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Armas químicas: os EUA já usaram Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 20 de Setembro de 2013
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Entre 1962 e 1971, as forças armadas americanas pulverizaram o país com cerca de 20 milhões de galões de herbicidas e desfolhantes, os chamados Agentes Laranja, para despojar os vietcongs de alimentos e abrigos.

 

3 milhões de vietnamitas  sofreram os efeitos deste veneno, que contém Dioxina, um composto químico associado a câncer e diversos defeitos de nascença.

 

O governo do Vietnam calcula que esses ataques químicos causaram a morte de 400 mil pessoas e defeitos de nascença em 500 mil crianças.

 

Nem a França, nem o Reino Unido, nem nenhum outro país falou em punições para esta verdadeira atrocidade.

 

Comentando o uso do Agente Laranja, Christopher Busby, Secretário do Comitê Europeu Sobre Riscos de Radiações, disse que, embora não tivesse sido projetado para matar pessoas, “…produzia efeitos colaterais muito graves e eles (os americanos) não deveriam o ter usado, pois deveriam estar a par desses efeitos. Pelo menos, quando o usaram, deveriam ter constatado esses efeitos e deveriam ter parado de usá-lo imediatamente. Mas, não pararam”.

 

Parece que, nessa época, os EUA não consideravam as armas químicas tão hediondas assim…

 

Antes deles, os alemães foram os primeiros a usá-las de forma maciça, na Primeira Grande Guerra, contra os aliados.

 

Seu ataque mais devastador foi em Ypres, em 1915, matando 5 mil soldados ingleses e franceses.

 

Chocada, a comunidade internacional custou a reagir e, em 1925, pôde promulgar o Protocolo de Genebra, que proibia o uso (não a produção ou posse) de armas químicas e biológicas.

 

Somente na guerra Irã-Iraque, entre 1987 e 1988, o protocolo foi desrespeitado.

 

Coube a Saddam Hussein essa duvidosa primazia.

 

Mas teve quem o ajudasse. De acordo com documentos do governo iraquiano, a assistência técnica para o ditador produzir seus armamentos químicos veio de firmas dos EUA, Alemanha Ocidental, Holanda, Reino Unido e França.

 

Os EUA não ficaram nisso.

 

Conforme documentos da CIA e depoimento de um adido militar à embaixada de Bagdá na época, o governo americano forneceu inteligência para Saddam poder planejar e realizar 5 ataques contra os iranianos.

 

Neles, Saddam usou gás sarin.

 

Ronald Reagan, então presidente, estava plenamente informado disso, mas não deixou de ajudar seu então aliado.

 

Mesmo quando o ditador lançou ataques com sarin contra a cidade curda de Halaja, matando 5 mil civis, o governo Reagan não interrompeu seus prestimosos serviços.

 

Fez mais.

 

Em 1988, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução de Segurança 612, condenando fortemente o governo do Iraque pelo uso de armas químicas contra o Irã, “em clara violação do Protocolo de Genebra de 1925, que proíbe o uso de armas químicas na guerra.”

 

Os EUA foram o único país-membro  que votou contra.

 

Os efeitos dos ataques com gás sarin nos iranianos foram devastadores.

 

De acordo com o artigo publicado, em 2002, pelo Star-Ledger, 20 mil soldados foram mortos, 90 mil feridos, dos quais 5 mil continuavam a receber tratamento médico, sendo que 1 mil permaneciam hospitalizados.

 

Depois de usar o Agente Laranja à vontade na Guerra do Vietnam e de sua conivência com os ataques químicos de Saddam Hussein contra o Irã, os EUA persistiram no mau caminho na Guerra do Iraque, em 2003.

 

Por razões de interesse político, o ex-aliado Saddam Hussein, tornara-se, subitamente, talvez o inimigo público número 1 da humanidade.

 

Sua posse de armas químicas, que os EUA haviam antes defendido contra condenação da ONU, agora (juntamente com um alegado programa nuclear) passou a ser pecado mortal, que justificou a invasão do Iraque pelas tropas do presidente Bush.

