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A CIA e o controle do clima Imprimir E-mail
Escrito por Silvia Ribeiro   
Terça, 06 de Agosto de 2013
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A CIA está financiando um estudo de geoengenharia (manipulação climática) que durará 21 meses, com custo inicial de 638 mil dólares. A Academia Nacional de Ciências é quem o executará, com participação da NASA e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (revista Mother Jones, 17/07/2013).

 

O interesse da CIA pela manipulação do clima não é novo, mas essa participação é significativa devido às implicações bélicas que se têm da possibilidade de manipular o clima e a pressão atmosférica, e à pressão que estão exercendo os proponentes da geoengenharia naquele país, a fim de avançar na experimentação de tais técnicas, apesar de existir uma moratória na Organização das Nações Unidas contra sua aplicação.

 

O projeto analisará diferentes propostas de geoengenharia, como o manejo da radiação solar e remoção do dióxido de carbono da atmosfera; também estudaram os efeitos da introdução de nuvens e outras formas de manipular o tempo atmosférico para provocar chuvas, secas ou controlar furacões. Segundo a descrição oficial, farão uma avaliação técnica dos impactos destas tecnologias, do ponto de vista ambiental, econômico e de segurança nacional.

 

Esses últimos são os aspectos que preocupam a CIA, que em documentos anteriores qualificou a mudança climática e o controle do clima como fatores de importância geopolítica e segurança nacional estratégicos.

 

Apesar disso, os republicanos votaram pelo desaparecimento do Departamento de Mudança Climática da CIA, o que segundo a agência a motivou a financiar esta iniciativa. As razões poderiam ir muito mais longe, já que o controle do clima é um projeto militar de longa data no país, que realizou experimentos já durante a guerra do Vietnã, provocando chuva por meses seguidos para inundar as plantações e caminhos dos vietnamitas. No mesmo sentido, a Força Aérea estadunidense publicou em 1996 um documento intitulado Weather as a Force Multiplier: Owning the Weather in 2025 (O Clima como multiplicador do poder/força: Possuindo o clima em 2025), cujo título reflete claramente suas intenções.

 

Esses interesses convergem com os de um grupo pequeno, mas influente, de climatologistas e outros cientistas de países do norte, que alegam que a geoengenharia é necessária porque não se pode reduzir rapidamente as emissões de gases que contribuem com o efeito estufa (como se seus países não fossem aqueles que devem tomar as principais medidas em relação a isso). Ou, como declarou David Keith, um conhecido entusiasta da geoengenharia, porque “é um plano barato e fácil” (MIT Technology Review, 8/2/2013).

 

Sim, barato e fácil para aqueles que causaram a mudança climática com seu super-consumo de recursos e sua industrialização baseada no petróleo, porque, no lugar de reduzir realmente suas emissões, poderiam seguir aquecendo o planeta e ainda fazer um suculento negócio com novas tecnologias que manipulem o clima de todos, para baixar ou subir a temperatura segundo convenha aos interesses econômicos e bélicos de quem a controle.

 

Sob o termo manipulação da radiação solar, a meta é diminuir a quantidade de raios solares que chegam à Terra. Por exemplo, através da construção de enormes nuvens vulcânicas artificiais, injetando-as com partículas de enxofre. Outras propostas incluem branquear nuvens, colocar trilhões de espelhos no espaço para refletir a luz solar e, a mais recente, do mesmo David Keith, dispersar ácido sulfúrico de aviões na linha equatorial para que se misture com as nuvens.

 

Quanto à remoção de dióxido de carbono, incluem-se outras técnicas, como máquinas ou árvores artificiais que absorvam carbono da atmosfera (que, certamente, não sabem onde depositarão, para que lá permaneçam para sempre). A mais conhecida é a fertilização oceânica: verter nanopartículas de ferro ou de ureia no mar para provocar florescimentos de plâncton, que absorvam dióxido de carbono e o leve para o fundo do mar.

 

As técnicas de geoengenharia são somente teorias, salvo alguma exceção, como a fertilização oceânica, da qual se conhecem experiências legais e ilegais que mostraram que, além de não servirem para seu propósito – o carbono não permanece no fundo do mar –, os impactos podem ser enormes, com rompimento da cadeia alimentar marinha, anoxia (falta de oxigênio) em camadas marinhas, criação de algas tóxicas etc.

 

A geoengenharia, para ter impacto no clima global, teria que ser aplicada em megaescala, rompendo um ecossistema global pouco conhecido, altamente dinâmico e em interação com toda a vida no planeta. Não existe, portanto, uma etapa experimental. O que se faz em pequena escala não mostraria a ação sobre o clima global, ainda que pudesse ter impactos negativos graves nas zonas ou região. E, caso feito em grande escala, não é experimental; é irreversível.

 

Por exemplo, as nuvens vulcânicas artificiais não podem ser retiradas, até que as partículas caiam na terra, o que é tóxico. Esta técnica pioraria demais o buraco que temos na camada de ozônio e a acidificação dos mares, problemas globais muito graves. Se realmente conseguirão diminuir a quantidade de luz solar que chega ao Norte, produzirão uma seca extrema na África e uma disfunção das monções na Ásia, colocando em perigo as fontes alimentares de 2 bilhões de pessoas.

 

Imaginem se a CIA pudesse decidir sobre o termostato global. A geoengenharia é arriscada tanto pelos seus efeitos climáticos como pelo seu potencial uso hostil contra outros países; sendo assim, a única coisa sensata a ser feita é proibir internacionalmente o seu uso.

 

 

Silvia Ribeiro é pesquisadora do Grupo ETC - www.etcgroup.org

Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

Retirado de América Latina en Movimiento.

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