Estados Unidos e Síria: a longa relação

0
0
0
s2sdefault

 

 

Logo após o fim da I Guerra Mundial, o Império Otomano desapareceu. Seu sucessor, a Turquia, seria despojado da maior parte do antigo território, especialmente o médio-oriental, partilhado com a autorização da Liga das Nações entre Grã-Bretanha e França.

 

Na nova organização internacional, colônias e domínios poderiam participar em tese, o que diretamente beneficiaria em termos de votos Grã-Bretanha e França e prejudicaria os Estados Unidos, não obstante ter sido o principal responsável pela vitória no duradouro conflito.

 

O objetivo maior da constituição de um organismo multilateral permanente foi o de prevenir disputas acérrimas por áreas na Ásia e África. As anexações – ou explorações - futuras deveriam derivar do concerto inicial entre as potências vencedoras da confrontação mundial, não mais do uso – ou ameaça – da força.

 

Sob a justificativa de que o globo estava em um momento singularmente tumultuado, os vencedores se propuseram a supervisionar de modo administrativo povos outrora pertencentes ao império otomano, alemão e russo. Nascia assim o sistema internacional de tutela, em substituição ao de conquista individual, aplicado na maior parte do século XIX.

 

Diante disso, a definição de critérios para a repartição dos territórios afro-asiáticos desembocou em três tipos. No topo deles, encaixar-se-iam nações consideradas pela Liga em avançado estado de cultura, como a síria, a iraquiana, a palestina, a libanesa, entre outras.

 

Naturalmente, aspectos econômicos contribuíram para a estrutura da classificação. No caso do Oriente Médio, o petróleo foi o elemento mais importante.

 

O acompanhamento na região seria temporário, até que houvesse o reconhecimento de condições de autogoverno, assinaladas por judiciário independente, desenvolvimento econômico, estabilidade política, defesa própria do território etc.

 

Assim, previram-se de modo gradual a independência do Iraque, sob o controle britânico, em 1932, e a da Síria e Líbano, sob o domínio francês, em 1940, adiadas estas em função da eclosão da II Guerra Mundial. Não obstante a presença anglo-francesa naquela parte do mundo, os Estados Unidos não deixavam de dedicar atenção a ela, até por considerarem a atuação européia provisória.

 

Mesmo oficialmente afastado da Liga das Nações, o governo norte-americano nunca deixou de resguardar de maneira bilateral seus interesses ao redor do mundo. Destarte, seus laços com a Síria, por exemplo, são bastante antigos, mesmo antes da independência formal.

 

Washington havia assinado em abril de 1924 um tratado com Paris por meio do qual se protegiam os direitos dos seus cidadãos e das suas instituições, especialmente as educacionais, religiosas e filantrópicas.

 

Muito bem negociado, o acordo incluía a consulta da França junto aos Estados Unidos no caso de eventual modificação na forma de administração do mandato sírio, com o propósito de verificar se isso não os afetaria.

 

Na segunda metade da década de 30, o governo francês decidiu estabelecer com a contraparte síria o cronograma de independência, ao ter por coroamento do processo janeiro de 1940. Ao tomar ciência disso, a diplomacia norte-americana pressionou para que a negociação fosse tripartite, o que não seria aceito pelos outros dois.

 

Com o início da II Guerra Mundial, o encerramento das tutelas médio orientais foi adiado. Com a constituição do chamado Governo de Vichy, de tendência fascista, a Alemanha enxergou na Síria o caminho para obter acesso ao petróleo do Iraque e à navegação no Egito, via canal de Suez.

 

A fim de granjear o apoio local, os alemães prometeram auxiliar os movimentos de independência, o que não era subscrito por franceses, britânicos e norte-americanos.

 

Com o evoluir da confrontação, Washington alteraria sua posição, com vistas a substituir politicamente Londres e Paris na área. Paralelamente, a Casa Branca se preocuparia em conter o desejo do Kremlin de se estabelecer também lá.

 

Assim, a segunda metade do século XX assistiria à substituição da disputa entre França e Grã-Bretanha pela dos Estados Unidos e União Soviética. Nela, alguns países, entre os quais a Síria, conseguiram desfrutar de certa autonomia.

 

Nos dias atuais, ante a impossibilidade de alterar imediatamente o regime político de Teerã, Washington lançou os dados em desfavor de Damasco na esperança de avançar no intrincado jogo de xadrez político daquela região.

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados