A anatomia da elitização dos estádios

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Há décadas se institucionalizou um preconceito de classe brutal dentro dos estádios de futebol e, só após a instauração de uma verdadeira barbárie, o debate da elitização do seu público parece ter vindo, de fato, à tona.

 

Colunistas esportivos, estudiosos e não estudiosos do futebol, gente que discute cultura em diversos aspectos e até jogadores já expressaram sua preocupação com esse assunto. Antes tarde do que nunca.

 

A verdade é que um bom número de torcedores já havia se antecipado ao problema, só não ganhou a devida atenção. Até certo ponto isolados, e tentando sempre alertar os companheiros de luta, algumas experiências de organizações supraclubística de torcedores já denunciavam a elitização dos estádios antes do início das demolições das clássicas praças desportivas.

 

Hoje, em curso e com efeitos devastadores, essa pauta caiu na boca do povo e começa a ser disputada, inclusive, da parte daqueles que a promovem.

 

A elitização dos estádios brasileiros expõe aspectos claríssimos da nossa formação enquanto povo. Uma fenda abissal que parece dividir aqueles que têm direitos e aqueles que não têm.

 

Basta lembrar da jornalista que falou "coitados dos brasileiros" ao desqualificar uma médica cubana por ter "cara de empregada". É essa mesma "ideologia" que, transferida ao futebol, aponta que o público deve ser elitizado através do encarecimento dos ingressos "porque sim, e pronto".

 

Vejamos o que fazem os "especialistas de gestão e marketing do futebol" (EGMF), dessa perspectiva. Como um ciclo vicioso, algumas etapas se complementam e seguem se repetindo desde o início dos anos 90.

 

No primeiro momento, inventam os mais variados salamaleques para garantir que suas propostas de mercantilização do futebol sejam tornadas unanimidades aos olhos dos leigos. São as pesquisas de mercado, as planilhas e os balanços e projeções, o exemplo ideal inglês etc.

 

No segundo momento, eximem-se de qualquer culpa por uma estagnação – ou pior, um retrocesso – do futebol dentro dos próprios termos que planejaram, com estádios cada vez mais vazios, atletas sem talento e jogos ruins. É assim porque a ideia de um EGMF é que não existem torcedores de clubes, mas uma massa homogênea de consumidores do futebol, seja ela qual for.

 

O terceiro momento, claro que não poderia faltar, é o apontamento de culpas. A violência das Torcidas Organizadas, a falta de profissionalização dos dirigentes, a teimosia dos clubes em não se tornarem empresa... Tudo se torna uma causa, menos a ideologia do futebol-mercado, que não funciona no mundo real brasileiro.

 

Pelo contrário. No fim das contas, o que se vê é que só se repetem seus efeitos catastróficos, e de soluções tão óbvias, sem culpados, senão os bodes expiatórios de sempre.

O caso recente da redução do valor dos ingressos dos jogos do São Paulo Futebol Clube é elucidativo. Objeto de críticas dos EMGF e de outros exemplares defensores do futebol-negócio, o clube nos brindou com um exemplo que, caso não vire o jogo temporariamente, pode servir de arma numa batalha que será longa.

Numa das piores campanhas de sua história em campeonatos nacionais, o São Paulo colocou nada menos que 55 mil torcedores em sua casa. O motivo foi o baixo valor dos ingressos, num horário adequado para ir ao estádio, isto é, a tarde ensolarada de um domingo, horário predileto de todo e qualquer perfil de torcedor de futebol.

Para piorar o choque dos especialistas, a renda do jogo foi amplamente superior ao que o São Paulo vinha arrecadando, com freqüência, no Morumbi. Como é surpreendente essa tal de lógica, não é mesmo?


Diante disso, não há como não pensar que a ideologia do marketing tem um lema muito claro: "O mundo está repleto de idiotas, que devem dar seu dinheiro para seres superiores, que somos nós, os marketeiros".

 

Irlan Simões é jornalista.

Publicado originalmente no Diário Liberdade.

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