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‘Numa sociedade desigual, não basta a filantropia; é preciso fazer a opção pelos pobres’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Leandro Iamin, da Redação   
Sábado, 24 de Agosto de 2013
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Encerrada a visita do papa Francisco, por conta da Jornada Mundial da Juventude, o clima geral na opinião pública foi de aprovação do cardeal Jorge Mario Bergoglio, que tenta revigorar a Igreja e traz um discurso há muito esquecido voltado aos pobres. Mesmo em setores da igreja católica, o otimismo com o novo papado se faz presente.

 

Por conta de tal novidade, o Correio da Cidadania entrevistou o frei carmelita Gilvander Luís Moreira, conhecido por seu ativismo político e social em Minas Gerais, marcado por apoio a ocupações urbanas e rurais, e também na denúncia dos alimentos transgênicos, o que inclusive lhe rendeu perseguições políticas e judiciais em seu estado.

 

Em mais um trabalho de parceria com a webrádio Central3, Gilvander mostra contundência na análise, sem chegar a ser pessimista. “É preciso engajar-se nas lutas por justiça, e numa sociedade desigual como a nossa é preciso fazer a opção pelos pobres, como o papa pediu. Isso implica apoiar, na prática, a reforma agrária, as ocupações urbanas e rurais. Implica frear essa idolatria do mercado”.

 

Centrando seu discurso na luta social, Gilvander reitera que o papa Francisco deve estar ao lado dos pobres no sentido de empoderá-los, o que significa contrariar frontalmente o status quo, além de criticar duramente a Igreja no que se refere ao campo dos costumes. “Em todos os assuntos que dizem respeito às questões éticas e morais, a Igreja está pra lá da retaguarda. Tem muito que aprender com a sociedade e especialmente com as pessoas que sofrem as discriminações”.

 

Correio da Cidadania: Em linhas gerais, qual o balanço que o senhor, como membro da ala progressista da Igreja, faz da visita do papa Francisco ao Brasil?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: É um balanço positivo. Eu, pessoalmente, não fui participar da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro porque preferi ficar em Minas Gerais, ajudando na realização da 17ª Romaria da Terra e das Águas do estado de Minas Gerais, acontecida no dia 21 de julho, na cidade de Miradouro, Zona da Mata.

 

Reunimos, por lá, cerca de sete mil pessoas durante o dia inteiro. Antes, fizemos uma semana de missões e, entre os dias 26 e 28 de julho, estive no oeste da Bahia, assessorando o 6º Encontro Diocesano das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), ao lado da Diocese de Barreiras. Durante aquela semana, acompanhei a mais nova ocupação urbana em Belo Horizonte, com cerca de 800 famílias, sem casa e sem terra, numa grande área abandonada aqui.

 

Assim, eu senti que junto dos pobres eu estava numa boa sintonia com o papa Francisco. Acho que ele deixou sua mensagem através dos seus testemunhos e gestos de simplicidade, falando e testemunhando que os católicos e as pessoas cristãs são convidadas a exercer proximidade, ternura, a estarem do lado dos pobres, fazendo, de fato, a opção pelos pobres e fugindo das posturas moralistas.

 

Eu fiquei feliz, faço um balanço positivo da passagem do papa pelo Brasil.

 

Correio da Cidadania: O que teria a dizer do envolvimento e contribuição dos distintos governos para a realização de todos os eventos que marcaram sua passagem por aqui, especialmente no que se refere aos gastos financeiros?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: Por um lado, temos que ser realistas e ter certa segurança em torno de uma autoridade como é o papa. Não são todas as autoridades que exercem grande responsabilidade pública e acho que isso é compreensível.

 

O que eu lamento é arrumar o Rio de Janeiro maquiando certas áreas, fazendo higienização, promovendo uma limpeza por onde o papa ia passar. Isso foi lamentável.

 

Acredito que tudo poderia ser bem mais simples e ficaria mais condizente com a proposta do papa, de proximidade e simplicidade.

