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A comida do agronegócio - um comentário ao texto de Zander Navarro Imprimir E-mail
Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)   
Qui, 26 de Setembro de 2013
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Conheci Zander Navarro aqui na CPT da Bahia, lá pelos anos 80. Era um pesquisador interessado em conhecer a realidade do campo, particularmente dos trabalhadores.

 

Vi o texto dele sobre a agricultura brasileira publicado no Estadão (Pá de cal na reforma agrária) e achei bastante interessante, embora tenha algumas leves divergências.

 

Aqui em casa a gente não come soja. Também não chupamos cana. Não bebemos etanol. Esse lixo alimentar das bolachinhas, biscoitinhos etc., nem pago. Tampouco mascamos eucalipto. Também não comemos galeto ou porco de granja, a não ser pelo castigo da ausência de outro alimento. Aliás, até aí está um agricultor familiar como base produtiva dos grandes frigoríficos.

 

Nossa comida ainda é o feijão nordestino produzido pela agricultura de sequeiro do semiárido. Isto mesmo, até na seca ele brota. Não pode faltar a farinha, embora esteja caríssima para um alimento tão básico de nossa dieta cotidiana. A carne é de cabrito, ovelha – famoso bode – ou galinha que vem das caatingas, sem antibiótico, hormônio ou outras mágicas do crescimento rápido. O peixe não é o de granja, a base da ração purina, mas ainda o do São Francisco, tão dilapidado pelo agro e hidronegócio. Sem falar que nossas verduras vêm das hortas comunitárias, uma grande criação de tantas associações de bairros e periferias.

 

Sim, infelizmente estamos deixando de comer cuscuz, simplesmente porque agora nas embalagens da massa de milho vem o “t” de transgênico. Aí não dá.

 

O agronegócio produz muita riqueza. É verdade. Aqui, nas feiras de agricultura irrigada, tem muito trator, implemento agrícola, tendas de venenos, outros insumos químicos e uma ou outra caixa de fruta, que um ex-secretário de agricultura de Juazeiro chamava de “frutas obesas”, por terem puramente água e nitrogênio. Se falarmos ainda no PIB do agronegócio, precisamos lembrar os aviões para jogar veneno nas plantas, mas também nas águas e pessoas. Claro, cada avião precisa de um piloto. Ainda não existe o drone do veneno, mas está aí uma sugestão.

 

Quando o pessoal que frequenta a feira da irrigação tem fome, eles vão ao “bodódromo” em Petrolina. Ali tem todo tipo de carne de ovelha e cabrito, com uma macaxeira frita, um feijão tipicamente temperado. É uma festa.

 

Portanto, se o agronegócio se extinguir, juro que não morreremos de fome e, talvez, a gente nem saiba que ele morreu. Mas, se tirarem nossos pescadores, nossos criadores de bode, nossos plantadores de feijão, nossos cultivadores de mandioca, nossos cultivadores de hortas nas periferias, aí te garanto que o desastre é completo.

 

Portanto, bom proveito para quem gosta do cardápio do agronegócio. Afinal, tem gosto pra tudo.

 

Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

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