 

Na ocupação do país, o mais duro combate ocorreu em Faluja.

 

Esta cidade rebelde foi alvo de terríveis ataques americanos, que usaram armas “fortalecidas” com dois diferentes elementos venenosos: o fósforo branco e o urânio empobrecido.

 

O resultado foi uma crise de saúde na região.

 

Em 2 estudos sobre o assunto, publicados em 2012, Christopher Busby (citado acima) declarou que Faluja apresentava “o mais alto nível de danos genéticos em qualquer população, que eu jamais estudei”.

 

Desde 2004, em relação aos anos anteriores, casos de câncer aumentaram 4 vezes, 12 vezes nas crianças com menos de 14 anos. Houve 38 vezes mais casos de leucemia e 12 vezes mais cânceres nos seios, além de significativos aumentos nos casos de linfoma e câncer no cérebro.

 

O Dr. Busby informou que os tipos de câncer em progressão eram semelhantes aos de Hiroshima, onde, por sinal, o aumento de casos de leucemia foi inferior ao de Faluja: 17 vezes contra 38 vezes.

 

Ele acrescentou que também foi muito grave a rapidez com que o câncer afetou as pessoas em Faluja.

 

Ainda aqui a França, o Reino Unido e o resto do mundo não qualificaram os bombardeios químicos americanos como hediondos.

 

Mas, em 1997, os EUA pareciam ter reconhecido seus erros e partido para uma ação assertiva para combater a ameaça dos armamentos venenosos.

 

Eles desativaram 31 mil toneladas de sarin, VX, gás mostarda e outros agentes que vinham mantendo estocados por 10 anos.

 

E se comprometeram a ir acabando com o que restava.

 

Não pegou nada bem quando, no ano seguinte, o presidente Clinton pressionou o Congresso para proibir os inspetores internacionais de fazerem inspeções não anunciadas previamente.

 

Deu a impressão de que a promessa de extinção dos estoques químicos não era pra valer. Que os americanos não queriam ser flagrados sem fazer nada para destruir seu arsenal químico.

 

Em 2001, o New York Times denunciou que, sem aprovação do Congresso e comunicação à Convenção de Armas Biológicas, “o Pentágono estava construindo uma ‘fábrica’ de micróbios, cuja produção poderia varrer uma cidade inteira”.

 

O Pentágono alegou que seu objetivo seria a defesa nacional. Curiosamente, o mesmo que Assad alegou para possuir amas químicas.

 

Sucessor de Clinton, o presidente Bush demonstrou suas más intenções quando forçou as nações da Organização para Proibição das Armas Químicas a demitirem seu diretor geral, o brasileiro José Maurício Bustami.

 

Tudo porque Bustami insistia em realizar rigorosas inspeções nas instalações dos EUA.

 

Pior do que isso: pressionava Saddam Hussein a assinar a Convenção de Armas Químicas, o que levaria à destruição do seu arsenal químico.

 

Com isso, desapareceria uma das duas justificativas da invasão do Iraque apresentadas por Bush.

 

O presidente americano também procurou enfraquecer a organização anti-armas químicas, negociando maiores prazos para que os países liquidassem seus estoques e dificuldades para a realização de inspeções.

 

Em 2007, ele conseguiu um prazo de 10 anos para os EUA.

 

Em 2012, com Obama, esse prazo foi estendido até 2021.

 

A comunidade internacional torce para que não haja mais adiamentos.

 

É verdade que, até agora, o presidente democrata não foi responsável por pecado algum na área dos crimes químicos.

 

Mas a atuação dos demais governos americanos depois de Kennedy (com exceção de Jimmy Carter) não deixa os EUA muito bem na foto.

 

Nem seu governo atual tem o direito de apresentar o país como “excepcional”, tradicional defensor da justiça e dos direitos humanos “além de suas fronteiras”.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

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