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A quem interessa a baderna? Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 21 de Agosto de 2013
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A continuidade das manifestações populares, mesmo em menor escala, já era esperada. Há uma série de problemas e reivindicações locais que afetam diferentes setores da população. E, como as manifestações de rua se mostraram instrumentos importantes de pressão, seja sobre empresas, seja sobre governos e parlamentos locais, é natural que os reivindicantes apelem para elas. Por outro lado, seria ilusão supor que tais manifestações não se tornariam arena de disputas políticas.

 

Aparentemente, apenas a ultraesquerda está em todas. Na prática, fica cada vez mais evidente que a ultradireita também está lá, sem bandeiras, mas de capuz. Olhando com atenção as manifestações de cem, duzentas ou mais pessoas, não fica difícil localizar uma minoria, às vezes de cinco a dez mascarados, que se dedica a “atacar o capitalismo” quebrando portas, vitrines, postes, telefones públicos, e o que mais haja a ser destruído em sua passagem.

 

Além disso, olhando com um pouco mais de atenção, é impressionante que a polícia passe ao lado desses mascarados sem tomar qualquer atitude, no mais das vezes descarregando sua repressão sobre os de cara limpa. Algo estranho? De forma alguma. Nas grandes manifestações de junho e julho, as mesmas cenas se repetiram à exaustão. O que leva qualquer pessoa mais atenta a concluir que há algum tipo de acordo, real ou tácito, entre as forças policiais e os encapuzados.

 

Cá entre nós, é estranho que, a essa altura dos acontecimentos, com todo o aparato de “inteligência” existente nas polícias, estas ainda não tenham mapeado quem são os poucos membros dos pequenos grupos que quebram e destroem bens públicos e privados e não os tenham levado à justiça para responder por atos de vandalismo. Tal omissão só pode ser explicada se a própria polícia, e também o ministério público, estiverem de acordo com os objetivos buscados por tais grupos paramilitares.

 

O mais provável é que tais grupos estejam a serviço daqueles que pretendem colocar o conjunto da população contra os manifestantes, já que estes até agora não se mostraram capazes de conter as ações de vandalismo. A continuidade da baderna levaria, no final das contas, a população a aceitar com indiferença a repressão policial contra as manifestações e, portanto, contra o direito democrático de protestar nas ruas.

 

No entanto, também não é algo fora de cogitação que tais grupos tenham pretensões ainda mais ambiciosas, de criar um ambiente favorável a aventuras golpistas. Não esqueçamos que todos os golpes de Estado da história brasileira foram consumados a pretexto de “manter a ordem”. Se isto for verdade, a baderna interessa fundamentalmente à direita conservadora e reacionária, que domina a economia e a riqueza brasileira, e tem pânico de que o povo se acostume a praticar a democracia.

 

De qualquer forma, quaisquer que sejam os objetivos desses grupos, os setores populares que pretendem se manifestar democraticamente nas ruas não podem deixar a contenção deles a cargo da polícia. Precisam aprender a deixá-los à mostra, e de tal forma que, para a população em geral, fique evidente não só seu pequeno número de seus participantes, mas também a omissão policial. É esta que deve ser responsabilizada por só intervir quando o quebra-quebra já aconteceu.

 

Este é um aprendizado que precisa ser cursado com a ajuda daqueles que viveram as lutas populares dos anos 1970 e 1980, contra a repressão ditatorial militar. Em outras palavras, a baderna não interessa à esquerda e esta deve estar junto aos manifestantes, contribuindo com sua experiência para isolar aqueles que, com o falso pretexto de combater o capitalismo, na verdade contribuem para enfraquecer a luta democrática da maioria.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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