 

Correio da Cidadania: O que pensa a respeito das diversas acusações a respeito de sua relação com a ditadura argentina?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: Ninguém é perfeito. Todos nós somos humanos, inclusive o papa. Tem gente que imagina que o papa é perfeito, imaculado, mas não é. Eu acho que existem mais do que indícios dessa colaboração.

 

A história demonstra também que o papa Francisco, comparando aos dois papas anteriores, João Paulo II e Bento XVI, está sendo bem melhor. Mas ainda acho que cabe a pergunta de se o papa Francisco terá, por exemplo, magnitude equiparável ao papa João XVIII, que convocou o Concílio Vaticano II, ou ao Paulo VI. Ambos foram papas extraordinários, muito importantes.

 

Sua postura enquanto bispo e cardeal na Argentina, tentando salvar algumas pessoas da ditadura, mas não assumindo uma postura firme de denúncia contra esse sistema autoritário e fascista da ditadura civil, militar e empresarial, é lamentável.

 

No Brasil, tivemos grandes exemplos disso. Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Thomas, Dom Tomás Balduíno, Dom Antônio Fragoso, Dom Helder Câmara e os freis dominicanos, como Frei Betto, Frei Tito (que pagou caro), Frei Fernando de Brito, que esteve quatro anos no cárcere...

 

 

Portanto, é uma mancha que está na história do papa e não tem como apagar. Só se ele intensificasse um importante processo de conversão. É possível, como o arcebispo Dom Oscar Romero, em El Salvador. Ele foi nomeado bispo auxiliar de El Salvador porque era considerado conservador, mas, diante da ditadura militar, foi pouco a pouco se convertendo (chegaram até a assassinar seu secretário, o Padre Rutílio Grande).

 

 

Espero que o papa Francisco se liberte ao máximo e não tome pra si as coisas horrorosas da cúria romana. Mas que continue num processo bonito, de ouvir os clamores dos porões da humanidade e do povo brasileiro. Quem sabe, no futuro, possa ter outra postura.

 

 

Por exemplo, eu ficaria muito feliz de vê-lo, de uma forma muito aguerrida, condenando a gravíssima idolatria do capital, afinal, o capitalismo é uma ditadura econômica que está matando milhões de pessoas mundo afora.

 

Correio da Cidadania: Como avalia a estratégia de Francisco, e talvez da própria Igreja (que pela primeira vez elegeu um latino-americano como sumo pontífice), de se apresentar como um papa dos pobres?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: Eu fico feliz, inclusive ele até fez questão de confirmar o que tinha chegado de notícia aqui no Brasil, de que Dom Cláudio Hummes, logo após sua eleição no conclave, teria lhe dito ao pé de ouvido: “não esqueça os pobres”.

 

Aliás, é a recomendação do grande apóstolo Paulo, após o Concílio que entrou para a história, assim como o Conselho Ecumênico de Jerusalém por volta dos anos de 1949, 1950, quando as primeiras comunidades resolveram romper com o grande símbolo: a questão da circuncisão era um símbolo. Tinha se tornado um tabu e estava sendo sinal de marginalização dos estrangeiros que entravam nas comunidades cristãs.

 

E aí, como resultado, a única coisa que o apóstolo Paulo pediu foi: “não esqueça os pobres, continue fazendo opção pelos pobres porque o Deus da vida, o Deus de infinito amor, ama a todos”.

 

Mas é a partir dos pobres que começa. Nessa perspectiva, é importante a gente recordar o grande ensinamento que o saudoso pedagogo Paulo Freire gostava de passar: “devemos amar todas as pessoas, mas não podemos amar todos da mesma forma. Devemos amar os oprimidos, nos colocando ao lado deles, para, com eles e a partir deles, lutarmos pelos seus direitos em processos libertários, de direitos humanos. E devemos amar os opressores, fazendo o possível e o impossível para retirar das mãos deles as armas de opressão”.

 

Falar sobre tais questões já é o primeiro passo. Espero que o papa Francisco continue dando o exemplo, com um sagrado puxão de orelha que convide e afirme que diáconos, padres, bispos e leigos das igrejas realmente tenham a grandeza de se colocarem ao lado dos pobres. Não numa postura apenas de solidariedade e misericórdia, mas percebendo hoje que não basta a gente exercer ações, atuações de solidariedade, misericórdia, assistência social, filantropia. Isso 99% da sociedade faz.

