Estados Unidos: sem novidades no front da espionagem

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Há quase quinze anos, o crítico jornal Le Monde Diplomatique noticiava a existência de um amplo projeto de monitoramento eletrônico coordenado pelos Estados Unidos. Com orçamento acima de 25 bilhões de dólares, o programa incluía Nova Zelândia, Austrália, Grã-Bretanha e Canadá e abarcava informações provindas de telefonemas, fax e e-mails.

 

Com um sofisticado sistema de palavras-chaves em vários idiomas, a coligação anglo-saxã podia acompanhar toda sorte de atividades ao redor do globo: da segurança multilateral à negociação econômica em fóruns globais. Registrava ainda ser a atividade existente desde a década de 80, portanto, antes mesmo do encerramento da Guerra Fria.

 

Naquela época, o desenvolvimento, com a consequente popularização, das novas tecnologias estava muito aquém dos dias de hoje, vide o caso da telefonia. E mesmo assim já despertava a atenção de autoridades governamentais das principais potências, com o propósito de proteger suas informações sigilosas, especialmente no segmento militar.

 

Desta maneira, as revelações feitas pelo The Guardian nas últimas semanas não surpreendem, a não ser na extensão das possíveis captações e da posterior preservação da coleta de dados, indistintamente privados ou públicos.

 

A inclusão do Brasil como um dos alvos não causa comoção, haja vista ser o principal país da América Latina, região na qual a presença de peso ocorre em diversas organizações como o MERCOSUL ou a Organização dos Estados Americanos (OEA).

 

Além do mais, ao confirmar nas duas últimas décadas a opção agroexportadora, o país passou a destacar-se mais nas instituições relacionadas com o segmento, como a própria Organização Mundial do Comércio (OMC), ao contribuir decisivamente para a constituição do G-20, com naturais atritos com países da esfera norte-atlântica, ciosos defensores de seus interesses agrícolas.

 

Brasília negativamente chama a atenção para si, não por causa da queixa correta da prática indiscreta e desleal de Washington, mas em vista da insuficiência ao longo do tempo de investimentos na área cibernética.

 

A recente revelação pública do desguarnecimento digital pátrio deveria desencadear movimentação política similar à da marcha às ruas no semestre passado por parte do Executivo e do Legislativo.

 

Há à disposição do Brasil vários setores nos quais o Executivo poderia valer-se, após a elevação da dotação orçamentária, para a obtenção de conhecimento profundo na área, como a própria rede de universidades federais ou as forças armadas.

 

O próprio exemplo dos Estados Unidos talvez seja o melhor para basear-se: diante do conflito europeu no início dos anos 40, a Casa Branca firmou parceria com objetivo militar com as universidades da costa leste e com empresas daquela região. A aproximação resultou na descoberta de várias tecnologias, materializadas em computadores, aviões de jato, transistores, entre outras.

 

Sem sombra de dúvida, não se pode aguardar que o país possa no curto prazo fazer frente ao modo de supervisão de dados digitais dos Estados Unidos. Todavia, a sociedade não pode aceitar o atual ritmo governamental com vistas ao aprimoramento tecnológico.

 

De todo modo, a presente questão auxilia a desvelar a fragilidade do difundido status de potência do Brasil, aludido há anos tanto por peessedebistas como petistas, ao estarem à frente da Presidência da República.

 

Para tanto, nem se precisaria de bisbilhotice à distância; bastaria consultar o orçamento das duas últimas décadas, a fim de verificar quanto o país gasta com sua própria proteção, física ou digital.

 

Leia também:

EUA, a Espionagem e Dilma: um enigma a decifrar

Espionagem dos EUA: liberalização comprometeu soberania nacional - (Entrevista com Milton Temer)


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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