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Reação elitista aos médicos cubanos Imprimir E-mail
Escrito por Plínio Gentil   
Segunda, 02 de Setembro de 2013
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E tome sindicatos, Veja e Profissão Repórter. Corporações de médicos brasileiros, aliadas à mídia conservadora – o que é um casamento fácil, dada a acomodação da parcela mais falante dos doutores no andar de cima –,  reagem furiosamente à chegada dos primeiros médicos de Cuba. Estes vêm, pagos pelo governo federal, prestar aos pobres o direito social à saúde que todos os brasileiros têm, mas não recebem.

 

Muito se tem publicado sobre o assunto e não é só por parte dos amigos dessa elite médica. Jânio de Freitas (Folha, 26/8/2013) chamou de doentia a reação aos cubanos e nela viu um recheio ideológico, saudoso da guerra fria. Paulo Moreira Leite, dia 24, na Isto É, detectou um anticomunismo primitivo e chamou a atenção para o fato de que os médicos brasileiros não querem trabalhar em lugares sem charme, nem aqueles formados em faculdades públicas têm a menor intenção de retribuir o que o país lhes deu em ensino e futuro. Num site denominado “limpinho e cheiroso”, vi por estes dias um texto de alguém que se denomina Wando já esculachando e, irônico, pedindo para o Brasil médicos padrão Fifa, de preferência suecos ou, no mínimo, canadenses.

 

De resto, as reportagens vêm, de maneira geral, resumindo bem o espírito com que o corporativismo médico está recebendo seus colegas cubanos. É de nos envergonhar como brasileiros. Já estou pensando no que dizer para uns amigos cubanos, educadores que percorrem o mundo empolgados com a idéia de ser possível fazer as pessoas enxergarem o que verdadeiramente as oprime. E de que, uma vez enxergado, todos possam perceber o quanto a desigualdade – financeira e comportamental – é injusta e ridícula.

 

O porquê da chiadeira é fácil entender. Tendo estudado em colégios caros e vivido em ilhas de fantasia proporcionada por ricos pais que os mimaram, muitos dos doutores, notadamente os que cursaram, de graça, faculdades públicas, acham-se finos demais para se meterem pelo interior pobre do país e atenderem gente com bicho de pé, gonorréia, doença de chagas, esquistossomose e outros males pouco atraentes. Ou lá fazerem medicina preventiva, que é mais barata para o paciente, mas também não rende para os laboratórios. Querem reserva de mercado, mas só aceitam instalações de primeiro mundo. São chiques. Se pudessem, estavam todos no Einstein.

 

Meu bisavô era médico parteiro, como se dizia. Viajava a cavalo para atender colonos nas fazendas, ficava dias e voltava padrinho de muitos recém nascidos. Meu avô, também médico, fazia quase o mesmo, só que de carro. Meu pai, outro médico, atendia em posto de saúde e chegou a se empregar em várias clínicas ao mesmo tempo, para pagar as contas da casa. Nenhum deles, que eu saiba, tinha a seu dispor aparelhos eletrônicos refinados, com nomes estranhos, e todos eles viviam com simplicidade, com conforto, mas sem terem enriquecido.

 

Boa parte dos brasileiros está anestesiada pela identificação do sucesso com o dinheiro – e tudo de supérfluo/inútil que compram com ele. Estes têm enorme dificuldade de compreender como é que um médico aceita receber "apenas" 4.000 reais para si próprio e deixar que os outros 6.000 reais vão para o Estado cubano. Esses brasileiros pensam com a cabeça que o capitalismo esculpiu, não sabendo, ou fingindo não saber, que em Cuba, um país socialista, com toda sua falta de recursos naturais e industriais, um sujeito nasce e morre não tendo gastado um centavo de peso com saúde, escola, faculdade, cultura, previdência ou moradia.

 

Tudo isso, não custa lembrar, são direitos fundamentais assegurados a todos pela nossa Constituição cidadã. Por isso o Estado cubano "fica" com os 6.000 reais restantes dos médicos, que com certeza não vão ser torrados numa Copa do Mundo, nem num "Aerolula", nem em guerras de agressão. Por isso também o cubano, médico ou varredor de rua, ganha quase o mesmo salário – não sente a necessidade doentia de consumir e consumir e consumir, como muito brasileiro, que, vivendo na periferia do capitalismo, compra quilos de coisas inúteis, mata por uma etiqueta de grife, fica com mercadorias que lá na sede já são sucata e, o que é ainda pior, baba para os que têm ou ostentam mais do que ele.

 

Cuba não é uma maravilha e isto não é uma defesa ideológica do seu regime político. Mas a reação à vinda dos médicos cubanos é ridícula e vergonhosa e, ela sim, ideológica. E, o que é mais constrangedor, eles já perceberam e estão tirando de letra. “Não viemos mudar nenhum sistema social, viemos aprender com nossos colegas e poder ajudar o povo pobre com carência de atenção médica primária adequada”, disse a doutora Natasha R. Sanchez, assim que desembarcou em Recife, em 24 de agosto, já conhecendo a hostilidade de parte dos anfitriões.

 

Cuba, com todos os seus problemas, não pode deixar de impressionar o visitante com uma certa altivez do seu povo. Penso que dificilmente vamos entrar na casa (por mais simples que ela seja – e normalmente é) de alguém e ouvir aquele constrangedor: "Não repare, é casa de pobre". Essa sensação de inferioridade social de alguns parece desconhecida por lá. Isso é outra coisa que muito brasileiro custa a compreender.

Plínio Gentil, doutor em Direito (PUC-SP) e em Fundamentos da Educação (UFSCar), é professor universitário de Direito Penal, Processo Penal e Ciência Política,  Procurador de Justiça criminal no Estado de S. Paulo, integrante do Movimento do Ministério Público Democrático e vice-presidente da Associação de Proteção à Cidadania (APC).

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Última atualização em Quarta, 04 de Setembro de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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