 

É preciso engajar-se nas lutas por justiça, e, numa sociedade desigual como a nossa, é preciso fazer a opção pelos pobres, como o papa pediu. Isso implica apoiar, na prática, a reforma agrária, as ocupações urbanas e rurais. Implica frear essa idolatria do mercado.

 

A gente precisa passar a conviver com valores de uma sociedade mais austera, que saiba viver com pouco, com o simples, construindo uma sociedade sustentável, priorizando as áreas sociais, mudando a política econômica – totalmente idólatra, porque privilegia os grandes banqueiros, algo totalmente contraditório a uma opção pelos pobres, que o papa agora incentiva.

 

Correio da Cidadania: Mas como interpretar seu discurso sobre a pobreza? Trata-se de vivê-la ou de combatê-la, na perspectiva Papal?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: Claro que é bom ter um discurso a favor dos pobres, animando todos para a solidariedade, para a misericórdia, para o cuidado. Mas o discurso é muito mais fácil do que uma prática concreta, política e social de opção pelos pobres, pois implica contrariar interesses.

 

Eu vejo claramente isso, já que há mais de vinte anos, como assessor da Comissão Pastoral da Terra, venho acompanhando a luta pela reforma agrária em Minas Gerais, as ocupações urbanas de Belo Horizonte e em várias outras cidades de Minas.

 

Eu percebo claramente quando apoiamos os movimentos sociais populares, que de fato entendem que devemos nos relacionar com os pobres, mas não os considerando objeto ou carentes, e sim nos aproximando dos pobres para empoderá-los e fortalecer suas lutas por direitos e justiça.

 

Isso implica em incomodar o status quo. Por exemplo, na luta específica da reforma agrária ou urbana, ocupando as propriedades rurais e urbanas que não estão cumprindo a função social (coisa garantida pela Constituição, pela bíblia e pelos direitos humanos também), incomodamos os especuladores, os grandes proprietários, a classe dominante. Optar pelos pobres significa perder apoio dessa turma.

 

Isso aí é uma decisão que eu espero que daqui pra frente o papa tenha firme, com posturas concretas, porque não basta sermos solidários, é preciso lutar por justiça.

 

Correio da Cidadania: Partindo para o campo dos costumes, onde em nosso país a Igreja tem enorme influência, inclusive parlamentar, como avalia seus discursos e posições? O que podemos esperar desse Papado a respeito dos principais tabus da igreja (sexualidade, status social e eclesial das mulheres, aborto, divórcio, direitos LGBT etc.)?

 

Frei Gilvander Luís Moreira: Olha, este é um calcanhar de Aquiles, é um assunto complexo. A Igreja, como instituição, vai ter de dar muitos passos para dialogar e entender as chamadas minorias discriminadas e oprimidas, que na prática não são minorias, mas maiorias numéricas, violentadas de diversas formas.

 

Em todos esses assuntos que dizem respeito às questões éticas e morais, a Igreja, infelizmente a história demonstra, não está na vanguarda, de jeito nenhum. Está pra lá da retaguarda. Muitas vezes falando, mas o povo não a ouve mais.

 

Eu acho que a sensatez tem de passar para uma descoberta de que, nos assuntos de afetividade e sexualidade, não dá pra gente ter posturas moralistas, frutos de princípios abstratos de filosofias tomistas, e depois querer enquadrar as pessoas, suas vidas e histórias concretas. Não dá. O mais sensato nesses casos é ter a grandeza de ouvir muito as pessoas que são discriminadas. Em todos os casos.

 

A questão da mulher, por exemplo: o sacerdócio feminino na Igreja é um grande tabu. Mas é uma grande injustiça. Se olharmos a história, no novo testamento da bíblia pode ser visto que as primeiras comunidades cristãs tinham diaconisas e apóstolas. Por que agora não pode haver diaconisa mulher? Existiam apóstolas. Por que não pode haver bispas mulheres, sacerdotisas? O século XX entrou para a história como o da emancipação da mulher. Outras várias igrejas cristãs já ordenam as mulheres.

