entrevista realizada em conjunto com a webrádio Central 3.

 

Na conversa, Bruno afirma que a ideia é disputar o sentido do termo, utilizado à exaustão pela mídia conservadora, em claríssimo movimento de esvaziamento e desmoralização das manifestações de rua. Até por isso, ressalta o legado da produção midiática independente, outro marco do novo período de lutas que se abriu no país.

 

“O termo vandalismo vem da época do império romano, referindo-se a um povo rebelde. O que fazem é usar a palavra pra rotular pessoas e desmoralizá-las. Para depois usarem táticas não permitidas legalmente, mas justificadas, tendo em vista a repressão policial das manifestações”, explica.

 

Correio da Cidadania: O que levou vocês a produzirem o documentário ‘Com Vandalismo’? Vocês já realizavam registros de manifestações políticas e sociais?

 

Bruno Xavier: Na verdade, já acompanhávamos movimentos sociais há quatro anos, participando de suas atividades, principalmente no Comitê Popular da Copa, que, como se sabe, combate os impactos que a Copa do Mundo tem causado sobre a população.

 

A ideia do “Com Vandalismo” veio depois que fizemos o registro da primeira manifestação em Fortaleza, no dia do Brasil x México pela Copa das Confederações. Nos deparamos com 80 mil pessoas, um número que nunca tínhamos visto em manifestação de rua, e resolvemos tentar registrar pelo nosso ângulo essa série de manifestações, que começaram em São Paulo e depois chegaram aos outros estados.

 

Além do número de pessoas, o que também nos assustou foi a violência policial da primeira manifestação, inclusive atingindo um dos nossos produtores com uma bala de borracha no olho.

A ideia surgiu com foco no “vandalismo”, como a mídia tanto falava, pois vimos que os meios de comunicação não estavam conversando com as pessoas tachadas de “vândalos e baderneiros”.

 

Então, fomos atrás dessas pessoas, acompanhando-as na linha de frente das manifestações.

 

Correio da Cidadania: O que você destacaria no documentário, em termos da filmagem e das próprias cenas registradas?

 

Bruno Xavier: A dinâmica do filme foi basicamente acompanhar o que as pessoas chamavam de “vândalos”, esse grupo específico. O que também dá pra destacar no filme é a pluralidade de pessoas que falaram, com as mais diversas opiniões. Desde opiniões mais generalistas e preconceituosas até aquelas de quem estava na linha de confronto, tendo motivos claros pra entrar em choque com a polícia em dado momento.

 

Correio da Cidadania: As manifestações de junho também deixaram como um de seus ensinamentos o uso das tecnologias de mídia, ao alcance do cidadão comum, como ferramentas de contra-informação e produção própria de conteúdo. Até que ponto você acha que isso terá importância para as lutas populares?

 

Bruno Xavier: Essa ferramenta foi surgindo com destaque maior agora, nas manifestações. O que deu pra perceber é que, de fato, a mídia pode ser uma arma e qualquer pessoa pode ser mídia, no sentido de que ela pode gravar com celular, com câmera fotográfica ou mesmo tentar pensar num documentário. Assim, podemos, de fato, nos libertar de uma grande mídia preconceituosa, que tanto oprime os movimentos sociais.

 

Mas é claro que temos de tomar muito cuidado com a ascensão da mídia independente. Tampouco podemos endeusar toda a “mídia alternativa”. Temos de estar sempre de olho aberto sobre as informações que recebemos.

 

Correio da Cidadania: Por que o documentário explora tanto o uso da palavra “vandalismo”? É uma disputa política pelo próprio significado do termo, tão demonizado pela mídia?

 

Bruno Xavier: Sim, é pra disputar o termo. Às vezes dizem “ficamos falando que o Estado é vândalo” ou “ficam falando que somos vândalos”... Penso que, na verdade, o Estado não é vândalo. Ele é terrorista, imperialista, repressor.

 

O termo vandalismo vem da época do império romano, referindo-se a um povo rebelde. E o que fazem é usar a palavra pra rotular pessoas e desmoralizá-las. Para depois usarem táticas não permitidas legalmente, mas justificadas, tendo em vista a repressão policial das manifestações.

 

Não que a violência policial já não ocorresse com a classe trabalhadora, mas o que aconteceu nas manifestações foi a classe média também sendo oprimida pela polícia.

 

Correio da Cidadania: Como você descreveria o atual momento do movimento social em Fortaleza, que também viveu recentemente toda uma disputa em torno do Parque do Cocó, ocupado por pessoas que se opõem à sua destruição?

 

Bruno Xavier: A cidade está em um movimento bastante importante. O caso do Cocó apareceu após as manifestações de junho. O prefeito, em parceria com o governo do Estado, desmatou 94 árvores e 40 hectares, de um parque que é um dos poucos que ainda existem em Fortaleza.

 

Nessa ocupação, o que pudemos perceber foi um debate de diversos grupos que já participavam de manifestações e lutas antigas de movimentos, com uma integração entre eles a partir das manifestações de junho.

 

Foi, e ainda está sendo, um momento rico para que possamos construir formas de luta, maneiras de pensar numa nova cidade, num novo modelo de democracia. Isso que foi importante para nós na ocupação do parque do Cocó.

 

Correio da Cidadania: Em sua visão, como será o próximo período, com Copa do Mundo e eleições, em termos de mobilizações populares, especialmente em Fortaleza, uma das sedes do Mundial?


Bruno Xavier: É difícil imaginar, mas é possível sonhar que teremos um grupo bem mais forte e preparado de resistência àquilo que o Estado vem impondo. Ao menos em Fortaleza, o Estado impõe seus projetos de uma maneira muito forçada, com táticas muito fortes do que chamam de “higienização”.

 

Penso que a bola fora do governo nessas manifestações de junho foi, na realidade, agir de um jeito que serviu pra aprendermos o que são a polícia e o Estado, e de que formas devemos combatê-los, ao invés de ficarmos achando que a repressão é justificável.

 

Ouça aqui o áudio da entrevista.

Assista o documentário completo aqui.

Gabriel Brito e Leandro Iamin são jornalistas.

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