Cientistas Políticos?

 

 

As academias têm produzido, em escala quase industrial, legiões de “cientistas políticos”. Caberia a eles desvendar os enigmas da nossa vida social e aclarar as questões pertinentes ao constante jogo de poder. Ora, não é possível que essa tarefa possa ser equacionada e resolvida a partir das academias burguesas, pois desvendar as causas de nossos problemas implica em constatar que as mazelas sociais e os imbróglios políticos têm como pano de fundo o capitalismo. Decorrente desse fato, o trato dessas questões tenderia em levar a uma postura revolucionária, anticapitalista, e isso jamais poderia ser patrocinado pelo próprio sistema.

 

As escolas têm duas tarefas a cumprir. A primeira é a de qualificar mão-de-obra para o mercado. A segunda é a de consolidar a ideologia das classes dominantes, dando-lhes respaldo por conta do prestígio decorrente das titulações do tipo bacharel, mestre, doutor, pós-doutor...

 

Diante disso, rejeitamos a ideia de que possa o saber oficial produzir um conhecimento que leve à contestação do próprio sistema capitalista. É em função dessa impossibilidade real dos “cientistas políticos”, forjados pelas academias burguesas, de empreender um trabalho que nos leve a situar as causas dos males sociais e os caminhos pelos quais devemos trilhar para superá-los, é que clamamos pelo restabelecimento do livre debate e da reflexão necessária, para nos trazer a lucidez política no encaminhamento de nossas tarefas. E isso não haverá de se dar sob a permissão e o patrocínio da burguesia.

 

Por conta da natural confusão e da ineficiência dos chamados “cientistas políticos” é que vemos esses senhores revelarem-se incapazes de perceberem as diferenças entre governo e poder, redundando em sua incompreensão, com formulações políticas das mais desastrosas consequências.

 

Outro obstáculo que se coloca para os discípulos da academia burguesa é compreender o caráter de classe do Estado. Isso redunda, também, em posições desastrosas, tanto na percepção da realidade política, como na proposição dos encaminhamentos. Em suma, poderíamos dizer: há uma total impossibilidade de um aparelho político e ideológico da burguesia, como é a academia, fornecer um conhecimento em contraposição ao próprio sistema.

 

Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

Blog: www.gilvanrocha.blogspot.com

Comentários   

0 #1 RE: Cientistas Políticos?Osmir Dombrowski 07-09-2013 11:24
Caro Gilvan,
Como defender a educação pública a partir do seu argumento? Se a natureza estatal da educação contamina todo seu resultado, a lógica sugere que deveríamos abandonar a luta pelo ensino público?
Trata-se na verdade de um erro bastante ingênuo. Ele decorre de uma visão de mundo que não percebe a dialética da história e não percebe que mesmo no interior do aparelho de Estado (da máquina) existem contradições. Não percebe que a luta de classe permeia também as relações no interior do sistema educacional, incluindo a academia. E nessa visão parcial não percebe também que existem cientistas políticos marxistas, como de resto médicos, engenheiros, advogados e jornalistas, formados em escolas públicas...
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