 

Outro exemplo: até o século XIII, o celibato não era obrigatório. A Teologia da Libertação e seus teólogos dizem: é uma prescrição que nasceu no século XIII, em que reinava o espírito da Idade Média. Havia muita gente fazendo testamento e doando suas posses antes de morrer para a Igreja. Foi aí que cresceu enormemente o poder econômico da Igreja.

 

Depois, colocaram a lei do celibato, motivada claramente pela estratégia de não partilhar o poder econômico. Tudo altamente questionável. No mínimo, poder-se-ia deixar a questão como opcional, para o sacerdócio. Se o padre quiser casar, case; se não quiser, não case.

 

Já sobre a união civil homossexual, que inclusive o Supremo Tribunal Federal já aprovou, eu tive a responsabilidade de escrever um pequeno texto e conceder uma entrevista para o jornal O Globo. Depois, muita gente me agradeceu, outras pessoas ficaram bravas demais comigo, pois eu compreendi e apoiei a união civil homossexual.

 

Na questão do aborto, eu pessoalmente não tenho coragem de dizer, como princípio, que sou a favor. Mas também percebo claramente que é uma postura teórica e abstrata dizer simplesmente assim: “sou contra todo e qualquer tipo de aborto”, pensando que, com essa postura, moralista e abstrata, está se defendendo a vida concreta e real. É mentira. Até o Código Penal já prescreve punição em caso de estupro, de risco de vida para a mãe...  Além disso, são conhecidas as estimativas de milhões de abortos que acontecem clandestinamente no Brasil e no mundo.

 

E existem muitos exemplos e notícias de como se lida com a questão, em Cuba, na Alemanha, na Holanda, países onde é legalizado. Antes de tudo, há uma grande e concreta rede de proteção, cria-se um comitê gestor para acompanhar a família, a mãe, com presença de pastor ou de padre, religiosos, psicólogos, assistente social... A mulher quer abortar por quê? Se está desempregada, vem a assistente social e ajuda. Tem alguém que adota a criança? Se não, uma rede social arruma emprego pra ela e melhora a questão econômica.

 

Em Cuba, por exemplo, desde antes de a mulher engravidar, ela já tem alimentação de qualidade, um acompanhamento médico preventivo ótimo. São propostas concretas de proteção à vida, e não apenas posturas moralistas.

 

Na questão da homofobia, a Igreja e muitos de seus membros têm dificuldade de compreenderem o sagrado direito de existir na sociedade, qualquer seja a orientação sexual. É uma burrice, uma postura anticristã, um pecado, um crime a homofobia e a discriminação da dignidade de uma pessoa simplesmente pela sua orientação sexual.

 

É cinismo, e já vi livros da Renovação Carismática, com tendência mais conservadora, ou da Canção Nova, dizerem: “ser homossexual não é pecado, desde que não se coloque em prática”.

 

Aí chega um homossexual pra confessar comigo e pergunta: “frei Gilvander, é pecado ou não é?”. Depois eu fico uma hora ouvindo e conversando, e a pessoa diz: “eu fiquei muito tempo sem revelar para as pessoas. Mas sinto essa atração, não pedi para ser assim. Por que agora eu sou excomungado por Deus? Discriminado na família, no trabalho ou na escola? Porque, se for realmente pecado, eu vou me suicidar”. Por questão de amor ao próximo e respeito à dignidade, só posso dizer: “não é”. Por que vamos colocar um fardo tão pesado nas costas dos outros? Enquanto o evangelho diz claramente: “não coloque fardos pesados, principalmente em nome de Deus, nas costas das pessoas”.

 

Portanto, nessas posturas e questões morais, a Igreja ainda tem muita estrada. Tem muito que aprender com a sociedade e, especialmente, com as pessoas que sofrem as discriminações.

 

Ouça aqui o áudio do programa

 

Gabriel Brito e Leandro Iamin são jornalistas.

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Última atualização em Qui, 29 de Agosto de 2013
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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