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Devolvam o 11 de setembro para o Chile! Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Luis B. Santos, de Santiago, para o Correio da Cidadania   
Quarta, 11 de Setembro de 2013
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Enquanto os brasileiros comemoram mais um pacato 7 de setembro como outro qualquer, o Chile vive uma jornada intensa: hoje, 11 de setembro de 2013, se comemoram 40 anos do violento golpe de estado perpetrado contra o único governo de orientação verdadeiramente socialista até então eleito pela via democrática no mundo. Literalmente se “comemora”, trazendo à memória, recordando as diferenças, realizando balanços e resultando em poucas, muito poucas mea culpa.

 

Enquanto O Globo, em tom solene, reconhece tardia e discretamente ter sido um erro apoiar o golpe militar no Brasil, o Chile incrivelmente mantém condições que permitem que o principal jornal chileno El Mercurio critique o presidente milionário de centro-direita por atribuir responsabilidades à conivência da imprensa nos atropelos aos Direitos Humanos. Pior, continua buscando malabarismos retóricos para fazer-se de herói:

 

La única alternativa a ese modelo era entonces un esfuerzo incesante por relajar todas las restricciones, hasta llegar – caso al parecer sin precedente histórico - a que, al avanzar la década de 1980, hubiera medios de oposición beligerantemente activos durante el gobierno militar mismo, contribuyendo con eso decisivamente a una transición pacífica y democrática (Editorial de El Mercurio de 8 de setembro de 2013)

 

Enquanto os parentes de presos desaparecidos acendem velas, se preparam para marchar, protestar ou simplesmente chorar em silêncio as penas passadas, velhos fantasmas coniventes ou ativos do governo autoritário circulam livremente pelos corredores do palácio presidencial, administrações regionais, governos provinciais ou em funções administrativas, impunes e muitos deles, à semelhança do vergonhoso periódico El Mercurio, ainda convictos de ter agido bem.

 

Enquanto umas centenas de estadunidenses respiram fundo para celebrar seus parentes mortos no ataque às torres gêmeas logo na virada do século, milhares de chilenos continuam sofrendo os efeitos das bombas em La Moneda em 1973, entre exilados, marginalizados, torturados, desaparecidos, fuzilados, asfixiados, desmembrados, afogados, degolados, esquartejados e seus parentes.

 

Enquanto Obama hesita em empreitar outra cruzada catastrófica, desta vez contra meus ancestrais na Síria, para defender um suposto ideal democrático – o mesmo que atacou, na segunda metade do século XX, por toda a América, porque não podiam, nas palavras de Kissinger, deixar que o país se torne comunista pela “irresponsabilidade de seu próprio povo” –, o Chile, no fim do ano, irá optar se quer como próxima presidente a filha de um general assassinado na ditadura ou a filha do general assassino, conivente e protagonista da junta militar, suspeito de haver matado justamente o pai de sua oponente.

 

Enquanto procuram novos inimigos nacionais, outro arsenal de armas químicas (serão novamente imaginárias?), bodes expiatórios, eixos do mal, justificativas para o injustificável, será que os Estados Unidos não poderiam ao menos devolver o 11 de setembro para o Chile, já que eles mesmos patrocinaram o evento?

 

Marcelo Luis B. Santos é mestre em Ciências da Comunicação e Semiótica, professor, escritor e consultor em comunicação e democracia.

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Última atualização em Qui, 12 de Setembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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